Senado dos EUA luta para lidar com 12 milhões de imigrantes ilegais

Jennifer A. Dlouhy
Em Washington

Os esforços do Congresso para reformar as leis de imigração do país estão atoladas no que o senador Edward M. Kennedy, democrata de Massachusetts, chamou de "verdadeira enchilada" (uma tortilha mexicana)- o que fazer com os cerca de 12 milhões de imigrantes ilegais que já vivem dentro das fronteiras americanas.

Apesar de semanas de trabalho intenso na reforma da imigração -e um compromisso potencial em algumas questões- os líderes do Senado não estão mais próximos de encontrar uma solução. O debate no plenário do Senado está marcado para começar em 28 de março.

Os legisladores da Câmara praticamente se esquivaram da questão ao aprovarem uma medida severa concentrada em reforçar a segurança das fronteiras do país.

"Esta é uma questão política realmente difícil", disse o senador Sam Brownback, republicano do Kansas. "Também é uma daquelas questões que provocam uma reação visceral" nas pessoas.

O debate está polarizado, disse o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul.

De um lado estão legisladores "que querem que todos sejam os cidadãos de amanhã", disse Graham. "E há pessoas que querem colocar os 12 milhões (...) em um ônibus" e enviá-los de volta para seus países de origem.

"Nenhum dos dois acontecerá", acrescentou Graham. "Não há nada que um senador americano pode fazer para agradar a todos nesta questão."

O atual sistema -incluindo o emprego frouxo das leis contra a contratação de trabalhadores sem documentos- tem contribuído para o problema, disse Kennedy.

"Nós sabemos que temos fronteiras cheias de aberturas (...) e que temos empregadores que dão as boas-vindas a estes indivíduos."

Os trabalhadores ilegais geralmente entram nos Estados Unidos com a mais nobre das intenções, disse Kennedy: encontrar trabalho para sustentar suas famílias.

"Você quer uma maior aplicação da lei, mas você também deseja um sistema legal, aplicável, para preencher um mercado de trabalho ou reunificar as famílias", disse Brownback.

A solução do presidente Bush é criar um novo visto que estrangeiros e imigrantes ilegais poderiam usar para trabalhar temporariamente em empregos que os empregadores americanos têm dificuldade de preencher com americanos.

Mas Bush não disse quão aberto o programa de trabalhadores convidados seria para os trabalhadores ilegais que já vivem nos Estados Unidos -e que obstáculos eles teriam que superar para participar.

Bush encorajou os legisladores a resolverem o assunto no Capitólio, mas a luta não mostra sinais de que terminará tão cedo. Os senadores estão chegando perto de um acordo em um aspecto da reforma: a criação do programa de trabalhadores convidados para estrangeiros que ainda não vivem nos Estados Unidos.

Segundo uma versão apresentada, os estrangeiros teriam que voltar aos seus países de origem após dois anos, mas poderiam pedir novamente os vistos para até mais seis anos de trabalho nos Estados Unidos.

Mas apesar do compromisso, os senadores continuam profundamente divididos quanto ao destino dos imigrantes ilegais que já estão aqui. Mesmo os legisladores que concordam na criação de algum tipo de programa de trabalhador convidado para este grupo não conseguem chegar aos detalhes. Um dos pontos seria obrigar os imigrantes ilegais a voltarem para seus países de origem antes que pudessem requisitar um novo visto de trabalho.

Kennedy e outros defensores dos imigrantes ilegais dizem que a abordagem afugentaria os imigrantes ilegais. Em vez de encorajá-los "a saírem das sombras", disse Kennedy, obrigar os imigrantes ilegais a voltarem para seus países de origem os estimularia a uma maior clandestinidade.

A outra grande questão é o quanto facilitar para que os imigrantes ilegais se tornem cidadãos após trabalharem com os vistos temporários.

Pelo menos sete opções diferentes estão circulando no Capitólio -desde um plano liberal defendido por Kennedy e pelo senador John McCain, republicano do Arizona, até uma proposta conservadora mais restritiva apresentada pelos senadores republicanos John Cornyn, do Texas, e Jon Kyl, do Arizona.

