Terrorismo nuclear é a maior ameaça aos EUA

Por Ric Rosenberg
Hearst Newspapers

Washington - O presidente Bush e o candidato democrata John Kerry estão de acordo em pelo menos um assunto - a maior ameaça que pesa sobre a nação americana é o terrorismo nuclear.

Apesar dessa rara coincidência de opiniões, até agora nenhum dos candidatos se referiu a um fato sinistro que está implícito nessa ameaça: as autoridades americanas simplesmente não sabem exatamente quantos milhares de armas nucleares táticas (artefatos atômicos de menor porte) a Rússia possui, e também não sabem se essas armas estão guardadas seguramente contra roubos ou a salvo de serem compradas por terroristas.

A situação não é tão grave em relação às armas de maior porte - as armas nucleares estratégicas. Vários tratados de redução bélica obrigam os Estados Unidos e a Rússia a compartilhar informações sobre seus arsenais de bombas nucleares e suas ogivas dispostas sobre mísseis intercontinentais.

Mas as armas nucleares táticas - algumas tão pequenas quanto um mini-cofre - deixam os estrategistas americanos profundamente preocupados nessa era de terrorismo. A sensação de desconforto é agravada pelos temores de que os terroristas venham a explorar a crescente corrupção na Rússia para comprar artefatos nucleares de porte tático.

Essas armas nucleares menores foram criadas com a intenção específica de destruir unidades do exército e setores da infraestrutura militar. Originalmente foram embutidas em foguetes de curto alcance, granadas, mísseis Cruise e bombas e minas não-teleguiadas. Essas têm menor poder destrutivo que a ogiva estratégica, que poderia facilmente destruir uma cidade inteira.

Em 1991, o governo do presidente George H.W. Bush, o pai, decidiu eliminar unilateralmente as chamadas armas nucleares táticas do arsenal americano. A resposta do ultimo primeiro-ministro da União Soviética, Mikhail Gorbachev, foi dizer que estaria providenciando uma contagem precisa dessas bombas menores.


As autoridades americanas ainda estão aguardando a entrega desse inventário, insistindo que uma contagem precisa é essencial para se estabelecer um parâmetro que irá possibilitar a eficácia de futuras auditorias, que determinarão se há alguma arma faltando ou não.

"Temos apressado os russos para que dividam essa informação conosco", diz Rose Gottemoeller, ex-subsecretário para assuntos de não-proliferação nuclear do departamento de Energia do governo americano. "Já se passou uma década, e eles ainda não nos forneceram esse inventário de armas nucleares táticas. Esse é uma lacuna muito importante que está no caminho de nossa mútua cooperação".

O ex-senador Sam Nunn, democrata do estado sulista da Geórgia e veterano analista da política de defesa, diz estar preocupado porque "quase nada está sendo feito" para contar de maneira precisa e salvaguardar essas armas táticas.

Os russos "possuem pequenas armas táticas, feitas para os campos de batalha durante a Guerra Fria, em números que podem chegar às dezenas de milhares, e simplesmente não temos idéia de quantas eles realmente têm agora", disse Nunn numa outra entrevista esse ano, à rede de televisão pública PBS. "Esperamos que eles realmente tenham esse inventário atualizado, porque essas são armas portáteis que poderiam facilmente ser transportadas, roubadas ou vendidas. Não podemos aguardar esse relatório por mais tempo".

Jonathan Medalia, especialista em terrorismo nuclear do departamento de pesquisa do Congresso - que integra a Biblioteca do Congresso americano - já manifestou preocupação quanto à Rússia e ao Paquistão, "nações que motivam uma inquietação maior, por serem fontes potenciais de armas ou de material passível de fissão nuclear" para terroristas.

A Rússia "tem muitas armas nucleares táticas, que tendem a ser menos potentes, mas que se encontram mais dispersas e que aparentemente estão menos seguras que as armas estratégicas", escreveu Medalia num relatório divulgado mês passado.

Graham Allison, ex-secretário assistente de defesa no governo Clinton e que está trabalhando como assessor para John Kerry, faz uma previsão assustadora num novo livro, "Terrorismo Nuclear: Catástrofe Definitiva e Evitável": "Na minha visão de especialista, do jeito que as coisas vão, na próxima década um ataque nuclear terrorista contra os Estados Unidos tem mais possibilidades de acontecer do que de não acontecer".

Se não houver uma futura cooperação russa, os estrategistas americanos poderão contar apenas com simples previsões formais, elaboradas por eles mesmos, sobre a dimensão real do arsenal tático nuclear russo. Numa estimativa a partir de dados dos anos noventa, a Inteligência americana calcula que haja umas 50 mil armas táticas, que variam em tamanho e potencial letal.

Já de acordo com o especialista Gottemoeller, a melhor previsão seria de que o arsenal nuclear estaria atualmente entre 16 mil e 22 mil armas, sendo que algumas teriam sido deliberadamente desmanteladas ou estariam fora de atividade por falta de manutenção.

Medalia diz que um ataque nuclear contra uma cidade americana "é possível e teria conseqüências catastróficas". Num dos cenários mais pessimistas previstos pelos estrategistas de guerra, apenas uma das armas nucleares táticas, detonada sobre uma populosa cidade americana, poderia matar 500 mil pessoas e causar um prejuízo de U$1 trilhão (equivalente a R$ 3 trilhões), escreveu Medalia.

Também motivo de preocupação para os estrategistas americanos é o esquema de segurança que protege milhares de toneladas de material radiativo. São sobras de operações nucleares russas que poderiam ser utilizadas na construção de uma "bomba suja", como é chamada uma arma convencional carregada de material radiativo. A explosão de uma "bomba suja" poderia espalhar radiação e pânico em massa, mas provavelmente não causaria tantas mortes, porque não haveria propriamente uma explosão atômica.

Após a invasão americana no Afeganistão e a descoberta de documentos da Al Qaida mostrando o interesse da organização na compra desse material radiativo, o governo de Bush pediu a Moscou uma maior vigilância sobre material combustível descartado e subprodutos de reatores atômicos dos programas nucleares da antiga União Soviética- e da atual Rússia.

As preocupações quanto ao terrorismo nuclear, manifestadas por Bush e Kerry, repercutem um alerta emitido em 2001 por uma comissão bipartidária, liderada pelo então senador Howard Baker, republicano do Tennesee, e por Lloyd Cutler, ex-assessor da Casa Branca no governo Clinton. Eles disseram que "a ameaça à segurança nacional americana mais urgente hoje em dia é o perigo representado por armas de destruição em massa ou pelo material conversível que se encontra na Rússia, e que pode ser roubado ou vendido a terroristas ou a nações hostis." País teme tráfico de armas nucleares de pequeno porte na Rússia Marcelo Godoy

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