EUA avançam pouco em negociações com Coréia do Norte e Irã sobre a questão nuclear

Stewart M. Powell
Em Washington

O Irã afirma ter o "direito inalienável" de adquirir tecnologia nuclear, enquanto a Coréia do Norte parece estar se preparando para fazer um teste nuclear subterrâneo. Esses são os mais recentes sinais de que os apelos do presidente Bush estão caindo em ouvidos surdos.

Os analistas alegam que Pyongyang e Teerã vão continuar a desafiar os
pedidos de Bush para que suspendam seus programas nucleares pelos motivos a seguir:

- Os EUA não conseguem arregimentar ajuda do Conselho de Segurança da ONU depois que a credibilidade americana foi ferida pelas falsas alegações de armas de destruição em massa no Iraque;

- O Pentágono tem suas possibilidades de ação militar limitadas porque as forças americanas estão presas no Iraque;

- Os EUA não têm o apoio de aliados regionais importantes para começar uma briga.

Bush deve discutir os desafios da Coréia do Norte e do Irã durante uma
reunião com o presidente russo Vladimir Putin, em Moscou, na segunda-feira (09/5). A Rússia está no centro dos dois impasses.

O Kremlin, antigo aliado da Coréia do Norte, está instando Pyongyang a
voltar às negociações suspensas com um grupo de seis nações que incluem os EUA, Coréia do Sul, China, Rússia e Japão.

A Coréia do Norte, na semana passada, apressou preparativos para um teste nuclear subterrâneo, segundo membros da defesa japonesa. Assim, incitou uma ameaça japonesa de buscar intervenção diplomática da ONU, de acordo com a Associated Press.

Mohamed ElBaradei, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica,
advertiu na sexta-feira que uma explosão nuclear subterrânea teria
"repercussões políticas desastrosas". A autoridade exortou Pyongyang a
suspender seus movimentos. Em uma entrevista com a CNN ela disse que a
Coréia do Norte deveria reconsiderar esse "passo absolutamente
irresponsável".

Índia e Paquistão foram as últimas nações a conduzirem testes nucleares
subterrâneos, na primavera de 1998. Cada um fez total de seis testes, em
resposta ao movimento do outro.

Outras nações com armas nucleares puseram fim a décadas de testes a céu
aberto e subterrâneos durante a Guerra Fria, antes da adoção do Tratado de Proibição de Testes de 1996. Os EUA conduziram 1.030 testes nucleares até 1992; a União Soviética conduziu 715 testes até 1990; a França, 210 testes até 1995; o Reino Unido e a China conduziram 45 testes cada um, até sua interrupção nos anos 90.

A Rússia está fornecendo tecnologia e combustível para um reator nuclear
iraniano de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,5 bilhões) em construção na cidade do Golfo Pérsico de Bushehr.

As discussões de Bush com Putin salientam a estratégia do governo Bush de pressionar os aliados a lidarem com a Coréia do Norte e Irã, em vez de buscar o Conselho de Segurança da ONU, como fez antes da invasão do Iraque de 2003.

Estima-se que a Coréia do Norte tenha de oito a dez armas nucleares; o Irã suspendeu temporariamente seu programa de enriquecimento do urânio, que poderia produzir material suficiente para produzir uma arma nuclear em um ano, acreditam as autoridades americanas.

O secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, enfatizou na
semana passada que o governo não tem planos de abandonar seus esforços de diplomacia, aparentemente infrutíferos, e pedir formalmente ao Conselho de Segurança da ONU que interfira e imponha sanções.

"Agora é hora de nos concentrarmos nos esforços diplomáticos em curso para resolver essas duas ameaças", disse McClellan.

Quando a secretária de Estado Condollezza Rice lembrou a Coréia do Norte que os EUA tinham forças militares disponíveis para "deter o que quer que esteja fazendo", McClellan prontamente enfatizou que a Casa Branca estava "buscando uma solução diplomática", acrescentando: "Não vejo necessidade de ficar levantando possibilidades nesse ponto".

