Bush quer empréstimo para financiar recuperação de área atingida pelo Katrina

De Washington

O presidente Bush quer que o governo federal pegue dinheiro emprestado para cobrir os custos da recuperação da Costa do Golfo, a área atingida pelo furacão Katrina.

Na última sexta-feira, a Casa Branca rejeitou a possibilidade de elevar os impostos ou de cortar investimentos em outros programas federais com o objetivo de cobrir os custos dos trabalhos de recuperação da região impactada. Assim, como única opção para a cobertura dos custos restou a expansão do déficit gerado pelos empréstimos do governo, que podem superar os US$ 200 bilhões.

"Não há dúvida de que a recuperação será paga pelo contribuinte federal, e isso implicará no aumento do déficit", afirmou aos jornalistas o assessor econômico da Casa Branca, Allan Hubbard.

"Podem apostar que isso custará dinheiro", disse Bush durante uma entrevista coletiva à imprensa na Casa Branca na sexta-feira, acompanhado do presidente da Rússia Vladimir Putin, que estava visitando os Estados Unidos. "Mas estou confiante na nossa capacidade de lidar com esta, assim como com as nossas outras prioridades".

Se o Congresso liderado pelos republicanos concordar com as prioridades estabelecidas pelo governo, o novo empréstimo poderá se somar aos US$ 2,2 trilhões que o governo Bush já acrescentou à dívida nacional desde que assumiu a presidência em 2001. A dívida dos Estados Unidos durante a presidência de Bush já aumentou para US$ 7,94 trilhões, fazendo dele o presidente que mais tomou empréstimos na história norte-americana.

Bush prometeu fazer com que o diretor de Orçamento da Casa Branca, Joshua Bolten, trabalhe junto ao Congresso para "cortar os gastos desnecessários" a fim de limitar os novos empréstimos. Ele disse que se opõe às tentativa do Congresso de cancelar os planos para ampliar as reduções de impostos promovidas no seu primeiro mandato, que totalizaram US$ 73 bilhões. Bush afirmou que o cancelamento desses cortes temporários seria o equivalente a uma política de aumento dos impostos.

"Temos que manter o crescimento econômico e, portanto, não devemos aumentar os impostos", disse Bush. "Não precisamos retirar mais dinheiro do bolso do contribuinte".

O plano da Casa Branca é contestado por parlamentares democratas e por alguns republicanos, que preferem arquivar a redução de impostos a inflacionar o déficit.

Stanley E. Collender, um analista orçamentário independente, diz que os gastos emergenciais motivados pelo furacão Katrina implicaram em uma drástica mudança de rumo no Congresso, onde os parlamentares estão sendo forçados a "reajustar a sua bússola política" no sentido de cogitarem o adiamento das reduções de impostos. "Não há ainda nenhuma decisão definitiva quanto a isso. As políticas são bastante incertas".

Já se formou uma linha de atrito com relação à questão da redução de impostos. A Câmara e o Senado deveriam votar neste mês a proposta pela ampliação da redução de impostos, mas a legislação referente às medidas de recuperação da zona atingida pelo Katrina adiou o prazo de votação para outubro.

A ampliação dos cortes tributários inclui:

- Um crédito para poupadores de baixa renda, que expira em 2006, e que custaria US$ 5 bilhões em receitas federais perdidas em um período de quatro anos.

- Um crédito fiscal educacional que custaria US$ 8 bilhões em receitas federais em um período de cinco anos.

- A medida "Seção 179", relativa a gastos empresariais, que expira em 2007, que custaria US$ 10 bilhões em perdas de receitas federais no decorrer dos próximos dois anos.

O Centro de Orçamento e de Prioridades Políticas calcula que o custo da extensão das reduções de impostos em dez anos chegaria a US$ 3,9 trilhões.

Os democratas dizem que gastos relacionados ao Katrina significam que o governo federal não pode mais se dar ao luxo de reduzir os impostos, uma medida com o qual a oposição já não concordava.

"Os gastos emergenciais fortalecem a argumentação de que não podemos arcar com os custos resultantes das reduções de impostos", disse a senadora Hillary Rodham Clinton, democrata por Nova York.

"O esforço de reconstrução das áreas atingidas pelo Katrina acabou com o combustível para a implementação de reduções adicionais de impostos", afirmou o senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York. "Estamos em uma nação que possui um grande déficit, e não temos muito dinheiro para gastar".

A senadora Barbara Boxer, democrata da Califórnia, disse: "Fornecer mais de US$ 70 bilhões em reduções de impostos aos ricos, quando outros estão lutando para caminhar, é uma insanidade".

Alguns republicanos concordam.

O deputado Mark Kirk, republicano de Illinois, e membro da Comissão de Apropriações da Câmara, advertiu que os gastos de emergência, aliados às reduções de impostos, que diminuem a arrecadação governamental, significam que a nação está "caminhando para ter déficits que serão recordes mundiais". E acrescentou: "Tão logo tenhamos salvado vidas e recuperado a região atingida, será preciso fazer escolhas dolorosas".

O senador George V. Voinovich, republicano de Ohio, insiste que "este não é o momento de se promover mais reduções de impostos". A senadora Olympia Snowe, republicana de Maine, acrescenta: "Teremos que reexaminar qual será a nossa agenda, incluindo as reduções de impostos".

Outros republicanos argumentam que a extensão das reduções tributárias proporcionaria um valioso estímulo econômico que poderia gerar verbas federais adicionais para ajudar a cobrir os custos do programa de recuperação da área atingida pelo Katrina e da guerra no Iraque.

O senador Judd Gregg, republicano de New Hampshire, e presidente da Comissão de Orçamento do Senado, disse que as reduções de impostos "criariam mais empregos e mais verbas para o governo federal", e acrescentou: "Não creio que devamos descartar a iniciativa".

A batalha travada em Washington a respeito do orçamento está crescendo, enquanto os economistas prevêem uma dinamização econômica da Costa do Golfo, alimentada pelo dinheiro dos governos estaduais e federal, das seguradoras e de investidores privados atraídos pelas prometidas isenções de impostos federais.

Foi isso o que ocorreu após o furacão Andrew, em 1992, e o terremoto que atingiu Northridge, na Califórnia, em 1994.

"A prosperidade no setor de construção após um desastre natural é geralmente suficientemente vigorosa para que as comunidades acabem contando com uma economia mais forte do que antes", explica Adam Z. Rose, especialista em economias de áreas atingidas por desastres da Universidade Penn State, e co-autor do livro "The Economics of Natural Hazards" ("A Economia dos Perigos Naturais"). "Isso faz lembrar o velho ditado segundo o qual tudo o que é necessário para se fazer a economia caminhar novamente é um bom desastre".

Alice Rivlin, ex-vice-presidente do Federal Reserve Board (o Fed, o banco central dos EUA), que também atuou na Casa Branca de Bill Clinton, diz que a assistência federal tradicionalmente serve como motor de arranque para as economias regionais.

"Normalmente há uma queda na produção econômica regional e nacional após um desastre, mas, depois, a injeção de verbas de auxílio e reconstrução é geralmente suficiente para resgatar o crescimento econômico para o ponto anterior, ou para um patamar ainda mais elevado", explica Rivlin, que atualmente é pesquisadora da Brookings Institution. Danilo Fonseca

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