Especialistas em orçamento reclamam do governo hipertrofiado dos republicanos

Judy Holland
em Washington

Especialistas veteranos em questões de orçamento estão alarmados com os gastos federais descontrolados em um momento no qual o Congresso é liderado pelos republicanos, que tradicionalmente defendem a austeridade orçamentária e governos federais de tamanho reduzido.

Esses inimigos do déficit temem que o Congresso e a Casa Branca tenham elaborado uma fórmula capaz de inflacionar o orçamento, composta de reduções de impostos, um dispendioso benefício para os pacientes do Medicare (tipo de seguro de saúde nos EUA) que usam medicamentos comprados com receita médica e o aniquilamento de pequenos projetos, no momento em que o governo federal procura financiar as despesas com a defesa e os estragos causados pelos furacões.

"Os republicanos estão tão comprometidos com a responsabilidade fiscal quanto o Hilton de Paris com a modéstia", ironiza Marshall Wittmann, integrante do Conselho de Lideranças Democratas, uma organização de democratas que estão no centro do espectro político. "Ao mesmo tempo em que dizem estar preocupados com os gastos, eles continuam a reduzir os impostos, o que demonstra que simplesmente não estão se importando com o fato de criar maiores déficits".

Entre 2001 e 2005, os gastos federais totais saltaram de US$ 1,8 trilhão para US$ 2,4 trilhões, o que representa um aumento de 33%. No ano fiscal de 2005, que terminou em 30 de setembro último, o governo federal despendeu US$ 22 mil por domicílio, o valor mais elevado desde a 2ª Guerra Mundial.

O deputado Jim Cooper, democrata pelo Estado do Tennessee, e um conservado na área fiscal, que vê no inflacionário déficit orçamentário a sua principal prioridade - este déficit chegou aos US$ 317 bilhões em 2005 - reclama de que os republicanos "perderam o rumo e se transformaram no partido do governo hipertrofiado".

Cooper culpa o presidente Bush, o primeiro presidente a exercer um mandato inteiro sem um veto sequer desde o sexto presidente, John Quincy Adams.

"Não há supervisão exercida de forma adulta", diz Cooper. "Isto se constitui em uma abdicação completa da responsabilidade presidencial".

O deputado John S. Tanner, democrata do Tennessee, um outro conservador no campo das questões fiscais, observa que, sob Bush, o governo federal tomou mais dinheiro emprestado de fontes estrangeiras do que todos os seus predecessores juntos.

"Isso é o que eu chamo de um assalto às pessoas jovens deste país", critica Tanner.

Os líderes republicanos alegam que o surto de gastos foi provocado pelos programas antiterrorismo e os desastres naturais que fogem ao seu controle.

"Eu desejaria que não tivéssemos enfrentado os desafios que tiveram início com os ataques terroristas de 11 de setembro, e os furacões Katrina e Rita", argumenta o deputado Thomas Reynolds, republicano pelo Estado de Nova York, e diretor do Comitê Congressual Nacional Republicano. "Tivemos problemas com empresas de transporte aéreo, uma guerra e a reconstrução que se seguiu ao 11 de setembro. Estes são desafios para o país".

Os líderes republicanos dizem que precisam ampliar as reduções de impostos promovidas pelo presidente Bush para dar continuidade ao crescimento econômico proporcionado pelos cortes fiscais de 2001 e 2003, gerando uma maior arrecadação para o Tesouro.

O deputado Jeff Flake, republicano pelo Estado do Arizona, expressa indignação quanto àquilo que afirma ser uma cultura parlamentar na qual os legisladores apresentam projetos eleitoreiros - tais como os que prevêem verbas para pontes municipais e renovação de escolas -, a fim de agradarem aos eleitores em uma nação que está politicamente dividida ao meio.

"Um número excessivo de membros do Congresso sentiu o gosto dessa prática e agora eles estão convictos de que precisam dos projetos eleitoreiros para se reeleger", critica Flake. "Se não nos disciplinarmos, seremos disciplinados pelos eleitores".

O número de projetos eleitoreiros aumentou de 2.100 em 1998 para 13,997 em 2005, segundo o grupo de monitoramento da administração fiscal, Citizens against Government Waste ("Cidadãos Contra o Desperdício do Governo").

Exemplos recentes de gastos dessa natureza incluem aqueles destinados à criação de uma floresta tropical no interior de um edifício em Coralville, no Estado de Iowa, no valor de US$ 50 milhões; um programa de US$ 273,4 mil para o combate à "cultura gótica" em Blue Springs, no Estado de Missouri ; e o Festival Nacional do Amendoim, em Dothan, no Estado do Alabama, que custou US$ 202,5 mil.

Stephen Slivinski, diretor de estudos orçamentário do Instituto Cato - um centro de pesquisas liberal - concluiu que Bush é o presidente mais gastador desde Lyndon Johnson, que conjugou a expansão rápida de programas domésticos aos gastos com a Guerra do Vietnã.

O total de gastos federais sob Bush aumentou 5,6%, comparados aos 5,7% no governo Johnson, explica Slivinski.

"Agora temos um presidente que assumiu o grande governo", acusa Slivinski. "Bush está propondo elevações históricas dos gastos e, o Congresso, em vez de se contrapor a ele, está defendendo mais gastos".

Brian Riedl, analista de orçamentos da conservadora Fundação Heritage, afirma: "O atual Congresso está contente com a hipertrofia do governo". Segundo ele, a intensa reação pública à redução do papel do governo federal em 1995 teve um grande efeito sobre os conservadores eleitos.

"Vários conservadores concluíram que jamais deveriam tentar reduzir o governo, ou sequer restringir o seu crescimento, depois daquele fato", explica Riedl. "A lição que eles parecem ter aprendido foi que os eleitores necessitam de um governo grande e perdulário, repleto de projetos eleitoreiros".

"Generalizou-se a idéia de que, se não gastarmos o mais rapidamente possível, os eleitores nos colocarão para fora dos nossos cargos", afirma Riedl. "Os políticos acreditam na noção de que a estrada que conduz à reeleição está pavimentada com gastos governamentais".

Ed Lorenzen, diretor de política da Coalizão Concord, um grupo de bipartidário de monitoramento fiscal, diz que o Congresso liderado pelo Partido Republicano possui "uma política fiscal de governo pequeno e uma política de gastos de governo grande".

"O Congresso vem reduzindo impostos enquanto usa uma retórica de redução de gastos. Em vez disso, temos reduzido impostos e aumentado os gastos", afirma Lorenzen. "A isso se se soma o fato de se ter transformado projeções de superávits em projeções de déficits, até onde se pode enxergar".

"A era dos superávits orçamentários criou um clima de liberdade de gastos segundo o qual há muito pouca preocupação com o custo das legislações aprovadas, já que há uma sensação de que os recursos são ilimitados. O problema é que essa atitude de se gastar livremente prosseguiu mesmo depois que os superávits se transformaram em déficits". Danilo Fonseca

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