Eleição organizada pelos EUA pode implantar regime xiita no Iraque

Stewart M. Powell
Em Washington

O presidente Bush está preparado para uma eleição democrática no Iraque que poderá desencadear uma guerra civil?

Esse poderá ser o resultado indesejado da eleição organizada pelos Estados Unidos para 30 de janeiro no Iraque, segundo o ex-assessor de Segurança Nacional da Casa Branca Brent Scowcroft, que serviu no governo do presidente Bush pai e do atual, e de dois outros especialistas em Iraque que já trabalharam para a atual administração Bush.

A eleição no Iraque, que deverá atrair cerca de 14 milhões de muçulmanos xiitas, muçulmanos sunitas e curdos iraquianos para as urnas no Iraque, e encorajar 1,5 milhão de expatriados iraquianos em 14 países a votar em trânsito, deverá, segundo as expectativas gerais, virar de ponta-cabeça a estrutura de poder no Iraque.

A maioria xiita do Iraque, cerca de 60% da população de 25 milhões, deverá obter o poder político que lhe escapou sob o ditador Saddam Hussein, um muçulmano sunita. Essa vitória deixaria os sunitas, que formam 20% da população, sem o poder político e econômico desproporcional que desfrutaram por tanto tempo com Saddam.

Especialistas estrangeiros vêem sinais de advertência de que os xiitas iraquianos podem estar se posicionando para criar um regime islâmico radical no estilo do Irã, com o estabelecimento do islamismo como religião oficial e a imposição gradativa da dura lei islâmica ao país de maioria secular.

Um regime xiita em Bagdá também teria ligações com o vizinho Irã, controlaria a segunda maior reserva de petróleo do mundo e exigiria a imediata retirada das tropas americanas.

Uma "guerra civil incipiente" pode irromper entre xiitas e sunitas depois de uma eleição que, segundo a maioria das expectativas, deverá dar o poder político à maioria xiita da população, até agora oprimida, advertiu Scowcroft à New American Foundation na última quinta-feira.

"As eleições no Iraque, em vez de se transformar em um ponto de virada promissor, têm um grande potencial para aprofundar o conflito", disse Scowcroft, um tenente-general aposentado da força aérea que tem ligações estreitas com a família Bush, e serviu durante o primeiro mandato do presidente como chefe do Conselho Assessor de Inteligência Externa da Presidência.

Um governo iraquiano liderado pelos xiitas combatendo uma rebelião predominantemente sunita poderá ser "um risco ainda maior para a luta sectária depois da eleição do que antes dela", adverte David L. Phillips, um ex-assessor para o Iraque do Departamento de Estado do governo Bush, que hoje é vice-diretor do Centro para Ação Preventiva no Conselho de Relações Exteriores.

A ascensão de um regime radical islâmico no Iraque e a perspectiva de guerra civil "não são exatamente os resultados que o presidente Bush pretendia quando foi 'libertar' o Iraque", disse Philips, autor de um livro a ser lançado em breve, "Losing Iraq: Inside the Post-War Reconstruction Fiasco" [Perdendo o Iraque: O fiasco da reconstrução no pós-guerra].

Larry Diamond, um ex-assessor do governo civil interino liderado pelos Estados Unidos no Iraque, disse que a Casa Branca "simplesmente não está pronta para um novo governo iraquiano na forma de um regime fundamentalista xiita aliado ao Irã". Membros do governo Bush "não estão prontos para o golpe contra os interesses americanos e a guerra civil que resultarão", acrescenta Diamond, hoje no Instituto Hoover da Universidade Stanford.

Bush reforçou seus contatos pessoais por telefone para convencer as autoridades iraquianas a realizar a eleição, em meio a pedidos de alguns iraquianos para que seja adiada. A primeira eleição democrática desde 1958 será "uma experiência incrivelmente esperançosa" para os iraquianos, que sofreram durante gerações tortura, mutilações e morte sob Saddam, enfatizou Bush na sexta-feira.

Os Estados Unidos vão "apoiar os cidadãos corajosos do Iraque que querem votar", disse Bush. "E a função dos militares americanos é fazer o melhor trabalho que pudermos para dar a todos os cidadãos a melhor oportunidade para que possam votar e participar."

