John Edwards implementa estratégia sulista para eleição de 2008

Stewart M. Powell
Em Washington

O ex-senador John Edwards está travando uma guerra de um homem só contra a pobreza. Uma iniciativa que poderia servir como trampolim para uma "estratégia sulista" para a campanha presidencial de 2008, baseada na premissa de que o democrata da Carolina do Norte poderia se sair melhor no sul dos Estados Unidos do que a senadora Hillary Rodham Clinton, democrata por Nova York.

Desde que lançou a sua campanha mal sucedida como candidato democrata à vice-presidência na chapa do senador John Kerry, democrata por Massachusetts, em novembro passado, e após ter completado um único mandato de seis anos no Senado em janeiro passado, o advogado de tribunais multimilionário:

- Visitou 22 Estados - incluindo cinco do sul - para expor idéias de cunho político, ser patrono de formaturas ou fazer discursos encorajadores aos democratas, invocando a sua cruzada populista contra a pobreza;

- Divulgou junto ao público o seu cargo de meio expediente de diretor do Centro sobre Pobreza, Trabalho e Oportunidade, da Escola de Direito da Universidade da Carolina do Norte, pelo qual recebe US$ 40 mil anuais;

- Arrecadou verbas para o seu comitê de ação política - denominado One America for All of Us ("Uma América para Todos Nós") - a fim de ajudar os candidatos democratas que enfrentarão eleições congressuais de metade de mandato em 2006;

- Recusou-se a descartar a participação em uma chapa presidencial em 2008, mesmo que Kerry volte a disputar.

"Essa é agora a minha campanha - erradicar a pobreza nos Estados Unidos", afirma Edwards, filho de um operário pobre da indústria têxtil, que precisou pedir emprestado US$ 50 para pagar a conta do hospital quando Edwards nasceu. "Vou lançar uma luz brilhante sobre os norte-americanos no que tange à questão da pobreza. Para mim esta é uma questão de cunho pessoal".

Os empenho obstinado de Edwards poderia ajudar fazer do democrata de 52 anos o "bloqueador de Hillary" na corrida pela escolha do candidato presidencial democrata em 2008, quando a ex-primeira-dama possivelmente procurará ser a candidata do Partido Democrata à presidência.

A derrota por uma margem estreita em 2004 e a derrota democrata em 1988 com o governador de Massachusetts, Michael Dukakis na cabeça da chapa, são fatos que podem fazer com que alguns ativistas democratas evitem escolher um outro candidato democrata do nordeste, como é o caso de Hillary Clinton, para disputar a presidência em 2008.

"Edwards terá uma boa chance de vencer algumas ou a maioria das primárias no sul caso surja como o único candidato sulista", opina Larry Sabato, professor da Universidade de Virginia. "Mas Edwards não se saiu suficientemente bem em 2004 para retirar os rivais de campo, de forma que pode haver competição entre os democratas em busca de uma alternativa a Hillary".

As últimas pesquisas indicam que Edwards possuiu um apelo político durável em um campo liderado por Hillary Clinton e Kerry. Uma pesquisa de opinião realizada pela Faculdade Marista junto aos democratas, divulgada em 6 de maio, revelou que Hillary Clinton conta com o apoio de 40% dos democratas, Kerry com 18% e Edwards 16%.

Mas, de forma surpreendente, a pesquisa revelou que Edwards teria um desempenho melhor do que Hillary Clinton e John Kerry contra os dois contendores republicanos mais populares - ficando um pouco atrás do senador John McCain, republicano pelo Arizona, e vencendo o ex-prefeito da Nova York, Rudolph Giuliani.

Edwards tem levado a sua mensagem, às vezes irrefletida, de combate à pobreza a instituições prestigiadas como a Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade de Harvard, ou a Escola de Direito da Faculdade William and Mary, e também a eventos arrecadadores de verbas para os democratas, como o que ocorreu na semana passada em Detroit, a fim de demonstrar "convicções e princípios centrais", para marcar um contraste com os astuciosos cálculos políticos de alguns políticos cujos nomes não mencionou.

