Em queda nas pesquisas, Bush faz campanha para promover a guerra no Iraque

Stewart M. Powell e Eric Rosenberg
Em Washington

O presidente Bush deu início a uma intensa campanha de marketing para reduzir as preocupações do povo, as críticas feitas pelos democratas e as inquietações dos republicanos no que se requere à guerra no Iraque e à campanha mais ampla dos Estados Unidos contra o terrorismo islâmico, que já dura mais tempo do que a 2ª Guerra Mundial.

A nova campanha de relações públicas ocorre em meio ao aumento do número de baixas norte-americanas no Iraque e a ataques suicidas a bomba na Jordânia --um aliado-chave dos Estados Unidos-- que mataram 57 pessoas e deixaram pelo menos 120 feridas.

William Schneider, especialista em opinião pública que atua como comentarista para a CNN, disse que Bush lançou essa campanha como forma de neutralizar uma "situação politicamente explosiva" gerada pela "exasperação crescente" dos norte-americanos com a guerra no Iraque, e pelas alegações feitas por críticos de que Bush manipulou informações de inteligência para justificar a guerra.

Richard Falkenrath, ex-funcionário do Departamento de Segurança Interna do governo Bush, disse que o presidente passou a se preocupar tanto com a mudança da dinâmica política que teve que abandonar o seu discurso sobre "a sua estratégia de olhar para frente na guerra contra o terrorismo", para se concentrar, em vez disso, em responder aos seus críticos.

Bush, que deixa o país na segunda-feira em uma longa viagem à Ásia, na sexta-feira atacou os críticos da campanha norte-americana de 32 meses para "pacificar o Iraque" e fortalecer o governo democraticamente eleito em Bagdá, que é apoiado pelos Estados Unidos.

A guerra no Iraque continua sendo "a frente central" em uma "guerra global contra o terrorismo", insistiu Bush, mesmo sabendo-se que o ditador deposto Saddam Hussein não teve envolvimento com os ataques lançados pela Al Qaeda contra os Estados Unidos em 11 de setembro de 2001.

Bush disse que "falsas acusações" por parte de "alguns democratas e críticos contrários à guerra", segundo as quais a Casa Branca manipulou informações de inteligência para justificar a guerra no Iraque estariam enfraquecendo as tropas norte-americanas em combate.

"Esses ataques sem fundamento enviam a mensagem errada às nossas tropas e ao nosso inimigo, que está duvidando da determinação dos Estados Unidos", disse Bush a uma platéia no Dia dos Veteranos, em Tobyhanna, Pensilvânia. "Enquanto as nossas tropas lutam contra um inimigo brutal, determinado a destruir o nosso estilo de vida, elas merecem saber que os seus líderes eleitos, que votaram a favor de enviá-las à guerra, continuam a apoiá-las".

Bush falou em um momento no qual várias pesquisas de opinião revelam que o seu índice de aprovação é o mais baixo desde que assumiu a presidência, e que o apoio à guerra está diminuindo.

A invasão e a ocupação do Iraque pelos Estados Unidos já custaram a vida de pelo menos 2.065 soldados norte-americanos, além de terem deixado 15.353 feridos, sem que tenha sido anunciado um prazo para uma retirada norte-americana.

Autoridades internacionais calculam que pelo menos 30 mil iraquianos foram mortos. No mês passado, o Pentágono informou ao Congresso que pelo menos 26 mil iraquianos foram mortos ou feridos por insurgentes desde 1º de janeiro de 2004 --nove meses após o início da invasão e da ocupação da nação muçulmana pelos Estados Unidos.

Entre os entrevistados em uma pesquisa NBC News/Wall Street Journal, divulgada na última sexta-feira, 52% afirmaram que a guerra não compensou as baixas e os custos, enquanto 40% disseram que a campanha valeu a pena.

Uma pesquisa CBS News divulgada no mês passado revelou que 66% dos entrevistados acreditam que a invasão e a ocupação norte-americana do Iraque fizeram com que eles tivessem menos segurança, ou não fizeram diferença alguma, comparados a apenas 32% que disseram se sentir mais seguros.

