Atritos prejudicam relacionamento entre EUA e Canadá

Stewart M. Powell
Em Washington

Os canadenses comemoram 138 anos de unidade e os norte-americanos celebram 229 anos de independência neste final de semana, em meio a atritos cada vez maiores entre esses antigos aliados.

O relacionamento conflituoso entre os dois países continua seguindo o seu padrão de altos e baixos, passando dos momentos de alegria compartilhada e objetivos comuns aos intervalos de tensão, estranhamento e retórica hostil.

Neste período em que os canadenses celebrarão o Dia do Canadá (na última sexta-feira) e os norte-americanos o Dia da Independência (nesta segunda-feira), as duas nações não se entendem quanto à questão do Iraque, À guerra contra o terrorismo, ao sistema de mísseis balísticos de defesa, ao mal da vaca louca e aos planos do governo Bush no sentido de exigir que os norte-americanos utilizem passaportes no valor de US$ 67 ao entrarem no Canadá, para que possam ser readmitidos nos Estados Unidos.

O presidente Bush e o primeiro-ministro canadense Paul Martin poderão também colidir quanto à questão do aquecimento global na reunião econômica de cúpula de três dias do G-8, na Escócia, que começa na próxima quarta-feira.

Desentendimentos menores persistem quanto à questão da extração de madeira, do trigo e também quanto aos planos dos Estados Unidos para acabar com o isolamento geológico de 800 anos do Lago Devils, em Dakota do Norte, desviando águas de lagos potencialmente hospedeiros de parasitas para o Rio Vermelho, que corre para o norte, adentrando o Canadá.

As disputas são muitas vezes alimentadas por visões diferentes de mundo, que têm suas raízes no contraste entre a ruptura gradual e pacientemente negociada entre Canadá e Reino Unido, em um processo que levou quase um século, e a abrupta declaração de independência dos Estados Unidos.

Autoridades de alto escalão das duas nações tentam minimizar a importância das diferenças entre uma extensa e próspera nação do norte, que possui uma população menor que a da Califórnia - e uma superpotência dinâmica, que possui uma economia e uma população pelo menos dez vezes maiores que as do vizinho.

"Somos dois países soberanos e de tempos em tempos adotaremos uma postura diferente em relação aos fatos", diz Frank McKenna, o recém-nomeado embaixador canadense para os Estados Unidos.

Roger F. Noriega, secretário assistente de Estado dos Estados Unidos para questões do Hemisfério Ocidental, diz: "A própria proximidade do nosso relacionamento praticamente determina que teremos esses atritos de vez em quando".

Christopher M. Sands, especialista em relações entre Estados Unidos e Canadá do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, diz que os atritos estão levando norte-americanos e canadenses a lançar "ataques mútuos crescentes sem provocação".

"Expressar ressentimentos subjacentes é algo que está se tornando socialmente aceitável", afirma Sands. "Isso está tornando o nosso relacionamento mais ríspido, e fazendo com que haja mais ataques e insultos".

A revista neoconservadora "Weekly Standard" recentemente presenteou os seus leitores com um artigo cujo título é "Bem-vindo ao Canadá: A Grande e Branca Perda de Tempo". Carrolyn Parrish, integrante do Parlamento Canadense pelo Partido Liberal, chamou a "coalizão dos determinados" de Bush no Iraque de uma "coalizão de idiotas".

A troca de impropérios faz lembrar o incidente ocorrido durante o primeiro mandato de Bush, quando um assessor canadense do então primeiro-ministro Jean Chretien chamou o comandante-em-chefe norte-americano de "retardado" - o que provocou a renúncia do assessor.

Pesquisas públicas de opinião de âmbito nacional mostram que canadenses e norte-americanos vivem em universos separados e contraditórios. Cerca de 53% dos canadenses afirmam que a derrubada de Saddam Hussein tornou o mundo "mais perigoso", contra os 49% dos estadunidenses que afirmam que a operação fez do mundo um lugar mais seguro, segundo uma pesquisa de seis semanas, realizada pelo Pew Research Center, encerrada em 31 de maio.

Os líderes eleitos das duas nações tradicionalmente enfatizam os fatores positivos, reconhecendo que fatores geográficos fazem com que esses vizinhos compartilhem uma língua comum, dividam a mais longa fronteira desarmada do mundo e mantenham um relacionamento comercial bilateral de quase US$ 500 bilhões por ano.

"Estamos com vocês", disse Chretien ao então embaixador dos Estados Unidos, Paul Celluci, no dia nacional de luto no Canadá, após os ataques terroristas de 11 de setembro.

"Os nossos povos são uma só família, e sempre serão", assegurou Bush aos canadenses em 1º de dezembro, quando viajou a Halifax, na Nova Escócia, a fim de agradecer aos canadenses por terem alimentado e abrigado 33 mil passageiros a bordo de dezenas de vôos com destino aos Estados Unidos, e que ficaram temporariamente no solo quando o Pentágono liberava o espaço aéreo estadunidense em resposta aos ataques terroristas de 11 de setembro.

Atritos quanto à defesa compartilhada

A cooperação militar dos dois países é tão estreita que o general canadense estava sentado na cadeira de comando sob a Montanha Cheyenne, no Colorado, coordenando a defesa aérea conjunta de Estados Unidos e Canadá em 11 de setembro de 2001.

Aviões de caça canadenses e norte-americanas continuaram a fazer patrulhas periódicas de combate contra aeronaves potencialmente ameaçadoras. No exterior, o governo canadense contribuiu com tropas e um comandante para a força internacional de segurança no Afeganistão, assim como despachou navios de guerra ao Golfo Pérsico.

