Pentágono faz da contenção da China uma prioridade

Eric Rosenberg
Em Washington

A nova estratégia do Pentágono que norteará o desenvolvimento de sistemas de armamentos e as alocações de tropas será divulgada dentro de uma semana, e deverá conferir uma nova ênfase à contenção da crescente capacidade militar da China.

A minuta final da estratégia --conhecida como revisão de quatro anos da situação da defesa-- propõe o aumento das forças da Marinha dos Estados Unidos no oeste do Oceano Pacífico, com o deslocamento de unidades da força que atualmente estão no Oceano Atlântico.

Segundo a minuta, obtida pela agência "Bloomberg News", a Marinha disponibilizará pelo menos seis porta-aviões e 60% dos seus submarinos do Oceano Pacífico "para apoiarem operações de combate, presença e contenção".

Geralmente a Marinha mantém até cinco porta-aviões e cerca de 50% dos seus submarinos disponíveis para uso no Pacífico.

"A frota terá uma maior presença no Oceano Pacífico, de maneira consistente com o deslocamento global ocorrido nos setores de comércio e transporte", anuncia a minuta.

A estratégia se tornará pública em 6 de fevereiro, como parte das recomendações orçamentárias feitas pelo presidente Bush ao Congresso para o ano fiscal de 2007, que terá início em 1º de outubro.

O Pentágono está também expandindo as suas bases em Guam para abrigar mais bombardeiros da Força Aérea B-2, que praticamente não são detectáveis por radar, além de aeronaves-robôs.

"A planejada expansão da Marinha no Oceano Pacífico é uma indicação clara de uma estratégia para a contenção dos chineses", disse em uma entrevista James Lilley, ex-embaixador norte-americano na China.

O aumento da presença no Pacífico traduz ainda a crescente preocupação dos Estados Unidos com os objetivos militares da China. Embora Estados Unidos e China sejam grandes parceiros comerciais, o relacionamento dos dois países nos últimos dez anos foi marcado por desavenças episódicas e ameaças ocasionais de conflito militar direto.

Em 1996, por exemplo, enquanto Taiwan se preparava para realizar eleições presidenciais, a China testou mísseis desarmados a 40 quilômetros da costa da ilha. Os Estados Unidos responderam com o envio de dois porta-aviões ao Estreito de Taiwan, em uma maciça demonstração de força e solidariedade à ilha, que Pequim considera uma província renegada.

Em 2001, um avião de caça chinês colidiu com uma aeronave espiã EP-3, da Marinha dos Estados Unidos, em espaço aéreo internacional, obrigando o avião norte-americano a fazer um pouso de emergência em uma ilha controlada pela China, próxima ao continente. O piloto chinês morreu e a tripulação norte-americana ficou detida durante 11 dias, gerando uma situação tensa, ao estilo da Guerra Fria.

Desde então, o relacionamento entre Estados Unidos e China tem sido delicado. Os Estados Unidos necessitam da cooperação de Pequim para combaterem o terrorismo, resolverem os impasses nucleares com a Coréia do Norte e o Irã, e solucionarem questões relativas ao comércio internacional.

Por outro lado, os estrategistas do governo dos Estados Unidos monitoram atentamente a expansão militar chinesa, uma medida que estes estrategistas acreditam estar voltada para a conquista rápida de Taiwan e a neutralização de qualquer tentativa norte-americana de socorrer a ilha.

Em um relatório enviado ao Congresso em 2003, avaliando o poderio militar da China, o Departamento de Defesa sentenciou: "O objetivo primário da modernização das forças armadas chinesas é a preparação para um potencial conflito no Estreito de Taiwan".

"Agindo de surpresa, Pequim poderia optar por capturar rapidamente pontos-chave em Taiwan, utilizando as suas forças anfíbias e aerotransportadas e a ameaça de grande destruição como meio de conseguir alguma forma de capitulação", disse o relatório. De sistemas de mísseis a aviões a jato, de belonaves a tropas de combate terrestre, de mísseis de cruzeiro a foguetes de ataques a navios, a China tem criado armamentos com o objetivo de transformar as suas enormes forças armadas, que tem um padrão de terceiro mundo, em uma moderna força de combate. Algo que preocupa especialmente os Estados Unidos é a crescente sofisticação de Pequim no que diz respeito à fabricação de mísseis capazes de atingir Taiwan. A China conta com mais de 650 mísseis balísticos de curto alcance, e esta quantidade deve aumentar em cerca de cem mísseis por ano.

Ao mesmo tempo, a China está criando mísseis de maior raio de ação, capazes de atingir o Japão, onde estão estacionados quase 35 mil soldados norte-americanos.

A mais recente avaliação feita pelo Pentágono sobre o poderio militar da China em meados do ano passado informou: "Pequim continua a investir pesadamente nas suas forças armadas, especialmente em programas elaborados para aumentar a sua projeção de poder".

Já o relatório ao Congresso disse: "O ritmo e a amplitude do aumento do poderio bélico da China já são tão grandes que colocam em risco os equilíbrios militares regionais".

Em 2004, os Estados Unidos gastaram cerca de US$ 466 bilhões (cerca de R$ 1 trilhão) com o setor de defesa, segundo o GlobalSecurity.org, um grupo de pesquisa de segurança nacional. A China ficou em segundo lugar, com US$ 65 bilhões (cerca de R$ 143,5 bilhões), embora Pequim só reconheça oficialmente ter investido a metade desta cifra, e a Rússia veio em terceiro, com US$ 50 bilhões (cerca de R$ 110,5 bilhões). A parcela oficial do orçamento de defesa da China tem crescido segundo uma média anual de 14% desde 2000.

Os Estados Unidos investem mais em defesa anualmente do que China, Rússia, França, Japão, Alemanha, Reino Unido, Coréia do Sul e Itália combinados.

"Quem ler os documentos militares chineses perceberá que nós somos o inimigo. É por isso que eles estão se preparando para nos impedir de atuar no Estreito de Taiwan e para nos desafiar no decorrer do tempo".

Evan Medeiros, um especialista em questões chinesas da Rand Corporation, uma organização de pesquisas que presta serviços de análise ao Departamento de Defesa e outras agências, diz que existe "profunda incerteza na comunidade internacional" quanto às intenções globais da China.

"A China é a grande, assustadora e nova variável nas relações internacionais", disse Medeiros em uma entrevista. "Ela está se tornando mais poderosa, mas não se sabe como utilizará tal poder". Aumento do poderio militar do país asiático tem preocupado os EUA Danilo Fonseca

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