Líder democrata Tom Daschle dá adeus ao poder

Judy Holland
Em Washington

O líder da minoria no Senado, Thomas A. Daschle, de Dakota do Sul, importante figura Democrata na política americana e alvo predileto dos Republicanos, deu adeus ao Congresso nesta sexta-feira (19/11). Em sua despedida, instou os colegas a buscarem um consenso.

Em um pronunciamento de 20 minutos, controlado e calmo, mas às vezes tão apressado que quase inaudível, Daschle disse que adorou trabalhar no Senado. "Houve desafios, houve triunfos, houve desapontamentos", disse ele. "Mas tudo valeu a pena, e sinto-me grato por todos os momentos".

Principal Democrata do Senado por uma década, Daschle exortou seus colegas a usarem seu poder sabiamente. Sua posição histórica, como o 1.776º senador do país [o número 1776 é emblemático nos EUA, pelo fato de o país ter conquistado sua independência no ano de 1776], serviu para lembrá-lo de que a revolução americana continua, disse ele.

"Reconheceremos um dia, que esse poder não está apenas em nossos braços, mas em nossa sabedoria, nossa compaixão, nossa tolerância, nossa disposição de cooperar com todo o mundo?" perguntou. "Se eu pudesse deixar este corpo com um desejo, seria o de nunca desistirmos da busca de um terreno comum."

Daschle desejou boa sorte ao seu sucessor e ex-assistente, senador Harry Reid, de Nevada, dizendo: "Se os amigos são parentes que escolhemos, então ele é meu irmão."

Passando a mão por sua mesa, na primeira fileira, Daschle disse que os nomes dos ex-líderes ali gravados serviram de lembrete constante de que os congressistas devem proteger a liberdade, assim como os soldados.

"Nosso papel é trabalhar como se déssemos nossas vidas todos os dias", disse Daschle. "Precisamos defender e proteger essa liberdade e passá-la adiante."

Depois do discurso, que foi seguido de cinco minutos de aplausos em pé, Daschle olhou para cima, para o balcão, onde mais de 100 membros de sua equipe e sua mulher estavam sentados tristes e lacrimosos; ele colocou a mão no coração, deu as costas e saiu.

No dia 2 de novembro, Daschle perdeu a reeleição para seu quarto mandato no Senado por uma margem de 4.500 votos. O vencedor, o ex-deputado John Thune, caracterizara Daschle durante a campanha como um liberal do Beltway, estranho aos valores de Dakota do Sul.

Nesta sexta, a ausência de Republicanos no Senado era evidente --um reflexo da animosidade partidária que afligiu o Senado. No início de seu pronunciamento, os únicos senadores Republicanos presentes eram Lamar Alexander, do Tennessee, e Peter Fitzgerald, de Illinois --que tinham acabado de fazer seus discursos de despedida. Eles estavam em suas mesas, enquanto o senador Norm Coleman, Republicano de Minnesota, presidia a sessão.

No final do discurso, os senadores Republicanos Mitch McConnell de Kentucky e Don Nickles, de Oklahoma, entraram. O líder da maioria no Senado, Bill Frist, do Tennessee, que entrou para a história ao fazer campanha em Dakota do Sul contra seu colega líder da minoria, gerou desaprovação aparecendo apenas depois do fim do pronunciamento de Daschle.

O relacionamento de Daschle com Frist piorou depois que Daschle tornou-se especialista em obstruir a agenda Republicana. Ele gerou revolta especialmente quando tentou expandir os poderes da minoria criando um longo atraso para a aprovação de um juiz nomeado para a corte de recursos pelo presidente Bush, Miguel Estrada.

O primeiro em sua família a completar a faculdade e filho de um contador de uma loja de peças de automóveis, Daschle tornou-se líder da minoria, passou para líder da maioria e voltou à minoria com as mudanças de poder no Senado.

Ex-coroinha e oficial da inteligência da aeronáutica durante a Guerra do Vietnã, ele não era muito conhecido, apesar de seu status no Senado. Em 2001, foi lançado ao cenário internacional quando um de seus funcionários abriu uma carta contendo esporos de antraz. O escritório de Daschle foi evacuado, totalmente reformado e fechado por seis meses.

O senador Trent Lott, Republicano de Mississippi, que foi o líder de oposição a Daschle, disse que eles tiveram "o tipo de relacionamento que líderes devem ter" e que nunca bateram a porta na cara do outro, apesar de suas opiniões políticas divergentes.

Lott disse que Daschle foi crucial para orientar o Senado durante o julgamento de impeachment do presidente Clinton em 1999. Ele observou que os dois trabalharam juntos sem problemas nos três meses depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, nos quais aprovaram mais um pacote de salvamento de empresas aéreas, novos poderes para a polícia e segurança em aeroportos.

A sucessão rápida de novas leis deu ao Congresso seu maior índice de aprovação da história. O senador Lindsay Graham, Republicano de Carolina do Sul, que trabalhou junto a Daschle durante quatro anos para a criação de um seguro de saúde para reservistas da Guarda Nacional, observou que Daschle mudou o título da lei para inserir o nome de Graham primeiro.

"Ele tinha um imenso desejo de compartilhar o crédito", disse Graham.

No entanto, o senador Larry E. Craig, Republicano do Idaho, disse que o "jogo de obstrução de Daschle não se encaixa no que o povo americano espera do Congresso e do Senado".

Ele acrescentou: "Negar a ação do Senado abusando das regras não serviu a Tom Daschle ou à Conferência Democrata. Interessantemente, Tom pagou o preço. Não está mais aqui. Não tem mais poder no Senado." Senador pelo Estado de Dakota do Sul não conseguiu se reeleger Deborah Weinberg

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