Especialistas dizem que há poucas opções militares contra o Irã

Eric Rosenberg
Em Washington

Especialistas militares dizem que um bombardeio ou ataque de mísseis contra as supostas usinas de armas nucleares do Irã provavelmente fracassaria, porque os iranianos aprenderam as lições da experiência do Iraque em 1981, quando jatos israelenses explodiram o reator de Saddam Hussein.

Enquanto o programa nuclear iraquiano se concentrava em um complexo acima do solo e foi facilmente localizado pelos pilotos israelenses, acredita-se que o Irã tenha cerca de 20 instalações nucleares dispersas pelo país, que é maior que o Alasca, com alguns centros vitais protegidos contra ataques aéreos ou escondidos no subsolo.

As especulações sobre a possibilidade de opções militares aumentaram nos últimos dias, depois que o Irã desafiou a comunidade internacional ao decidir retomar suas iniciativas para enriquecer urânio. Em retaliação, os EUA e os países europeus querem que o Conselho de Segurança da ONU considere sanções econômicas contra o Irã.

Os EUA e a Europa suspeitam que o Irã esteja desenvolvendo armas nucleares, mas o Irã insiste que sua pesquisa nuclear visa somente o desenvolvimento de reatores para a produção de eletricidade.
A CIA, cuja credibilidade ficou muito reduzida depois que se provou falsa sua alegação de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, acredita que o Irã está mentindo.

Depois do impasse com Teerã, os congressistas americanos estão discutindo abertamente a possibilidade de um ataque militar. O senador republicano John McCain, do Arizona, uma voz respeitada em questões militares, disse recentemente que "só existe uma coisa pior que ... efetivar a opção militar (contra o Irã). É um Irã armado nuclearmente. A opção militar é a última opção, mas não pode ser descartada".

"Essa é a última opção. Todas as outras têm de ser esgotadas. Mas seria loucura dizer que sob nenhuma circunstância nós exerceríamos a opção militar", disse McCain na CBS.

Especialistas em armamentos dizem que seria virtualmente impossível destruir o programa nuclear do Irã em um ataque. "Os iranianos se protegeram contra ataques militares construindo embaixo do solo e dispersando", disse o físico David Albright, presidente do Instituto de Ciência e Segurança Internacional, que acompanha os programas nucleares em todo o mundo. "É difícil imaginar neste momento (um ataque aéreo) que seria devastador para os iranianos".

Uma comparação entre as instalações iraquianas destruídas pelos jatos israelenses e as instalações iranianas é como entre a noite e o dia, disse Albright. As opções militares "não fazem muito sentido", ele disse.

Outra diferença entre o Iraque e o Irã é a certeza da inteligência. Os israelenses tinham amplas informações indicando que explodir o reator nuclear de Osirak, construído pelos franceses, seria um golpe devastador para o programa nuclear de Saddam. Mas o Irã tem tantas instalações -- e possivelmente outras que a inteligência americana não localizou --, que destruir várias delas poderia não ter qualquer impacto significativo.

No ataque de 1981 contra o Iraque, o então primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, ordenou que seus jatos bombardeassem o centro de Osirak, situado a 17 quilômetros a sudeste de Bagdá, pouco antes de quando ele deveria começar a produzir plutônio para bombas atômicas. Os jatos F-15 e F-16 de fabricação americana sobrevoaram a Jordânia, a Arábia Saudita e o Iraque. Depois de um vôo tenso de 90 minutos, durante o qual os jatos chegaram a voar a apenas 60 metros acima do solo, eles destruíram a instalação em menos de dois minutos com bombas de 900 quilos.

Embora na época muitos países tenham condenado o ataque, hoje se considera geralmente que ele retardou as ambições nucleares de Saddam Hussein em mais de uma década.

Outra diferença é que o programa nuclear do Irã conta com um processo de produção de material para ogivas atômicas que é mais fácil de esconder. Enquanto o Iraque tentou produzir ogivas usando um reator de plutônio, que ofereceu um grande alvo aos israelenses, o Irã usa centrífugas para produzir urânio enriquecido. As centrífugas são menores, de grande mobilidade e fáceis de esconder.

As ogivas nucleares podem ser feitas de plutônio ou de urânio altamente enriquecido, conhecido como U-235, produzido através do enriquecimento em centrífugas.

O senador democrata Evan Bayh, de Indiana, membro da Comissão de Inteligência do Senado, levantou recentemente a possibilidade de atacar algumas instalações nucleares do Irã, assim retardando seu aparente esforço para construir armas nucleares. Ataques concentrados poderiam "atrasar drasticamente" o programa de armas do Irã, disse Bayh.

Gary Milhollin, do Projeto Wisconsin para Controle de Armas Nucleares, que acompanha o programa do Irã, concordou que "existem coisas essenciais na cadeia de produção nuclear que podem ser removidas. Os iranianos teriam de reconstruí-las e isso levaria tempo".

Uma dessas instalações é uma grande usina de conversão de urânio na cidade central de Isfahan. A usina produz uma forma gasosa de urânio, que depois é transportada para enriquecimento em centrífugas.
"Por ser uma instalação industrial acima do solo, Isfahan pode ser vulnerável a sabotagem ou a ataques", disse Jon Wolfsthal, um ex-oficial do Departamento de Energia e especialista em proliferação de armas nucleares. "Mas não é o tipo de coisa que desaceleraria o programa por mais de um ano." Os EUA acreditam que o Irã possa construir uma arma nuclear dentro de cinco anos.

Israel também já sugeriu um ataque militar. O primeiro-ministro em exercício, Ehud Olmert, disse na semana passada que "sob nenhuma circunstância e em nenhum momento" Israel poderia permitir que o Irã tivesse essas armas. Líderes iranianos há muito tempo afirmam que o Estado judeu deve ser destruído.

Qualquer ataque militar teria sérias conseqüências políticas. Fariborz Mokhtari, um especialista iraniano na Universidade de Defesa Nacional do Departamento de Defesa dos EUA, disse que um ataque faria o Irã acelerar seu programa de armas nucleares e "criaria uma base de apoio ao governo teocrático, que normalmente é desacreditado e desprezado pela maioria" dos iranianos.

"Isso criaria problemas indizíveis para as forças americanas no Iraque, Afeganistão e outros pontos da região onde os EUA mantêm presença", ele disse, e ao mesmo tempo encorajaria ataques terroristas de grupos simpáticos ao Irã, como o Hezbolah e o Hamas. "Em suma, uma opção militar provavelmente causará os resultados que menos desejamos. Mesmo a opção de um ataque 'cirúrgico' é enganosa e contraproducente", disse Mokhtari. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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