A medida Kennedy-McCain permitiria aos imigrantes ilegais trabalharem seis anos nos Estados Unidos se autorizassem checagem de antecedentes, pagassem impostos atrasados e multas de pelo menos US$ 1 mil. Após seis anos, eles poderiam requisitar o green card, o visto permanente de imigração, mas só estariam aptos a pedir cidadania após o governo terminar de processar o cerca de 3 milhões de pedidos pendentes de green card.

O projeto de Cornyn e Kyl exigiria que os imigrantes ilegais deixassem os Estados Unidos dentro dos próximos cinco anos para que então pudessem requisitar os vistos de trabalho temporário que os autorizariam a trabalhar nos Estados Unidos por até dois anos. Depois disso, eles teriam que voltar para casa por um ano antes de requisitarem uma nova autorização por mais duas vezes, totalizando seis anos. A proposta Cornyn-Kyl não criaria um novo caminho para a cidadania.

A medida do senador Arlen Specter, republicano da Pensilvânia, presidente do Comitê Judiciário do Senado, oferece um compromisso ao criar um novo "gold card" para os imigrantes ilegais, que permitiria que permanecessem e trabalhassem dentro dos Estados Unidos por dois anos. O "gold card" poderia ser renovado indefinidamente. Segundo o plano de Specter, não haveria nenhum novo caminho para os imigrantes ilegais se tornarem cidadãos.

Cornyn se queixou de que o povo americano perdeu a fé no governo para deter a maré de imigração ilegal. E, ele insistiu, é crucial para os Estados Unidos não fazerem nada que possa ser percebido como uma anistia ou recompensa aos infratores. Para Cornyn, isto inclui permitir que os imigrantes ilegais recebam vistos de trabalhos sem primeiro deixarem os Estados Unidos e dar-lhes um novo caminho para a cidadania.

"O que frustra muito as pessoas é que, apesar de sermos uma nação de imigrantes, nós parecemos tolerar esta falta de lei dentro de nossas fronteiras nesta questão", disse Cornyn.

Mas os defensores da abordagem Kennedy-McCain, incluindo alguns conservadores como Brownback e Graham, insiste que não se trata de uma anistia, pois há muitos obstáculos que os imigrantes ilegais devem superar antes de obterem os vistos de trabalho legal e pedir cidadania. Para obter o green card, os imigrantes ilegais teriam que trabalhar por seis anos, aprender inglês, pagar multas e permitir uma checagem de antecedentes.

"Isto provavelmente excluiria metade da minha família", brincou Graham, acrescentando que "não se trata de sair da cadeia de graça. Os 11 ou 12 milhões não estariam recebendo anistia".

Kyl argumenta que o plano de Kennedy e McCain que permite aos imigrantes ilegais requisitarem cidadania após seis anos trabalhando legalmente nos Estados Unidos lhes dá uma vantagem injusta sobre os cerca de três milhões que já pediram green card. Enquanto eles estão esperando pacientemente na fila em seus países de origem, os imigrantes ilegais teriam uma chance de ficar e trabalhar nos Estados Unidos, disse Kyl.

Para os legisladores, a questão é politicamente traiçoeira -e toca cada Estado, não apenas aqueles na fronteira com o México.

Brownback disse que a questão é levantada toda vez que visita seu eleitorado no Kansas. "Não é possível ir mais longe da fronteira do que no meu Estado, mas esta é a primeira ou segunda questão mais mencionada", ele disse.

Para Brownback -um republicano conservador em um Estado vermelho (republicano)- esta é que uma questão politicamente difícil. Brownback que tem sido criticado por adotar uma posição mais moderada e por apoiar o projeto McCain-Kennedy.

Quando os eleitores dizem a Brownback que a abordagem recompensaria infratores da lei, o senador do Kansas disse que sua resposta é de que o país precisa ser prático e reconhecer "a realidade da situação".

"Nós sabemos que eles estão aqui" e que não partirão, disse Brownback. "Nós temos um sistema que está tão falido que mais e mais pessoas entram e permanecem ilegalmente (do que por meios legais). Esta é uma situação que não pode continuar."

Este é um dos poucos pontos em que quase todos os legisladores parecem concordar.

"Quanto mais adiarmos uma solução (...) maior e maior se tornará o problema e mais difícil de resolver", disse Kyl. "Portanto, não fazer nada não é uma opção." George El Khouri Andolfato

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