Americanos prevêem saída dramática do Iraque

Stewart M. Powell
Em Washington

Apesar do forte ataque do governo Bush ao deputado John Murtha, democrata da Pensilvânia, por este ter proposto a retirada de todas as tropas americanas do Iraque em um prazo de seis meses, o presidente Bush tem seus próprios planos para retirar mais de um terço dos 159 mil soldados americanos até as eleições para o Congresso, em novembro de 2006.

Seus planos para reduzir a força para cerca de 100 mil soldados americanos nos próximos 12 meses conta com amplo apoio político de republicanos e democratas. Mas tal apoio tem sido ofuscado pelo debate político acalorado sobre se as retiradas devem estar condicionadas à situação no Iraque ou a um prazo anunciado publicamente.

"O número das forças da coalizão claramente será reduzido", disse a secretária de Estado, Condoleezza Rice, para a "CNN", em uma entrevista exibida na quarta-feira. "Eu suspeito que as forças americanas não serão necessárias nos números atuais por muito mais tempo, porque os iraquianos estão fazendo progressos contínuos."

Zalmay Khalilzad, o embaixador americano no Iraque, acrescentou em comentários separados: "Será possível começar a ajustar o número de nossas forças para baixo --o que significa o início da retirada de algumas forças a partir do próximo ano".

Mesmo assim, políticos de ambos os lados estão trocando farpas. Bush e os aliados republicanos alegam que os críticos da guerra querem uma retirada "precipitada" e uma estratégia de "cortar e correr" --um curso de ação realmente defendido por alguns.

Os democratas alegam que Bush está mantendo teimosamente a estratégia de "manter o curso", apesar da Casa Branca estar planejando reduções substanciais no número de tropas para os próximos meses.

"Existe um amplo consenso no governo, nas forças armadas e no Congresso sobre retiradas escalonadas ligadas à velocidade em que as unidades iraquianas puderem substituir as unidades americanas", disse James Dobbins, um veterano solucionador de problemas para os governos Bush e Clinton, que escreveu "O Papel da América na Construção de Nações, da Alemanha ao Iraque" para a Rand Corporation.

"Há muita discussão sobre como explicar ou justificar o curso de ação --mas não muito debate sobre o curso de ação em si."

Os Estados Unidos têm 159 mil soldados no Iraque apoiados por 23 mil soldados de 26 outros países, principalmente da Grã-Bretanha, Coréia do Sul, Itália e Polônia.

Os primeiros cerca de 60 mil soldados a partirem no próximo ano começaram a deixar o Iraque depois do período das Festas. É quando o Pentágono planeja remanejar cerca de 21 soldados americanos enviados ao Iraque para reforçar a segurança para o referendo nacional da nova Constituição, em 15 de outubro, e para as eleições parlamentares de 15 de dezembro, para criação de um governo iraquiano plenamente independente.

Isto deixará para trás uma força americana de 138 mil soldados, que passará por contínua avaliação dos comandantes americanos visando a retirada de outros 40 mil soldados à medida que as forças de segurança iraquianas assumam o combate contra a insurreição.

Os comandantes americanos dizem que já têm preparados planos de contingência para acomodar reduções de tropas em resposta às crescentes pressões políticas no Iraque e nos Estados Unidos.

"É nosso trabalho considerar todas as opções", explicou o general John R. Vines do Exército, comandante das forças multinacionais no Iraque, na semana passada.

O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, foi questionado, na semana passada, se as forças americanas seriam reduzidas para 100 mil soldados até o final de 2006. "Tudo é possível", disse Rumsfeld para a "Fox News Sunday". "Vamos esperar para ver o que o general (George) Casey recomenda --mas é apropriado que ele faça planos deste tipo."

O "Washington Post", creditando vários altos oficiais militares que falaram sob a condição de anonimato, noticiou na semana passada que o Pentágono tem planos para reduzir o número de brigadas de combate no Iraque de 18 para 10 até 31 de dezembro de 2006. Tal mudança, a começar pela retirada de três brigadas de combate no início do próximo ano, deixaria menos de 100 mil soldados americanos no Iraque até o final de 2006.

Mas o Pentágono, honrando a retórica de "permanecer no curso" de Bush, planeja executar discretamente os planos de redução de tropas realizando o rodízio dos soldados americanos baseados no Iraque, no final de seus turnos de combate de 12 meses, sem o envio de soldados substitutos.

Dobbins, um diplomata de carreira envolvido na retirada americana da Somália, em 1993, e na campanha americana para derrubada do regime islâmico radical do Taleban no Afeganistão, em 2001, disse que os Estados Unidos poderão continuar sofrendo baixas, já que algumas unidades permanecerão no Iraque por vários anos para apoiar as unidades iraquianas treinados por americanos com logística de combate, inteligência diária, transporte aéreo e poder de combate aéreo.

"Uma retirada limitada mas significativa poderá ser suficiente para fornecer a alguns americanos um senso de que as coisas estão mudando para melhor no Iraque", disse Dobbins. "Mas isto não leva você muito rapidamente a uma retirada completa."

As forças lideradas pelos Estados Unidos treinaram um total de 212 mil soldados iraquianos, policiais e agentes de fronteira para assumir gradualmente as responsabilidades de segurança das tropas de combate americanas. Dos 29 mil soldados de combate iraquianos que já participam das operações militares conjuntas de americanos e iraquianos, apenas 700 são capazes de combater por conta própria, sem apoio americano, disse Vines na semana passada.

Os preparativos do governo Bush para retiradas graduais de soldados americanos ocorrem após sinais de impaciência entre as facções iraquianas e no Congresso liderado pelos republicanos, após 32 meses de uma campanha militar que já custou as vidas de pelo menos 2.108 soldados americanos e feriu outros 15.568. Os oficiais estimam que até 30 mil iraquianos morreram.

Representantes dos xiitas, sunitas e curdos iraquianos pediram na semana passada pela "retirada das tropas estrangeiras de acordo com um prazo", em um comunicado negociado sob os auspícios da Liga Árabe no Cairo, que prepara o caminho para um encontro das facções iraquianas em Bagdá, no final de fevereiro.

As pressões também estão crescendo nos Estados Unidos, com a mais recente Pesquisa Gallup mostrando que 53% dos entrevistados defendem uma retirada completa das forças americanas até novembro próximo, em comparação a 38% que defendem uma retirada que leve "quantos anos forem necessários".

Em uma rápida sucessão, o Senado liderado pelos republicanos votou por 79 votos contra 19, em 15 de novembro, pelo pedido para que Bush explique a "estratégia para uma conclusão bem-sucedida da missão no Iraque", com relatórios a cada 90 dias sobre o progresso para tornar 2006 "um período de transição significativa para uma soberania plena iraquiana".

Murtha, um coronel marine aposentado condecorado por combate no Vietnã, apresentou em 17 de novembro uma resolução na Câmara pedindo pela retirada das tropas americanas "na data mais cedo praticável" e por sua conclusão em um prazo de seis meses.

Os líderes republicanos da Câmara responderam promovendo uma sonora derrota de sua própria versão exagerada da proposta de Murtha, em 18 de novembro, por 403 votos contra 3, que pedia pela retirada imediata de todas as tropas americanas. A queda do apoio popular à guerra estimula políticos e militares a avaliar como e quando deve acontecer a retirada das tropas do país George El Khouri Andolfato

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