Única superpotência mundial paga conta enorme de defesa

Eric Rosenberg
em Washington

Não é barato ser a única superpotência do mundo. Na semana passada, o presidente Bush disse que quer gastar US$ 439 bilhões no próximo ano em defesa nacional, um aumento de 7% em relação aos gastos atuais.

Acrescentando-se os custos das operações militares no Iraque e no Afeganistão e a manutenção do arsenal de armas nucleares do país, os EUA gastarão incríveis US$ 513 bilhões em defesa no ano fiscal que começa em 1º de outubro, supondo que o Congresso aprove os planos de Bush.

Essa soma é muito maior que os orçamentos de defesa combinados dos aliados dos EUA e seus potenciais inimigos juntos. Colocando de outra forma, o orçamento de defesa dos EUA pelo menos equivale aos gastos de defesa de todo o resto do mundo, e segundo algumas estimativas os supera.

Os países que têm gastos de defesa mais próximos são a China, com cerca de US$ 68 bilhões anuais, a Rússia, com US$ 50 bilhões, e o Reino Unido, US$ 47 bilhões.

"Os EUA gastam várias vezes mais com os militares do que qualquer adversário imaginável, e juntamente com seus aliados representam mais de dois terços dos gastos totais de defesa no mundo", disse um relatório do Departamento de Contabilidade do Governo, que é uma auditoria do Congresso.

Os gastos de defesa dos EUA aumentaram desde o final dos anos 90. Os orçamentos cresceram mais de 41% entre 1999 e 2004, na maior parte depois dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, segundo o Instituto de Pesquisa para a Paz Internacional, em Estocolmo.

Tentando abafar o choque quando o orçamento de defesa do governo Bush foi divulgado na semana passada, o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, afirmou que a conta é comparativamente barata, porque representa uma parcela menor da produção econômica total do país, ou Produto Interno Bruto.

Os gastos de defesa planejados para o próximo ano equivalem a 3,7% do PIB, ele disse ao Comitê das Forças Armadas do Senado. Em comparação, disse Rumsfeld, foram cerca de 10% do PIB nos governos Eisenhower e Kennedy e 5% quando ele serviu como secretário da Defesa do governo Ford. Os gastos de defesa do governo Bush "são uma proporção relativamente modesta do PIB", ele acrescentou.

As únicas outras épocas em que os EUA gastaram tanto em defesa nacional, em dólares atuais, foi durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Coréia. Ajustados pela inflação, os gastos de defesa hoje estão muito acima da média anual de US$ 366 bilhões gastos durante a época da Guerra Fria, quando os EUA enfrentaram a ameaça do aniquilamento nuclear ou uma invasão soviética da Europa ocidental.

Enquanto os EUA gastam em níveis semelhantes aos da Guerra da Coréia e da Segunda Guerra Mundial, há menos pessoas uniformizadas nos EUA em 2006, em comparação com aqueles conflitos. Da mesma forma, o número de forças inimigas que enfrentam tropas americanas é drasticamente menor.

"Para a Guerra da Coréia mobilizamos uma força de cerca de meio milhão. Para a Segunda Guerra Mundial utilizamos 18 milhões de soldados", disse Winslow Wheeler, um ex-especialista em defesa da equipe republicana do Comitê de Orçamento do Senado. "Nosso orçamento de defesa gigantesco está suportando uma guerra muito menor, de cerca de 138 mil soldados combatendo 20 mil 'bandidos'."

Uma parte do aumento dos gastos de defesa pode ser atribuída aos dispendiosos novos sistemas de armas. Alguns exemplos: a nova frota de 179 caças F-22 da força aérea custam mais de US$ 300 milhões cada; os 12 novos destróieres da marinha custam cerca de US$ 3 bilhões cada; a marinha quer construir 30 novos submarinos a US$ 2,6 bilhões cada; o exército quer US$ 161 bilhões para sistemas de armas pilotadas e controladas por robô; o avião de caça Joint Strike Fighter, que será utilizado pela marinha, os fuzileiros navais e a força aérea, custará US$ 256 bilhões para a frota planejada de 2.400 aviões.