A acusação de I. Lewis Libby, ex-assessor do vice-presidente Dick Cheney e arquiteto da argumentação para se fazer a guerra, proporcionou uma oportunidade para se conhecer as tentativas governamentais de manipular a mídia no debate sobre as supostas armas de destruição em massa de Saddam Hussein. Em 3 de novembro, Libby afirmou perante a Justiça que é inocente com relação a cinco acusações de crimes graves relacionados à sua alegada tentativa de obstruir uma investigação federal da revelação da identidade de uma agente secreta da CIA, por parte de funcionários da Casa Branca, como forma de retaliação contra o seu marido, que é um crítico da guerra no Iraque.

Enquanto isso, ataques sincronizados a bomba em três hotéis jordanianos na semana passada evidenciaram a continuidade da ameaça representada pelas operações da Al Qaeda para além da zona de combate no Iraque. Os ataques --a quinta operação com bombas contra aliados dos Estados Unidos no período de um ano-- aumentaram o número de vítimas acumuladas das ações da Al Qaeda para mais de 4.000 mortos e mais de 15 mil feridos nos Estados Unidos e em outros 14 países desde 1992.

O general do exército norte-americano Rick Lynch disse que os ataques na Jordânia demonstram a persistência da ação do jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, o líder da Al Qaeda no Iraque. "Esse tipo de coisa continuará acontecendo', disse Lynch em Bagdá. "É por isso que continuamos com as nossas operações para negar a ele tal capacidade operacional".

Os democratas continuam a pressionar Bush quanto à questão iraquiana, com um olho nas eleições parlamentares de 2006, após o fiasco dos republicanos nas eleições fora de época da última terça-feira. Os democratas conquistaram mandatos para o governo da tradicionalmente democrata Nova Jersey, e da historicamente republicana Virgínia, onde Bush fez campanha para o candidato derrotado do Partido Republicano.

O senador Edward M. Kennedy, democrata por Massachusetts, acusou Bush de "lançar uma campanha de reconstrução da sua credibilidade" no Dia dos Veteranos, ao atacar os críticos, em vez de elaborar planos para que se obtenha sucesso no Iraque.

Mais tarde, o secretário de Imprensa da Casa Branca, Scott McClellan, divulgou uma declaração dizendo: "É lamentável que o senador Kennedy tenha escolhido o Dia dos Veteranos para continuar fazendo ataques falsos e infundados que enviam a mensagem errada às nossas tropas e ao nosso inimigo em um período de guerra. É também lamentável que o senador Kennedy tenha encontrado mais tempo para falar coisas negativas sobre o presidente Bush do que já o fez com relação a Saddam Hussein".

O senador John Kerry, democrata por Massachusetts, o candidato presidencial democrata derrotado em 2004, pediu a retirada de 20 mil soldados norte-americanos do Iraque até dezembro, e que os 160 mil soldados restantes sejam trazidos de volta para casa "dentro de um cronograma razoável".

"O comandante-em-chefe deveria demonstrar respeito para com os nossos homens e mulheres em uniforme apresentando uma estratégia clara de sucesso no Iraque", disse Kerry na sexta-feira.

A deputada Nancy Pelosi, democrata da Califórnia, e líder democrata na Câmara, disse que Bush está tentando "melhorar a sua posição política com relação à guerra no Iraque".

Bush também enfrenta críticas no campo republicano, lideradas pelo senador John McCain, republicano pelo Arizona, um possível candidato pelo Partido Republicano para a eleição presidencial de 2008.

"Existe uma sensação inegável de que as coisas estão saindo de controle --mais violência no território iraquiano ocupado, um declínio do apoio doméstico à guerra, a crescente convicção entre os norte-americanos de que não há um fim à vista", afirmou McCain, que defende o envio de tropas adicionais ao Iraque para derrotar a insurgência antes de se passar o controle da segurança no país para as forças iraquianas treinadas pelos Estados Unidos. Danilo Fonseca

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