Mas a tranqüila cooperação durante a 1ª e a 2ª Guerras Mundiais e a Guerra Fria estão dando lugar a diferenças. O Canadá se recusou a participar da invasão do Iraque, liderada pelos Estados Unidos, em 2003, e limitou o auxílio pós-invasão ao treinamento de forças de segurança iraquianas fora do Iraque.

Os atritos persistem quanto a um trágico episódio de "fogo amigo" no Afeganistão, em 17 de abril de 2002, quando um piloto da Guarda Nacional Aérea de Illinois, voando em um F-16, lançou uma bomba de 225 quilos sobre tropas canadenses, após ter confundido os exercícios militares destes últimos com artilharia inimiga. O piloto norte-americanos perdeu um mês de salário por um acidente que custou quatro vidas canadenses, algo que deixou muitos canadenses furiosos.

O Canadá surpreendeu o governo Bush em fevereiro passado com a decisão de encerrar a cooperação com o sistema de defesa contra mísseis balísticos. A decisão canadense repercutiu mal em Washington, onde Bush se recusou a atender a um telefonema de explicações do primeiro-ministro canadense.

Segurança na fronteira sob escrutínio

Com mais de 200 milhões de pessoas cruzando a fronteira a cada ano em 130 pontos de passagem e portos, a divisa de 8.895 quilômetros entre Canadá e os 48 Estados contíguos, e entre o Canadá e o Alasca, é uma fonte constante de fricção.

Os canadenses tendem a enfatizar o acesso fácil e o comércio sem empecilhos a fim de fortalecer uma economia que depende do comércio com os Estados Unidos para 52% da atividade econômica do país. Mas os Estados Unidos, traumatizados pelos ataques de 11 de setembro de 2001, continuam enfatizando as precauções relativas à segurança para proteger a nação de potenciais terroristas que possam se infiltrar a partir da fronteira norte.

As diferentes prioridades estão em jogo em uma proposta da Casa Branca para exigir que os cidadãos norte-americanos levem passaportes dos Estados Unidos quando forem ao Canadá, para que possam reingressar em seu país. Autoridades canadenses criticaram a proposta porque ela pode prejudicar o turismo e desencorajar as visitas casuais não planejadas. Mas as autoridades dos Estados Unidos afirmam que a exigência, determinada pelo Congresso, é necessária para a proteção da pátria.

O governo Bush deve anunciar a sua decisão final a qualquer momento. No passado, as autoridades canadenses criticaram o governo Bush por ter detido o sírio-canadense Maher Arar, 35, em Nova York, em setembro de 2002, como suspeito de apoiar a Al Qaeda, deportando-o para a Síria, onde ele foi preso e torturado. Arar acabou retornando ao Canadá, onde as autoridades canadenses embaraçaram Washington, instalando uma comissão pública de inquérito.

Mas as autoridades norte-americanas não se desculpam pelo aumento das medidas de segurança na fronteira, citando que elas valem a pena. Um caso ilustrativo: um atento agente de segurança norte-americano de fronteira determinou que se revistasse mais rigorosamente o argelino Ahmed Ressam, quando este tentava ingressar no Estado de Washington a partir do Canadá em 1999. Os agentes encontraram explosivos no carro de Ressam, que seriam utilizados como parte de um complô terrorista para atacar, com bombas, alvos durante as comemorações estadunidenses da passagem de milênio. Entre os alvos estava o Aeroporto Internacional de Los Angeles.

O vínculo comercial

O comércio entre Canadá e Estados Unidos é o maior entre quaisquer duas nações no mundo - e está aumentando, graças às isenções tarifárias colocadas em vigor em 1988 pelo Acordo de Livre Comércio Estados Unidos - Canadá, e pelo Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), de 1994.

Mas esse vínculo comercial é marcado por disputas perenes.

-O governo Bush quer que as autoridades canadenses ajudem a estancar o fluxo de medicamentos baratos do Canadá para os Estados Unidos, tendo em vista os esforços do Congresso dos Estados Unidos no sentido de legalizar o grosso das importações a partir do Canadá. O governo de Martin deu um passo nessa direção na quarta-feira, quando o ministro canadense da Saúde, Ujal Dosanjh, anunciou planos para aprovar uma legislação neste outono que permitirá às autoridades bloquear as exportações maciças de medicamentos canadenses aos Estados Unidos a fim de proteger as reservas desses remédios para os canadenses.

- As remessas canadenses de carne bovina para os Estados Unidos continuam bloqueadas devido à manutenção da proibição imposta em 2003, após o mal da vaca louca ter sido detectado em uma fazenda em Alberta, Canadá.

Os canadenses vêem sua cultura sufocada pelo vizinho

Com mais de 90% dos canadenses morando em uma faixa de 160 quilômetros da fronteira com os Estados Unidos, as autoridades canadenses têm muita dificuldade em proteger a cultura do seu país da invasão da multibilionária indústria norte-americana de entretenimento.

Canadenses orgulhosos, incluindo o embaixador canadense nos Estados Unidos, gostam de lembrar às platéias estadunidenses que vários dos seus artistas musicais favoritos são canadenses, incluindo Shania Twain, Celine Dion e Sarah McLachlan.

Mas o resultado das desavenças dos anos 90 relativas à Country Music Television, livrarias Borders, teledifusão por satélite da DirectTV e a "Sports Illustrated" prejudicou a relação cultural entre Estados Unidos e Canadá.

As autoridades canadenses se concentraram "quase que exclusivamente em chutar o elefante (norte-americano) para fora da cama", explica Sands, o especialista em relações entre Estados Unidos e Canadá. Danilo Fonseca

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