A cruzada antipobreza de Edwards poderia ter uma grande ressonância política no seu nativo sul - uma região composta de 11 Estados, afligida pela pobreza crônica, e que detém a chave para as aspirações democratas de reconquistar a Casa Branca.

Os únicos democratas a conquistar a presidência desde a 2ª Guerra Mundial venceram em pelo menos quatro Estados sulistas. A chapa Kerry-Edwards, encabeçada por um liberal democrata de Massachusetts, não obteve a vitória em um único Estado sulista sequer no ano passado - uma sina que tem perseguido toda chapa democrata liderada por um candidato que não fosse do sul desde que o senador John F. Kennedy, democrata por Massachusetts, venceu a eleição em 1960.

Atualmente, dez dos 11 Estados sulistas padecem de índices de pobreza superiores à média nacional. Dos cerca de 36 milhões de norte-americanos que vivem em estado de pobreza, 13 milhões residem no sul - sendo vários deles negros, ou brancos da zona rural com passados de dificuldades semelhantes ao de Edwards.

"Todas as vezes que discurso, não importa onde seja, eles me escutam falar sobre a questão da pobreza", disse Edwards em uma entrevista por telefone. "É muito importante que os líderes defendam aquilo em que acreditam. Essa é uma das formas pelas quais o povo avalia a sua força como líder. Você possui convicções e está disposto a lutar por essas convicções, independentemente de elas serem populares ou impopulares?".

Edwards, que acumulou uma fortuna pessoal estimada em mais de US$ 20 milhões durante duas décadas de uma carreira como advogado de tribunais, diz: "Fui abençoado com tudo no decorrer da minha vida".

Mas ele promete "proteger aqueles que cresceram da forma como eu cresci" - pessoas "para as quais a vida se desenrolou da forma errada, enquanto a vida se desenrolava da maneira certa para mim".

O discurso antipobreza de Edwards pode atrair os ativistas do partido e os negros nas primárias do sul, assim como a sua discussão transparente da questão racial o ajudou a derrotar Kerry nas primárias da Carolina do Sul em 2004. "Edwards quer pegar o episódio da Carolina do Sul e replicá-lo por toda a região sul", afirma Sabato.

Edwards diz que qualquer decisão quanto a tentar uma vaga à presidência dependerá do prognóstico da sua mulher, Elizabeth, 55, que vem passando por sessões de quimioterapia, cirurgia e radioterapia para tratamento de câncer de mama, desde que a doença foi diagnosticada nos últimos dias da campanha presidencial.

"A decisão se baseará no que acontecer com a minha família, com Elizabeth, e naquilo que eu achar que o país precisa", diz Edwards. "Elizabeth está indo bem".

O casal e os seus dois filhos, Claire, de sete anos, e Jack, de cinco, estão se preparando para se mudar da elegante casa, construída em 1830, no bairro de Georgetown, na capital do país, para a residência da família em Raleigh, Carolina do Norte, onde eles aguardarão que terminem as obras de construção da nova casa em uma propriedade de 40,5 hectares perto de Chapel Hill.

Edwards está vendendo o sobrado de Washington D.C. por US$ 6,5 milhões. O imóvel foi renovado e ampliado após ter sido adquirido por US$ 3,8 milhões em 2002.

Edwards entraria em 2008 em uma corrida pela presidência que está adquirindo a feição, nos dois partidos, de a maior disputa política "aberta a quiser entrar" em décadas. Nem os republicanos nem os democratas entrarão nessa disputa com um candidato de consenso.

Entre os desafios de Edwards há a história: candidatos derrotados ao cargo de vice-presidente nunca conquistaram a presidência quatro anos mais tarde.

Mas esse nativo da Carolina do Norte, com cara de garoto, possui pontos consideravelmente fortes, especialmente o seu carisma natural e a aparente simpatia que desperta nas pessoas comuns. O seu livro que está para ser lançado sobre casas da infância, cujo título é "Blueprints: The Architecture of our Lives" ("Projetos: A Arquitetura das Nossas Vidas"), deve contribuir para a sua popularidade junto ao eleitorado. Danilo Fonseca

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