Bush enfrenta dúvidas sobre sua honestidade

Stewart M. Powell
em Washington

George W. Bush acentuou caráter e atributos pessoais em suas duas campanhas eleitorais para chegar à Casa Branca, após o processo de impeachment do presidente Bill Clinton.

Mas uma nova pesquisa mostra surpreendentes dúvidas da população em relação à honestidade e fidedignidade de Bush, em conseqüência principalmente de suas afirmações de sucesso no Iraque, seus motivos contestados para ir à guerra e a lenta resposta federal às vítimas do furacão Katrina.

Uma pesquisa Gallup divulgada na semana passada mostrou que 48% dos americanos agora dizem que confiam menos no que Bush diz do que Clinton dizia quando era presidente; 36% disseram que ainda confiam no que Bush diz; 15% disseram que confiam "igualmente" nas palavras de Bush e Clinton.

Estudiosos da presidência, expressando surpresa com o fraco desempenho de Bush na pesquisa, disseram que o ceticismo público em relação à honestidade de Bush poderá dificultar uma recuperação no segundo mandato.

"Que vergonha deve ser para Bush ser visto como menos honesto do que Clinton!" disse Fred Greenstein, um estudioso de Princeton que escreveu "The Presidential Difference: Leadership Style from FDR to Clinton" (As diferenças presidenciais: o estilo de liderança de Roosevelt a Clinton).

O historiador presidencial Robert Dallek, autor de "Hail to the Chief" (Saudação ao chefe), notou que a credibilidade continua sendo "a moeda política do reino, e assim que você a perde, você não consegue recuperá-la".

Bruce Buchanan, um professor da Universidade do Texas e autor de "The Presidential Experience: What the office does to the man" (A experiência presidencial: o que o cargo faz ao homem), disse: "Você pode ter certeza que Bush está sentindo esta dor, porque ele sempre se orgulhou da força de caráter".

Tal perda de credibilidade pode ser devastadora para uma presidência, acrescentou Buchanan, um estudioso que esteve em Austin, Texas, durante os seis anos de Bush como governador do Texas.

"É difícil devolver o gênio de volta à lâmpada", disse Buchanan. "É como um casamento tentando se recuperar de um caso extraconjugal -não dá para recuperar a confiança cega."

John Mueller, da Universidade Estadual de Ohio e autor de "War, Presidents and Public Opinion" (Guerra, presidentes e opinião pública), disse que as dúvidas da população em relação à honestidade e fidedignidade de Bush refletem uma erosão mais ampla do apoio à guerra no Iraque, um conflito de 32 meses que tirou a vida de pelo menos 2.081 soldados americanos.

"Sem nenhuma forma óbvia para Bush reverter de forma substancial e permanente a erosão ao apoio à guerra, a confiança nele continuará deteriorando", previu Mueller.

A credibilidade de Bush também permanecerá sob escrutínio devido à barragem retórica constante dos democratas do Congresso, que argumentam que foram "enganados" sobre a inteligência pré-guerra como forma de justificar sua mudança de apoio à ação militar, em 2002, para oposição à guerra, em 2005, disse Mueller.

"Sempre parece melhor politicamente dizer que você errou porque foi enganado do que dizer que errou porque sofreu lavagem cerebral", disse Mueller.

A nova pesquisa Gallup contrasta enormemente da realizada em 5 e 6 de abril de 2003, três semanas após a invasão no Iraque liderada pelos Estados Unidos, quando 73% dos entrevistados disseram considerar Bush "honesto e confiável". Uma nova pesquisa mostrou que apenas 46% dos entrevistados aplicariam atualmente estes termos a Bush.

Clinton se saiu ainda pior na pesquisa Gallup realizada no meio do seu julgamento no Senado pelo pedido de impeachment na Câmara, em janeiro de 1999, quando apenas 24% dos entrevistados disseram que aplicariam as palavras "honesto e confiável" a Clinton.

No geral, 63% dos americanos agora desaprovam a forma como Bush está lidando com a guerra no Iraque -um aumento em comparação a 21% nas semanas que se seguiram à invasão.

Em meio a sinais de que está decrescendo no Congresso o apoio à estratégia de Bush de "manter o curso" no Iraque, o presidente e o vice-presidente Dick Cheney partiram para a ofensiva contra os críticos democratas na semana passada.

Bush disse em uma coletiva de imprensa na Coréia do Sul que era "irresponsabilidade" os críticos democratas alegarem que ele "enganou deliberadamente o Congresso e a população", porque muitos legisladores viram a mesma inteligência e votaram cinco meses antes da invasão americana pela ameaça de uso de força militar.

Cheney foi ainda mais duro, acusando "uns poucos oportunistas" de sugerirem que os soldados americanos foram "enviados para a batalha por uma mentira".

As autoridades partiram para o contra-ataque depois que o Senado liderado pelos republicanos votou, por 79 votos contra 19, pela exigência de relatórios do Pentágono a cada 90 dias sobre o progresso no Iraque para substituir os 160 mil soldados do exército de ocupação americanos, para que 2006 possa ser um ano de "transferência significativa de soberania plena ao Iraque".

O deputado John P. Murtha, democrata da Pensilvânia, um condecorado veterano de combate no Vietnã que se aposentou como coronel da Corporação Marine após 37 anos de serviço ativo e na reserva, pediu na quinta-feira pela retirada de todos os soldados americanos do Iraque em seis meses.

"É hora de uma mudança de direção", disse Murtha, um antigo linha-dura em questões de segurança nacional, eleito à Câmara em 1974. Ele é o líder da bancada democrata no subcomitê de apropriações para a Defesa.

Estudiosos dizem que contra-ofensivas políticas raramente ajudam um presidente a se recuperar de reveses políticos assim que os índices de aprovação caem tão baixo quanto os de Bush (37% na semana passada) ou o caráter passa a ser questionado.

"A lição da história é que um presidente não consegue se recuperar sem um mea culpa que limpa o ar emocional", disse Buchanan, citando as experiências dos presidentes Lyndon B. Johnson, durante a guerra do Vietnã, Richard M. Nixon, durante o escândalo Watergate, e Gerald R. Ford, após o perdão dado a Nixon.

Buchanan disse que duvida que Bush pedirá desculpas publicamente por ter conduzido o país à guerra em busca de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. Mas uma abordagem semelhante permitiu que o presidente Ronald Reagan se recuperasse do escândalo Irã-Contras em seu segundo mandato nos anos 80, ao mudar o quadro da Casa Branca, aceitar a responsabilidade pessoal e pedir desculpas pela venda ilegal de armas para o Irã e o desvio do produto da venda para os guerrilheiros anticomunistas na Nicarágua, disse Buchanan.

"Eu disse ao povo americano que não troquei armas por reféns", disse Reagan à nação em 4 de março de 1987. "Meu coração e minhas melhores intenções ainda me dizem que isto é verdade -mas os fatos e a evidência me dizem que não é." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos