Hillary Clinton corteja militares veteranos como parte de provável candidatura em 2008

Jennifer A. Dlouhy
em Washington

Numa iniciativa para atenuar sua imagem liberal e posicionar-se para uma possível candidatura presidencial em 2008, a senadora democrata por Nova York Hillary Rodham Clinton está tentando conquistar os veteranos das forças armadas do país.

Em outubro ela assinou discretamente um projeto de lei patrocinado pelo rígido senador conservador Robert Bennett (Utah) para tornar ilegal a queima da bandeira em circunstâncias específicas. Agora Clinton está liderando um ataque para obrigar o Serviço Postal dos EUA a continuar emitindo o selo Coração Púrpura depois do aumento das tarifas, em 8 de janeiro.

"É o início de sua aproximação dos veteranos", disse Larry Sabato, um cientista político da Universidade da Virgínia. Manter em circulação o selo Coração Púrpura "é uma dessas microquestões que não importam no esquema maior das coisas, mas manda a mensagem certa".

Clinton evita perguntas sobre se pretende disputar a presidência em 2008, insistindo que seu enfoque é servir ao estado de Nova York no Senado federal. Mas a ex-primeira-dama é amplamente considerada a principal candidata democrata caso decida entrar na disputa.

Embora Clinton seja candidata à reeleição ao Senado em 2006, até agora os republicanos não encontraram um adversário sério para essa corrida. Em conseqüência, Clinton não precisou se empenhar para convencer os eleitores de Nova York de que merece ser reeleita -- o que lhe deixa tempo para cuidar de seu perfil político para a arena nacional.

No ano passado Clinton deu outros passos em direção ao centro para se tornar mais atraente para os eleitores moderados na eleição geral:

- Em um discurso em janeiro passado para defensores do direito ao aborto, ela articulou cuidadosamente uma posição moderada, dizendo que "existe uma oportunidade para as pessoas de boa-fé encontrarem um terreno comum" sobre a questão. Embora Clinton tenha insistido que o aborto deve continuar sendo legal, ela o chamou de "uma opção triste, e até trágica".

- Clinton criticou a guerra no Iraque. Mas, ao contrário de alguns de seus colegas democratas na Câmara e no Senado, não chegou a sugerir uma rápida retirada das tropas. E confirma seu voto em 2002 a favor da resolução que autorizou o presidente Bush a usar as forças armadas contra o Iraque, dizendo que foi a decisão certa na época. Clinton disse que o Congresso foi enganado por informações "falsas" sobre as armas de destruição em massa do Iraque.

- Clinton formou uma aliança improvável com o ex-presidente da Câmara Newt Gingrich, o republicano de língua afiada da Geórgia, para obrigar os fornecedores de atendimento de saúde a modernizar a maneira como cobram dos pacientes e das companhias de seguro.

Enquanto se encaminha para o centro político, Clinton poderia obter uma grande recompensa se atrair os veteranos militares, que são um bloco eleitoral influente. Segundo dados do Censo de 2000, existem mais de 26,4 milhões de veteranos com mais de 18 anos nos EUA.

Os candidatos a presidente há muito tempo buscam esse apoio para aumentar suas chances de chegar à Casa Branca. Bill Clinton fez isso apoiando a expansão de seus benefícios, em parte para silenciar acusações de que ele havia escapado do recrutamento durante a guerra do Vietnã.

E o senador democrata John Kerry, de Massachusetts, tentou atrair os veteranos no início da campanha à presidência salientando seu histórico militar e suas medalhas de combate, incluindo três Corações Púrpura. O esforço de Kerry foi anulado mais tarde por um grupo conhecido como Veteranos das Lanchas Patrulhas pela Verdade, que afirmou em anúncios na televisão e em um livro que Kerry não merecia aquelas honras militares.

Hillary Clinton tem mais incentivos ainda para conquistar os veteranos. Como mulher, ela tem a carga extra de provar que tem capacidade para liderar o país em situação de guerra, disse Sabato. "Ela está tentando ser a primeira mulher comandante-em-chefe, por isso tem de fazer um esforço especial para se comunicar com os militares e os veteranos", disse Sabato, notando que "existe uma questão de preconceito de gênero nesse caso, que qualquer mulher vai enfrentar. Esse é o início inteligente de uma estratégia para atacar o problema".

Não existe uma estratégia comprovada para atrair os veteranos, disse Steve Robertson, diretor legislativo da Legião Americana, que tem 3 milhões de membros. Existem dezenas de organizações de veteranos e militares com crenças e objetivos políticos muito variados. "A comunidade de veteranos é uma mistura sortida; viemos de todos os meios", disse Robertson. "A única coisa que temos em comum é o fato de termos servido ao nosso país."

Mas Robertson disse que Clinton e outros candidatos presidenciais podem tomar medidas para conquistá-los, principalmente trabalhando para garantir verbas federais estáveis para os hospitais da classe. Os veteranos têm se queixado de que seu sistema de saúde não está recebendo as verbas federais de que precisa -- e de que o financiamento varia amplamente de ano para ano.

"Os veteranos se sentem mais ou menos negligenciados pelo país neste momento", disse Thomas Bock, o comandante nacional da Legião Americana. "Existe muito espaço para ela ficar ao lado dos veteranos."

Clinton de modo geral foi uma aliada dos veteranos desde que chegou ao Senado em 2001. Bock comentou que recentemente ela trabalhou com o senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, para expandir a Tricare, o benefício de saúde dos militares, para membros da Guarda Nacional e reservistas.

Clinton foi uma das principais apoiadoras de uma proposta do orçamento de defesa aprovado pelo Congresso em 21 de dezembro que permite que os reservistas -- mesmo os que não estão na ativa -- se inscrevam no programa de seguro-saúde.

Mas os veteranos estão zombando das últimas tentativas de Clinton, incluindo sua petição para convencer o correio dos EUA a continuar imprimindo o Coração Púrpura, que tem quase três anos. Clinton apelou diretamente ao chefe do Serviço Postal, John Potter, para que mantenha o selo de US$ 0,37 mesmo depois das mudanças das tarifas postais em 8 de janeiro. Tradicionalmente, o serviço postal pára de emitir selos não-comemorativos quando novas tarifas entram em vigor.

Bock disse que o esforço de Clinton para manter o selo é "simpático", mas não substancial. "É como dar tapinhas nas costas de alguém e dizer 'Gostamos de você'", disse Bock. "O que um selo vai fazer por um veterano que precisa de tratamento de saúde?" E acrescentou: "É superficial. Precisamos de coisas concretas".

Clinton também decepcionou alguns importantes grupos de veteranos recentemente, quando adotou a questão da queima da bandeira e tentou conquistar dois eleitorados: os conservadores que dizem que deve ser crime queimar a bandeira nacional e os liberais que dizem que é liberdade de expressão, protegida pela Constituição.

Em outubro ela foi a única democrata no Senado que assinou um projeto do senador Bennett que tornaria crime -- punível com até um ano de prisão -- o ato de danificar a bandeira para incitar à violência ou queimá-la para "intimidar" outros.

A abordagem difere acentuadamente da estratégia preferida pelos veteranos e pela maioria dos republicanos no Congresso: emendar a Constituição para permitir que o Congresso proíba todo tipo de profanação da bandeira. Os defensores de uma emenda constitucional dizem que o documento precisa ser reescrito antes que o Congresso tente criminalizar a queima da bandeira.

De outro modo, os projetos contra a profanação da bandeira -- como o proposto por Bennett e Clinton -- provavelmente seriam derrubados como inconstitucionais. Bock disse que o apoio de Clinton ao projeto não passa de um estratagema político barato. Ao apoiá-lo, disse Bock, Clinton dá a impressão de que quer proteger a bandeira, mesmo que sua abordagem provavelmente não fosse aprovada no Congresso.

"A verdade -- e virtualmente todo mundo no Capitólio sabe disso -- é que uma emenda constitucional que deposita os alicerces para uma lei é a única maneira de proteger legalmente a bandeira", disse Bock, acrescentando que com o projeto de Bennett Clinton pode afirmar que "tentou proteger a bandeira, mas os tribunais não permitiram". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos