Bush enfrenta onda de protestos cada vez maior contra a guerra

Helen Thomas
Hearst Newspapers

Por enquanto, o presidente Bush ainda não precisou lidar com maciças
manifestações anti-guerra do tipo daquelas que contribuíram para a derrubada política dos presidentes Lyndon B. Johnson (presidente de 1964 a 1968) e Richard Nixon (de 1968 a 1974).

Mas o protesto que foi armado por Cindy Sheehan nas proximidades da fazenda de Bush, em Crawford, no Texas, despertou no mundo inteiro as atenções para esta mãe de luto, que perdeu seu filho de 24 anos - o especialista do exército Casey Sheehan, de Vacaville, Califórnia - que foi morto no Iraque.

Cindy Sheehan fez o juramento que prosseguiria seu protesto até que o
presidente venha conversar pessoalmente com ela. Bush recusou-se a atender seu pedido e, em vez disso, tentou se livrar de uma vez por todas desse episódio embaraçoso enviando Joe Hagin, seu vice-chefe de estado-maior da Casa Branca, e Stephen Hadley, seu conselheiro para assuntos de segurança nacional, para se encontrarem com Cindy, que esteve acampada a poucos quilômetros da sua fazenda.

Cindy Sheehan declarou que os assessores de Bush foram "muito respeitosos" mas que ainda assim ela queria falar com o presidente.

Ela parecia estar particularmente mordida com a declaração de Bush segundo a qual os sacrifícios consentidos pelos soldados que foram mortos no Iraque o foram em nome de uma "causa nobre".

Cindy disse aos repórteres: "Ele disse que o meu filho morreu por uma causa nobre, e eu quero perguntar-lhe que causa nobre é essa".

Lembro-me de ter ouvido pela primeira vez a expressão "causa nobre" durante os anos 80, quando o então presidente Ronald Reagan se referiu à guerra do Vietnã nesses termos, aparentemente com o intento de apagar as más recordações que este conflito impopular havia deixado, dividindo o país.

O presidente George Herbert Walker Bush (o pai do atual) retomou a expressão por sua conta e referiu-se com freqüência ao conflito no Vietnã como tendo sido uma "causa nobre".

Agora, a fórmula foi ressuscitada para ser aplicada à guerra no Iraque. No momento em que este conflito vai de mal a pior e que a população americana está dando sinais de impaciência, a administração Bush tenta granjear o seu apoio lançando mão alternadamente do bordão "vamos manter o rumo com firmeza" ou das promessas vagas de que as tropas americanas começarão a se retirar do Iraque "em breve", o que quer que isso signifique.

Alguns oficiais do exército americano andaram afirmando que os 138 mil
soldados estacionados no Iraque poderiam começar a ser evacuados até a
próxima primavera (ou seja, final de março, início de abril de 2006).

Mas Bush rejeitou estabelecer um cronograma para a retirada e disse que
seria um "erro terrível" partir desse país enquanto os iraquianos não fossem capazes de garantir a sua própria segurança.

O vice-secretário de imprensa da Casa Branca, Trent Duffy, declarou que
"muitas das centenas de famílias com as quais o presidente se encontrou
sabem que os seus entes queridos morreram por uma causa nobre e que a melhor maneira de honrar seu sacrifício é concluindo esta missão".

"O presidente Bush quer que as tropas voltem para casa o mais cedo possível, mas os Estados Unidos tampouco irão abortar seus planos nem fugir dos terroristas", acrescentou Duffy.

A resposta de Cindy Sheehan é o seu desejo de ver a memória do seu filho
"ser honrada na forma de um retorno das tropas para casa".

"Eu não quero que ele use o nome do meu filho nem o meu nome para justificar uma matança maior ainda", disse ela.

Cindy Sheehan fazia parte de um grupo de famílias que foram recebidas
separadamente pelo presidente em junho de 2004, dois meses depois da morte de Casey. Mas aquele encontro não foi satisfatório para Cindy, que se queixou de que o presidente "não quis olhar para as fotos de Casey".

"Toda vez que nós tentamos falar algo a respeito de Casey, e o quanto nós
sentíamos a sua falta, ele procurava mudar de assunto".

Foi então que Cindy Sheehan resolveu fundar, junto com outras pessoas que estão na mesma situação, a organização anti-guerra Gold Star Families for Peace (Famílias da Estrela Dourada em prol da Paz).

Em entrevistas, Cindy contou ter dito a Bush que ela podia imaginar como ele se sentiria se ele tivesse perdido uma das suas duas filhas.

"Eu lhe disse: acredite em mim, senhor presidente, o senhor não gostaria nem um pouco de estar lá".

Segundo ela, o presidente teria respondido da seguinte forma: "Você tem
razão, eu não tenho a menor vontade de ir para lá".

O protesto reprimido de Cindy Sheehan forma um contraste dramático com as demonstrações maciças que, na época, haviam sido realizadas contra a guerra do Vietnã. O presidente Lyndon Johnson e sua família não puderam evitar ouvir o slogan devastador dos manifestantes: "Hei, hei, LBJ! Quantas crianças você já matou hoje?".

Os protestos foram se intensificando quando Richard Nixon, o sucessor de
Johnson, deu prosseguimento à guerra. Em 1971, visivelmente angustiado,
Nixon foi até o monumento á memória de Lincoln, no National Mall (galeria
comercial nacional) para conversar com alguns dos jovens manifestantes.

Até agora, Bush tem sido preservado de eventuais manifestações de militantes pacifistas. As pessoas admitidas nas suas audiências costumam ser pré-selecionadas de modo a evitar que haja qualquer interrupção intempestiva provocada por manifestantes anti-guerra. Esta é uma das razões que explicam por que o pedido de Cindy Sheehan para ser recebida pelo presidente, que se encontra atualmente em férias, chamou tanto as atenções.

A sua presença constante nas proximidades da fazenda de Prairie Chapel -
onde o presidente gosta de andar de bicicleta e aparar seus gramados -
transformou as cinco semanas de férias de Bush em algo de que ele nunca vai se esquecer. Mãe que perdeu seu filho no Iraque inferniza férias do presidente na sua fazenda Jean-Yves de Neufville

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