"Temos um número reduzido de forças para uma quantidade de dinheiro cada vez maior", disse Wheeler, que atualmente é analista de orçamento no Centro de Informações de Defesa, uma organização que acompanha os gastos em defesa. "Estamos chegando à etapa do riso nervoso nessa tendência", em que um único caça a jato custa US$ 300 milhões.

O governo Bush afirma que o enorme orçamento de defesa dos EUA não é apenas para combater rebeldes no Iraque. Rumsfeld pediu aos americanos que considerem o pedido de gastos do Pentágono como um adiantamento para a "longa guerra" contra o terrorismo, que ele comparou à luta de décadas contra o comunismo.

Rumsfeld, o general dos fuzileiros navais Peter Pace, chefe do Estado-Maior conjunto, e o general Peter Schoomaker, chefe de gabinete do exército, usaram nove vezes o termo "longa guerra" em seu depoimento ao Comitê de Forças Armadas do Senado.

Isso não amoleceu o senador democrata Robert Byrd, da Virgínia Ocidental, que faz parte do comitê. "Essa é uma quantia absurda para defesa. Os contribuintes americanos merecem saber se esse dinheiro é realmente bem gasto", ele disse aos líderes da defesa.

Chris Edwards, um falcão do déficit -- definido como uma pessoa que acredita que os orçamentos federais equilibrados são bons --, está estupefato diante do que considera um gasto de defesa descontrolado. "Parece que qualquer tipo de restrição fiscal foi afastada" em nome dos gastos da defesa, disse Edwards, um analista de orçamentos do conservador Instituto Cato.

Alguns analistas de defesa dizem que a mobilização militar durante o governo Bush e a queda da URSS transformaram os EUA em mais que uma superpotência. Alguns a chamam de "hiperpotência" porque nenhum país pode se equiparar militar, econômica ou politicamente.

As forças militares americanas que resultaram disso não têm rival. Elas incluem: os 12 maiores porta-aviões do mundo; a única frota de aviões invisíveis do mundo; bombardeiros de longo alcance e mísseis de precisão capazes de atacar qualquer parte do globo; uma maciça força aérea de carga que pode transportar tropas para o mundo todo em curto prazo; armamentos pré-posicionados ao redor do globo, para quando as forças americanas precisarem; e um mortífero arsenal de bombas nucleares.

Os analistas acreditam que o aumento de gastos com novas armas destina-se em grande parte a contrabalançar a China, cujo orçamento de defesa cresceu em índices de dois dígitos nos últimos anos.

"A maior parte dos gastos tem pouco a ver com a guerra ao terrorismo", disse John Pike, diretor da GlobalSecurity.org, um grupo de pesquisa independente que acompanha tendências militares em todo o mundo. Pike afirma que, principalmente, os gastos com novos navios, jatos, mísseis e outros armamentos "são voltados para a ameaça que não ousa dizer seu nome: China".

Os EUA estão tomando cuidado para não rotular a China de "ameaça", dizendo que Washington quer incentivar Pequim na direção de uma maior transparência e de reformas, ao mesmo tempo mantendo a capacidade de dissuadir a China de um desafio militar.

Eua lideram o mundo em gastos de defesa

A seguir, uma lista dos maiores gastadores do mundo em defesa:

EUA - US$ 466 bilhões
China - US$ 67 bilhões (estimativa)
Rússia - US$ 50 bilhões (est.)
Reino Unido - US$ 47 bilhões
França - US$ 46 bilhões
Japão - US$ 45 bilhões
Alemanha - US$ 35 bilhões
Itália - US$ 28 bilhões
Coréia do Sul - US$ 21 bilhões
Arábia Saudita - US$ 19 bilhões
Índia - US$ 18 bilhões
Austrália - US$ 16 bilhões
Turquia - US$ 12 bilhões
Israel - US$ 10 bilhões
Canadá - US$ 10 bilhões
Irã - US$ 10 bilhões (est.)
Espanha - US$ 9 bilhões
----
Fontes: The Stockholm International Peace Research Institute e GlobalStrategy.com, organizações independentes de pesquisa, e World Factbook, da CIA. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos