Governo americano reduz expectativas sobre o Iraque

Eric Rosenberg
Em Washington, DC

Com a continuidade da rebelião no Iraque, o governo Bush adotou uma estratégia de reduzir as expectativas públicas de uma vitória decisiva no país, enquanto insiste em uma solução política para pôr fim às lutas. O objetivo é superar a crescente impaciência do público americano falando em um período mais longo para o envolvimento dos Estados Unidos e para a continuação dos distúrbios no Iraque -- e definições mais modestas do que constitui a vitória.

Antes da invasão em março de 2003, as autoridades americanas previam que as tropas seriam recebidas como libertadoras e que a renda de petróleo iraquiano pagaria os custos da reconstrução. O presidente Bush previu que "um novo regime no Iraque servirá como um exemplo dramático e inspirador de liberdade para outros países da região".

Ninguém previu que dois anos depois as tropas americanas continuariam trabalhando para conter uma rebelião de talvez 26 mil combatentes e simpatizantes. A palavra "rebeldes" provavelmente não foi incluída nos planos de guerra dos Estados Unidos.

Agora os fatos forçaram o governo a reformular sua mensagem sobre o que constitui o sucesso, diante da violência incessante, das crescentes baixas, da queda do apoio público e dos custos disparados para os contribuintes americanos.

O governo está sinalizando que, quando as tropas americanas deixarem o Iraque, o país poderá ficar parecido com a Colômbia ou a Irlanda do Norte, que sofreram décadas de rebeliões mas que estão funcionando.

"O sucesso da coalizão não deve ser definido como a tranqüilidade interna no Iraque", disse o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, em 27 de junho. "Outras democracias tiveram de enfrentar o terrorismo e rebeliões durante vários anos, mas conseguiram funcionar e acabaram tendo êxito."

"Os países podem continuar vivendo [com rebeliões]", acrescentou Rumsfeld. "Eles podem seguir em frente e ter eleições e fazer seus negócios, suas economias podem crescer e pode haver um nível reduzido de rebelião."

Diminuindo as expectativas de uma saída dos Estados Unidos em curto prazo do Iraque ou de uma pausa na violência, Rumsfeld disse que rebeliões como a iraquiana tendem a durar 12 anos, embora a da Colômbia se arraste há 40.

"Não vamos vencer a rebelião -- o povo iraquiano vai vencer a rebelião", Rumsfeld disse na TV Fox. "Essa rebelião pode continuar por vários anos. As rebeliões tendem a durar cinco, seis, oito, dez, 12 anos."

Rumsfeld e líderes militares começaram recentemente a salientar que somente uma solução política poderá trazer a paz, indicando que o público americano deve abandonar a idéia de uma clara vitória militar no Iraque.

O tenente-general do exército John Vines, que supervisiona as operações militares diárias no Iraque, disse no mês passado que para extinguir a rebelião há necessidade "principalmente de uma solução política", que as autoridades americanas esperam que surgirá quando os iraquianos redigirem uma Constituição, o que deverá ocorrer no início de agosto. O general do exército John Casey, principal comandante americano no Iraque, e o general da força aérea Richard Myers, presidente do Estado-Maior Conjunto, fizeram declarações semelhantes há pouco tempo.

O professor Richard Vatz, da Universidade Towson em Maryland, especializado no estudo de retórica política, diz que os comentários de Rumsfeld destinam-se a preparar os americanos para a idéia um tanto contraditória "de que a vitória não é incompatível com uma rebelião".

Michael O'Hanlon, um especialista militar do Instituto Brookings em Washington, nota que a ênfase dos Estados Unidos é treinar os iraquianos para que cuidem de si mesmos.

O que Rumsfeld disse "é uma evidência de que a estratégia de saída tornou-se ajudar os iraquianos a vencer a guerra por conta própria, em vez de ganhá-la por eles", disse O'Hanlon. "Entre 2003 e 2005 houve claramente uma mudança fundamental nas metas sobre quem vai vencer a guerra", ele acrescentou.

Pelo menos 1.735 membros das forças militares americanas morreram desde o início da guerra, em 19 de março de 2003, com mais de 1.526 dessas mortes ocorridas depois que o presidente Bush declarou o fim dos maiores combates, em seu discurso triunfal "Missão Cumprida" no porta-aviões Abraham Lincoln, em 1º de maio de 2003.

A reavaliação do governo ocorre num momento em que as pesquisas mostram que o apoio da opinião pública à guerra está diminuindo. Uma pesquisa do Centro Pew divulgada em junho revelou que 46% dos entrevistados preferem a retirada imediata do Iraque, contra 36% em outubro. De maneira semelhante, uma pesquisa Associated Press-Ipsos do mesmo período revelou que somente 41% dos entrevistados apóiam a maneira como o governo está conduzindo a guerra.

O que é mais grave, da perspectiva da Casa Branca há sinais de hesitação entre os republicanos, geralmente favoráveis à guerra. O senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, disse a Rumsfeld que "o apoio em meu Estado está mudando. O público vê a situação cada vez mais como o Vietnã".

O deputado republicano Walter Jones, da Carolina do Norte, pediu que a Casa Branca defina um calendário para retirar as tropas americanas do Iraque. Antes, Jones era um defensor entusiástico da intervenção. Ele foi o deputado que fez pressão para que as batatas fritas [chamadas de "batatas francesas" nos Estados Unidos] fossem rebatizadas de "batatas da liberdade" quando a França se recusou a apoiar o esforço militar americano no Iraque.

Enquanto Rumsfeld admite que autoridades americanas se reuniram com os rebeldes para encontrar uma solução política para o Iraque, os militares evitam estimar o tamanho do inimigo, em contraste com declarações anteriores. Nos últimos dois anos, os comandantes calcularam a rebelião entre 3 mil e 20 mil pessoas. Mas surgiu uma nova linha nos últimos meses: agora as autoridades dizem que não sabem.

O vice-presidente Dick Cheney disse: "Acho que não podemos dar um número exato", quando foi perguntado recentemente sobre quantos são os rebeldes. Pressionado para avaliar o inimigo em centenas, milhares ou dezenas de milhares, Cheney hesitou. "Podemos fazer estimativas, mas ninguém pode dar um número preciso", ele disse na CNN.

Rumsfeld disse em fevereiro a um comitê da Câmara dos Deputados: "Eu tenho opiniões diferentes da Agência de Inteligência da Defesa [DIA] e da Agência Central de Inteligência [CIA]" sobre o alcance da rebelião iraquiana. "Francamente, não tenho muita confiança em nenhuma delas".

Mais recentemente, Casey disse que a rebelião iraquiana pode contar com até 26 mil combatentes e simpatizantes, mas admitiu que o número é uma de várias estimativas.

A crescente ambigüidade dos cálculos americanos sobre a força rebelde reflete o desejo do governo de concentrar sua mensagem de relações-públicas em suas realizações, como a abertura de escolas e o treinamento das forças iraquianas para assumir as funções de segurança.

Discutir o tamanho da rebelião "diminui as conquistas, e concentrar-se no número de rebeldes é algo que eles não querem pôr em destaque", disse Vatz. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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