Votação antecipada nos EUA deve ajudar Kerry

Stewart M. Powell
Em Washington

Não contem isso para George W. Bush ou para John F. Kerry, mas os últimos 10 dias de campanha virão tarde demais para conquistar muita gente --cerca de 36 milhões de pessoas poderão se aproveitar do novo sistema de 'votação antecipada".

Trinta e dois Estados --inclusive alguns que poderão definir o resultado da eleição presidencial, como Flórida, Iowa e Wisconsin-- apresentam aos seus eleitores a opção de preencher as cédulas bem antes do 2 de novembro.

O número de eleitores "apressados" aumentou três vezes em relação aos que votaram antes da hora em 1996, devido ao interesse de autoridades eleitorais estaduais em aumentar a participação dos votantes.

Como exemplo, os eleitores do Iowa, estado ferreamente disputado por Bush e Kerry, estão liberados para votar desde o dia 23 de setembro, 40 dias antes do chamado dia da eleição. O Oregon, onde o comparecimento às urnas começou 18 dias antes da hora, já pode ter dado a Kerry os sete votos no Colégio Eleitoral, considerando a liderança dele nas pesquisas e a tendência dos democratas em votar antecipadamente com mais freqüência que os republicanos.

"A noção de que os eleitores americanos votam num só dia já não corresponde à verdade", diz Kate Kenski, analista de pesquisas senior no Centro Annenberg de Políticas Públicas, na Universidade da Pensilvânia. "O chamado dia da eleição hoje em dia pode ser considerado muito mais como o último dia para se votar".

Se a pesquisa de Annenberg é precisa, 22% do total estimado de 165 milhões --cerca de 36 milhões de eleitores-- ou já votaram ou pretendem fazê-lo antes do dia eleitoral. 5% --ou mais de 8 milhões de eleitores-- disseram que já tinham votado, na pesquisa encerrada dia 18 de outubro.

A votação antecipada poderá ser um verdadeiro tesouro, de graça, para Kerry. O democrata candidato à presidência tem uma vantagem de quatro pontos percentuais sobre Bush entre os eleitores antecipados, segundo a pesquisa do Centro Anneberg, que também analisou a preferência dos entrevistados.

Em 2000, o democrata Al Gore conquistou os votos do Colégio Eleitoral do Estado de Iowa com uma vantagem de 4.144 votos, embora Bush tenha sido o mais votado no chamado dia da eleição. Naquele ano, quase 21% dos eleitores do Estado votaram antecipadamente.

Esse ano os eleitores de Iowa começaram a votar em 23 de setembro --uma semana antes do primeiro debate presidencial. E com a eleição antecipada, o número de justificativas de não-comparecimento às urnas no dia da eleição (devido à antecipação do voto) cresceu mais de 13% esse ano.

O secretário de Estado do Iowa, Chet Culver, disse que a votação antecipada está "transformando a maneira e o momento do voto no Estado": "Quando há mais oportunidades de acesso e são dadas opções aos eleitores, mais gente pode participar do processo eleitoral", segundo Culver.

Mas há controvérsias entre os especialistas sobre a importância da votação antecipada no aumento do comparecimento às urnas, nesse ano de eleição presidencial.

Michael P. McDonald, acadêmico especialista em eleições da Universidade George Mason e do Instituto Brookings, acredita que a antecipação provavelmente fará disparar o índice de comparecimento esse ano.

"Muita gente tem uma noção romântica sobre o Dia da Eleição --aquela coisa de ficar na fila, papear com os vizinhos e pegar o adesivo 'Eu votei em fulano'", diz McDonald. "Mas muitos estão levando em conta o fator conveniência na hora de votar. E se ficar na fila fosse assim tão importante para a democracia, a União Soviética teria sido uma democracia há muitos anos".

Já Curtis Gans, diretor do Comitê para o Estudo do Eleitorado Americano, acredita que a votação antecipada só atrai aqueles que de qualquer forma compareceriam.

"A votação antecipada difunde as cédulas por um tempo prolongado e também espalha os recursos destinados aos sistemas 'get-out-the-vote' (de mensagens telefônicas interativas)", segundo Gans. "Mas normalmente a antecipação não influi muito no comparecimento total".

Afinal, a votação antecipada faz aumentar ou apenas dispersa o comparecimento?

Seja qual for a resposta, os especialistas parecem estar de acordo nas previsões sobre o índice de comparecimento dia 2 de novembro.

Tanto McDonald quanto Gans prevêem que entre 58% e 60% dos eleitores registrados e habilitados para a eleição irão votar para presidente, gerando entre 118 milhões e 122 milhões de votos. Em 2000 foram 105 millhões de votos depositados.

"Tudo indica que em 2004 teremos um ano antológico para a democracia nos Estados Unidos", diz McDonald. "Muita gente já se envolveu no processo eleitoral, e o índice de comparecimento para as justificativas já aumentou em proporções inéditas".

Gans acha que o alto comparecimento previsto seria uma conseqüência do estado emocional dos eleitores, influenciado pela guerra no Iraque, a ameaça de ataques terroristas e as incertezas quanto à economia.

"As paixões estão inflamadas em ambos os lados", acredita Gans. "Mesmo as pessoas que ainda não sabem se irão votar não estão neutras em relação aos candidatos".

O comparecimento previsto de cerca de 60% da população com idade eleitoral excederia o índice de 55,2% em 1992, O que ajudou a eleger o democrata Bill Clinton. Mas o comparecimento em 2004 poderá ser inferior à faixa entre 60,9% e 62,8%, registrada por eleições marcadas pela emoção, como a que aconteceu durante a guerra da Coréia em 1952, o duelo Kennedy-Nixon em 1960, a disputa Johnson-Goldwater em 1964 e a tumultuada eleição de 1968. Ao menos 36 milhões votarão antes do dia da eleição presidencial Marcelo Godoy

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