Bush fez os comentários um dia depois que o tenente-general do exército Thomas Metz, o segundo homem no comando das forças lideradas pelos Estados Unidos no Iraque, admitiu em Bagdá que os ataques incessantes de rebeldes iraquianos tornaram o território de quatro das 18 províncias iraquianas inseguro para votar, principalmente no chamado Triângulo Sunita, no centro do país. "Não posso garantir que todo mundo conseguirá entrar numa cabine de votação em total segurança", disse Metz numa entrevista coletiva na quinta-feira.
Na tentativa de reforçar a segurança, o governo interino iraquiano estendeu a lei marcial por mais 30 dias para impor um toque de recolher noturno e dar às autoridades maior poder para fazer detenções e efetuar operações militares.

O secretário da Defesa americano, Donald Rumsfeld, enviou o general do exército aposentado Gary E. Luck para uma revisão "irrestrita" das operações militares dos Estados Unidos no Iraque - revisão que segundo Bush ajudará a "integrar" o treinamento pelos americanos das novas forças de segurança iraquianas em um novo regime eleito.

Pelo menos 1.352 soldados americanos morreram e pelo menos 10.252 ficaram feridos em ação desde o início da invasão e ocupação americanas, em 19 de março de 2003.

Ao manter a data de 30 de janeiro, Bush afirma que qualquer atraso seria uma recompensa pelos atentados terroristas dos rebeldes, desviaria o processo apoiado pela ONU para forjar a democracia e alienaria os xiitas iraquianos que concordaram em participar da eleição.

Mas importantes autoridades sunitas no governo interino do Iraque pediram um adiamento da eleição, ostensivamente devido à insegurança nas áreas de maioria sunita no centro do país, mas também por causa de uma provável derrota política. O Partido Islâmico Iraquiano, o maior partido político sunita, promete boicotar a eleição na tentativa de diminuir a legitimidade política do resultado.

Os críticos advertem a Casa Branca de que a tomada de poder pelos xiitas que resultará da eleição apenas inflamará a rebelião sunita e colocará em risco os curdos no norte do Iraque, que, assim como os sunitas, são contrários à imposição da estrita lei islâmica defendida pelos xiitas.

O ministro das Relações Exteriores iraquiano, Hoshyar Zebari, um curdo, tentou na semana passada diminuir essas preocupações durante uma reunião de ministros de Relações Exteriores na Jordânia, que incluiu autoridades dos países predominantemente sunitas fronteiriços com o Iraque. "Esses temores são exagerados e mal situados", afirmou Zebari. "Temos um processo político que restringe e equilibra [essa dominação por um grupo religioso]."

Mas há muito em jogo na eleição de 30 de janeiro. Os eleitores iraquianos estarão elegendo a Assembléia Nacional de 275 membros, que por sua vez escolherá um presidente e dois vice-presidentes entre seus membros. Essas três autoridades indicarão então o primeiro-ministro e o gabinete de ministros do país.

A Assembléia Nacional também será responsável por elaborar a Constituição permanente do Iraque até 15 de agosto, que então será submetida aos eleitores até 15 de outubro, preparando o cenário para uma eleição nacional até 31 de dezembro, que elegerá um governo iraquiano totalmente sob os procedimentos aprovados pela população.

Com ou sem eleição, os especialistas pintam um quadro sombrio.

Philips, que prefere seguir em frente sem eleição, diz que o governo Bush deveria "começar um planejamento de pior caso para uma rebelião de pior caso", envolvendo o país (do tamanho da Califórnia) numa guerra civil sectária e étnica, que deixará o território fragmentado entre xiitas, árabes sunitas e curdos sunitas.

"Infelizmente, tudo isso é possível", disse Philips.

Diamond, que defende o adiamento da eleição "prematura e mal planejada", diz que as políticas do governo americano "estão implodindo" no Iraque. "Se não ficarmos mais espertos, vamos acabar sem atingir nenhum de nossos objetivos - democracia, estabilidade, paz ou influência na região." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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