Al Gore conclama eleitores a "justiçarem" Bush

Matthew Kelly
Em Washington

Ao atacar o governo Bush nesta segunda-feira (18/10), considerando-o "desonesto e incompetente", o ex-vice-presidente Al Gore convocou todos os americanos a "fazerem justiça" ao presidente Bush, removendo-o da Casa Branca no próximo dia 2 de novembro.

Num discurso na universidade de Georgetown, Gore por diversas vezes considerou o presidente como pessoa dissociada da realidade, acusando Bush de fundamentar importantes decisões da segurança nacional em puras mentiras.

"Isso vai além da incompetência", enfatizou Gore. "É uma atitude de imprudência que coloca em risco a proteção e a segurança do povo americano." Gore também disse que, em seus quase quatro anos de governo, Bush foi corrompido pelo poder.

"O apego ao poder pelo poder é o pecado original dessa presidência", constatou Gore. O presidente "roubou o simbolismo da religião para poder passar sua agenda conservadora. A crueldade da presidência de Bush reside no fato de que ele veste a ideologia conservadora tradicional com uma máscara de falsa autoridade moral, enganando muitos americanos", segundo Gore.

O político democrata acusou o presidente de ignorar as provas que mostravam haver pouca conexão entre a organização terrorista Al-Qaeda e Saddam Hussein. A insistência de Bush em produzir uma ligação entre a Al-Qaida e o Iraque foi uma "completa trapaça e não uma simples negligência", disse o ex-vice-presidente.

A comissão indicada por Bush para investigar o que aconteceu no 11 de setembro concluiu que não havia ligação entre o Iraque e os ataques terroristas aos Estados Unidos. Mas antes da invasão do Iraque, segundo Gore, 70% da nação americana acreditava que havia uma conexão.

Nas últimas semanas, o secretário de defesa Donald Rumsfeld tem afirmado que não viu provas confiáveis ligando a organização terrorista ao Iraque, acrescentou Gore. Entretanto antes da guerra "havia um propósito de fazer essa conexão, com ou sem a existência de provas", analisou Gore.

Bush tem afirmado que a guerra no Iraque faz parte de uma luta global contra o terrorismo, e o vice-presidente Dick Cheney diz constantemente que a Al Qaida estava ligada a Saddam Hussein.

O governo Bush apresenta como prova da relação entre a Al Qaida e o ex-ditador a presença do terrorista jordaniano Abu Musab Zarqawi em território iraquiano. Entretanto, um relatório da CIA, divulgado em agosto passado, coloca dúvidas sobre se Saddam Hussein estava realmente protegendo Zarqawi e seus adeptos antes da guerra. Uma figura obscura, Zarqawi estaria por trás da atual atividade dos rebeldes no Iraque, segundo acreditam alguns analistas.

Gore se referiu a um memorando que Bush recebeu em agosto de 2001, advertindo que Osama bin Laden estava "determinado" a atacar o território americano, como prova de que o governo Bush não fez o bastante para prevenir os ataques de 11 de setembro.

Quando Gore era o vice-presidente, segundo o que ele disse em Georgetown, o único alerta diário de segurança que se aproximou da seriedade desse memorando recebido por Bush em agosto foram avisos em relação a possíveis ataques terroristas nos Jogos Olímpicos de 1996 e na noite de Ano Novo em 1999. Nessas duas ocasiões, Gore lembra que aconteceram imediatamente reuniões na Casa Branca para avaliar as ameaças.

Em comparação, segundo Gore, Bush "não chegou a considerar nem duas vezes aquele relatório, pelo menos não até terminar a leitura de 'Meu Amiguinho, o Bode' no dia 11 de setembro", se referindo à visita escolar que o presidente fazia quando soube dos ataques.

Gore disse que a agenda de Bush no Iraque está "mal das pernas", enquanto a violência crescente aumenta as possibilidades de acontecer uma guerra civil no Iraque e de ser estabelecido no país um estado islâmico fundamentalista.

Embora Gore não esteja participando ativamente da campanha de John Kerry, ele apoiou a indicação democrata em março, e na universidade de Georgetown disse que "defendia orgulhosamente" a chapa Kerry-Edwards.

Observadores perceberam que Gore está bem mais descontraído desde que disputou a corrida presidencial de 2000, quando alguns o consideravam muito "engomado" e formal.

Em dezembro de 2002 ele declarou sua intenção de ficar de fora da disputa eleitoral de 2004. Desde então, Gore tem periodicamente feito discursos criticando medidas tomadas por Bush, como a invasão do Iraque, a gestão da guerra contra o terror e as políticas ambientais.

Gore gracejou, dizendo que ele estava no "grau nove" em sua "recuperação" na política, mas confessou que estava se sentindo tentado a "recair" na vida pública, após ter sido aplaudido de pé pela platéia formada por cerca de 500 estudantes de Georgetown. Ex-vice-presidente acusa republicanos de terem amor ao poder Marcelo Godoy

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