Em relação à Coréia do Norte, os EUA estão contando com as negociações entre seis nações para persuadi-la a aceitar assistência econômica e humanitária, assim como ajuda aliada para construir um reator de energia nuclear. Em troca, o país concordaria em parar de expandir seu arsenal nuclear, que teria atualmente entre oito e dez ogivas nucleares.

Em relação ao Irã, os EUA estão contando com o esforço da União Européia, liderado pelo Reino Unido, França e Alemanha, para persuadi-lo a desistir de montar armas nucleares. Enquanto isso, o país continua desenvolvendo um programa nuclear que as autoridades iranianas insistem ser limitado à produção de energia elétrica.

Os dois esforços do governo Bush depararam-se com obstáculos.

O almirante Lowell Jacoby, chefe da Agência de Inteligência da Defesa,
adverte que a Coréia do Norte provavelmente não vai entregar seu arsenal
nuclear, porque serve como "importante ficha de barganha". Ele disse em
audiência no Comitê das Forças Armadas do Senado: "É improvável que (a
Coréia do Norte) entregue toda sua capacidade."

O ex-embaixador Charles L. Pritchard, que deixou o governo Bush em 2003
depois de participar da equipe que negociou com a Coréia do Norte, diz que o governo também teria dificuldades em conseguir o apoio dos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU para uma medida mais dura.

"Temos uma falha de credibilidade no que diz respeito a nossa inteligência. Os membros do conselho de segurança lembram dos erros nos dados americanos referentes ao Iraque. Eles vão querer provas mais consistentes antes de concordar em tomar qualquer medida", diz Pritchard, oficial de carreira do exército há 28 anos que serviu durante o governo Bush e Bill Clinton como especialista em Coréia.

Donald G. Gross, especialista em Coréia que serviu como professor adjunto na Universidade Yonsei, na Coréia do Sul, diz que o governo Bush tem pouco apoio da China, Coréia do Sul, Japão ou Rússia para aumentar a pressão sobre a Coréia do Norte.

A luta de Bush para por fim às ambições nucleares da Coréia do Norte, Irã e Iraque vem desde seu primeiro discurso do Estado da União, depois dos ataques de 11 de setembro.

"Estados como esses e seus aliados terroristas constituem um eixo do mal, armando-se para ameaçar a paz do mundo", advertiu Bush. "Os Estados Unidos da América não vão permitir que os regimes mais perigosos do mundo nos ameacem com as armas mais destrutivas do mundo."
Ainda assim, a invasão preventiva do Iraque em março de 2003 parece ter
complicado os esforços subseqüentes para persuadir a Coréia do Norte e o Irã a abandonarem seus programas nucleares.

A Coréia do Norte cita a derrubada do regime iraquiano pelos EUA como
evidência de que precisa de armas nucleares para deter um ataque americano.

O brandir de armas norte-coreano levou Condollezza Rice a garantir a
Pyongyang que Bush considera o regime stalinista renegado o governo
"soberano" da Coréia do Norte e não tem planos de invadir a nação isolada e empobrecida de 22,9 milhões de aflitos com uma renda per capita de US$ 1.400 (em torno de R$ 3.500) ao ano.

O Irã adotou uma abordagem similar para justificar seu direito ao poder
nuclear. O ministro de relações exteriores iraniano, Kamal Kharrazi, disse na semana passada que sua nação mantinha o "direito inalienável" de desenvolver tecnologia nuclear para "propósitos pacíficos", particularmente depois do desenvolvimento americano de um instrumento nuclear de destruição de abrigos e a manutenção israelense de "um dos maiores arsenais de armas nucleares".

O Irã continua "determinado a perseguir todas as áreas da tecnologia nuclear - incluindo o enriquecimento- exclusivamente para fins pacíficos", disse Kharrazi, acrescentando que sua nação continuava "ansiosa em oferecer garantias de que continuarão permanentemente pacíficos". Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos