Bush e democratas deturpam mutuamente posições sobre a guerra

Stewart Art M. Powell
Em Washington

No debate sobre a guerra no Iraque, o presidente Bush e os seus críticos democratas freqüentemente deturpam as posições mútuas com uma retórica alarmista, esperando, com isso, auferir vantagens políticas.

Essa é uma técnica de campanha tradicional, utilizada por políticos para exagerarem as suas diferenças, não importando a intensidade destas. Mas tais exageros retóricos mascaram o consenso subjacente entre a maioria dos republicanos e dos democratas de que os 160 mil soldados dos Estados Unidos no Iraque deveriam ser retirados gradualmente do país islâmico, à medida que os 212 mil militares iraquianos treinados pelos norte-americanos assumissem a defesa do seu próprio país.

"Os dois campos estão, basicamente, propondo a mesma coisa --uma retirada gradual", afirma Stephen Hess, professor da Universidade George Washington especializado em campanhas políticas e questões presidenciais. "Mas ambos os lados estão com medo de afirmar isso publicamente. Eles preferem divulgar as diferenças, e não as propostas quanto às quais concordam".

O debate partidário continua, enquanto as tropas norte-americanas dão continuidade às operações no Iraque, que já custaram a vida de pelo menos 2.127 soldados e deixaram outros 15.881 feridos desde a invasão executada pelos Estados Unidos em 2003. A morte de dez fuzileiros navais, devido à explosão de um artefato explosivo plantado em uma estrada na última sexta-feira, aumentará a lista oficial de baixas, depois que os parentes dos soldados mortos forem notificados.

Na semana passada, alegando que "alguns críticos estão pedindo um prazo para a retirada", o presidente Bush advertiu uma turma de aspirantes da Marinha, na Academia Naval dos Estados Unidos, em Annapolis, Maryland, que "o estabelecimento de um prazo artificial" seria uma mensagem de que os Estados Unidos estão prontos para "bater e correr, fortalecendo a tática dos terroristas de decapitar pessoas, praticar ataques suicidas a bomba e cometer assassinatos maciços, além de convidá-los a lançar novos ataques contra os Estados Unidos".

Mas a verdade é que poucos democratas propuseram a "retirada imediata" ou o "prazo artificial", conforme alegou o presidente.

O deputado John Murtha, democrata da Pensilvânia, um veterano que atuou no Corpo de Fuzileiros Navais por 37 anos, tendo sido condecorado por bravura em combate no Vietnã, nunca usou a palavra "prazo" quando, em 17 de novembro último, pediu "uma reformulação imediata" da estratégia para as tropas norte-americanas no Iraque, a fim de criar uma força de reação rápida baseada na região com base em um grupamento de fuzileiros navais embarcados em navios da Marinha dos Estados Unidos estacionados no Golfo Pérsico.

O mais próximo que Murtha chegou de mencionar um prazo foi quando disse que "seis meses seriam um período razoável para tirar os soldados de lá". Depois disso, Murtha estendeu esse período para aproximadamente um ano, e repeliu as alegações dos republicanos de que teria estabelecido um prazo fixo.

Quando lhe indagaram a respeito do conflito entre a alegação de Bush de que os democratas teriam pedido uma "retirada imediata" e a proposta real de Murtha, o secretário de Imprensa da Casa Branca, Scott McClellan insistiu em dizer, na última quinta-feira, que o pedido feito por Murtha foi uma proposta que ele "definiria como uma solicitação de retirada imediata".

A Casa Branca tentou também fabricar um caso contra a proposta de Murtha, ao alegar que a Câmara teria rejeitado enfaticamente o plano quanto votou, em 18 de novembro último, por 403 votos a 3, contra a "retirada imediata". Mas essa votação se referiu a uma versão preventiva republicana de uma proposta de retirada, que caricaturou Murtha ao pedir que "a presença de forças dos Estados Unidos no Iraque fosse encerrada imediatamente".

Os democratas também distorceram a posição de Bush. A deputada Nancy Pelosy, democrata pela Califórnia, e líder democrata na Câmara, bem como outros democratas, alegou na semana passada que Bush ofereceu "um plano de status quo" quando falou na Academia Naval dos Estados Unidos. "Ficou bem nítido que o presidente foi incapaz de entender que é necessário um novo rumo no Iraque".

Na verdade, Bush revisou sutilmente a sua abordagem ao redefinir o critério para "vitória" e ao sinalizar que as tropas dos Estados Unidos poderão ser retiradas antes de Washington ser capaz de obter uma vitória total.

"À medida que as forças iraquianas adquirirem experiência e o processo político avançar, seremos capazes de reduzir o número de nossos soldados no Iraque, sem perdermos a capacidade de derrotar os terroristas", afirmou Bush. "A vitória virá quando os terroristas e os saddamistas não forem mais capazes de ameaçar a democracia iraquiana, quando as forças de segurança do Iraque puderem proporcionar segurança aos seus cidadãos, e quando o Iraque não for mais um abrigo para os terroristas que articulam novos ataques contra a nossa nação".

Hess, o professor da Universidade George Washington, diz que Bush e os seus críticos democratas estão evitando aquelas áreas nas quais há pontos de concordância a fim de se prepararem para as eleições parlamentares de novembro do ano que vem, que delineará o cenário político que conduzirá à disputa presidencial de 2008.

Nem Bush nem os democratas têm se concentrado no consenso bipartidário refletido em uma votação no Senado em meados de novembro último, quando os parlamentares votaram, por 79 votos a 19, a favor de uma proposta no sentido de solicitar à Casa Branca que faça de 2006 "um período de transição significativa para a total soberania iraquiana" que criaria as condições para "a retirada gradual das forças dos Estados Unidos no Iraque".

"Aquilo foi um colete salva-vidas para os dois campos políticos", disse Hess. "Me surpreende o fato de nenhum dos dois lados ter tirado maior proveito da proposta".

A discussão divisiva eclipsa os preparativos do Pentágono, por detrás dos bastidores, para dar início a uma retirada gradual no ano que vem de pelo menos 21 mil soldados que foram enviados ao Iraque no início deste ano, a fim de fortalecerem a segurança do país durante o referendo de 15 de outubro sobre a nova constituição, as eleições parlamentares de 15 de dezembro e a posse, em 31 de dezembro, do primeiro governo iraquiano independente desde a invasão promovida pelos Estados Unidos em 2003.

Autoridades do Pentágono planejam rever a força "básica" remanescente de 138 mil soldados, de olho em mais retiradas graduais, que poderiam reduzir o número de militares norte-americanos no Iraque para cerca de 100 mil por ocasião das eleições parlamentares de novembro nos Estados Unidos. Governo e oposição não se entendem ao falar da retiradas das tropas Danilo Fonseca

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