Norte-americanos questionam se Nova Orleans deve ser reconstruída

Stewart M. Powell
em Washington

Os norte-americanos estão divididos quanto à questão de reconstruir Nova Orleans na mesma localidade abaixo do nível do mar que sofreu danos devastadores devido ao furacão Katrina.

O presidente Bush e o Congresso liderado pelos republicanos ainda não prometeram um apoio ilimitado a uma obra de proporções tão avantajadas. Em vez disso, eles ofereceram dezenas de bilhões de dólares em auxílio humanitário e assistência para reconstrução, a fim de ajudar as vítimas da região da Costa do Golfo a "reconstruírem as suas vidas".

O líder da Câmara, J. Dennis Hastert, republicano de Illinois, recomendou cautela quanto a se investir a quantia que seria necessária para reconstruir a cidade danificada no mesmo local.

"Para mim não faz sentido reconstruir completamente uma cidade abaixo do nível do mar", disse Hastert ao jornal "Daily Herald", de Arlington Heights, Illinois, dois dias após o furacão ter devastado Nova Orleans. "O local parece mais propício para sofrer um processo de demolição e terraplanagem".

Mais tarde Hastert modificou os seus comentários, insistindo que não quis sugerir que Nova Orleans deva ser "abandonada ou transferida de local".

Uma nova pesquisa de âmbito nacional feita pela Associated Press-Ipsos revelou na semana passada que muitos norte-americanos concordam com o ceticismo inicial manifestado por Hastert.

De acordo com a pesquisa, 54% dos entrevistados desejam que os bairros inundados de Nova Orleans sejam transferidos para locais mais seguros, e não reconstruídos em sítios vulneráveis a inundações. Entre os entrevistados da pesquisa, cujos resultados foram divulgados na última sexta-feira, 42% concordaram com a afirmação: "Nova Orleans deveria ser reconstruída no local original, incluindo os sítios abaixo do nível do mar, mas os diques precisam ser reforçados".

Cerca de 80% da área de Nova Orleans foi inundada pelas águas do adjacente Lago Pontchartrain, depois que diques se romperam devido ao furacão, danificando milhares de casas e edifícios daquela cidade predominantemente negra, de 485 mil habitantes.

A cidade de 287 anos, cognominada de "Big Easy", atrai dez milhões de turistas anualmente, que gastam US$ 5 bilhões para ouvirem o jazz Dixieland, jantarem em restaurantes de renome internacional e jogarem nos cassinos às margens do rio.

Com os norte-americanos divididos quanto ao problema da reconstrução nos seus locais originais dos imóveis inundados, os senadores David Vitter, republicano, e Mary Landrieu, democrata, ambos de Louisiana, lançaram uma iniciativa para obter apoio federal para a tarefa multibilionária de reconstruir a cidade.

"Não quero dizer que o céu é o limite e que devamos começar a assinar cheques em branco", disse Vitter ao programa "Early Show" da CBS News na última sexta-feira. "Mas, sim, precisamos estar totalmente comprometidos com a reconstrução. Esta é uma grande cidade norte-americana. Ela é parte da nossa história e da nossa cultura. A sua população merece esse tipo de resposta. E creio que ela acabará recebendo aquilo que deseja".

Landrieu disse na semana passada aos seus colegas do Senado: "Esta catástrofe sem precedentes exigirá um apoio sem precedentes, devido à enormidade dos custos de reconstrução". E acrescentou: "Hoje, vamos reconstruir Nova Orleans. Os Estados Unidos precisam de Nova Orleans bem no local em que a cidade se situa".

As autoridades nunca mudaram de lugar uma cidade do tamanho de Nova Orleans. O governo federal transferiu a cidade de Valmeyer, Illinois, e os seus 900 moradores para um local mais elevado, a três quilômetros do sítio original, depois que o Rio Mississipi saiu do seu leito e rompeu os diques locais, destruindo a cidade em 1993. As autoridades também transferiram bairros de Kinston, Carolina do Norte, depois de inundações das planícies da região causadas pelo furacão Floyd, em 1999.

O auxílio federal a Nova Orleans enfrenta um desafio de longo prazo, especialmente porque os custos para ajuda e recuperação dispararam em uma área devastada da Costa do Golfo de 233,1 mil quilômetros quadrados. Membros do governo Bush estão comparando o auxílio federal a essa região ao Plano Marshall, implementado após a 2ª Guerra Mundial, e avaliado em US$ 120 bilhões em valores atuais.

Pietro S. Nivola, diretor de estudos governamentais da Brookings Institution, disse que o debate pós-furacão deveria incluir a discussão sobre a possibilidade de se manter os seguros federais de baixo custo para a cobertura de inundações para comunidades como Nova Orleans, construídas em áreas potencialmente arriscadas.

"A eliminação dos subsídios federais para o seguro contra inundações elevaria o valor dos seguros privados a tal ponto que as comunidades locais pressionariam os políticos e autoridades de suas áreas para que reformassem os diques que cercam Nova Orleans", argumentou Nivola. "Os acionistas precisam contribuir em tal situação - eles têm que arcar com os custos".

Nova Orleans fica em uma área que está, em média, dois metros abaixo do nível do mar, sobre um solo que afunda gradualmente, entre o Rio Mississipi e o Lago Pontchartrain, e próxima ao Golfo do México. Uma rede elaborada de diques, de 563 quilômetros de extensão, apoiada por 174 bombas, foi projetada para proteger a cidade das inundações.

Mas os diques, elevados a uma altura de quatro metros após o furacão Betsy, em 1965, foram projetados para suportar furacões de categoria três, com ventos de até 209 quilômetros por hora e tempestades que provocam transbordamentos de até quatro metros. O Katrina era um furacão de categoria quatro, com ventos de até 250 quilômetros por hora, tendo causado transbordamentos de até dez metros em certas localidades da Costa do Golfo.

Quando o furacão Katrina atingiu a região, as autoridades estavam estudando os custos e a praticabilidade de se elevar a altura dos diques para que estes suportassem tempestades mais fortes - um projeto que levaria até 25 anos para ser concluído. Danilo Fonseca

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