Parlamentar conhecido como "o pai das cercas" quer um muro na fronteira entre México e Estados Unidos

Jennifer A. Dlouhy,
em Washington

Durante quase duas décadas, o deputado Duncan Hunter, republicano pela Califórnia, defendeu a construção de um muro na fronteira sudoeste dos Estados Unidos, começando modestamente no final da década de 1980 com uma cerca de 22,5 quilômetros separando San Diego de Tijuana, no México.

O congressista, que está no seu 13º mandato, é agora o principal proponente de um plano para a construção de cercas ao longo de um terço da fronteira entre Estados Unidos e México.

"Cercas funcionam", diz Hunter de forma contundente, usando a barreira de 22,5 quilômetros em San Diego como principal exemplo.

"Antes da cerca dupla -- e, em alguns pontos, tripla -- ter sido construída, o crime imperava ao longo daquela parte da fronteira", afirma Hunter. "As passagens ilegais pela fronteira -- por carro ou a pé -- eram comuns. San Diego era uma terra de ninguém quando construímos a cerca. A situação era tão ruim que gangues armadas circulavam pela área, algumas delas portando armas de assalto. Eles assediavam transeuntes, estupravam mulheres e brutalizavam as pessoas."

De 1992 -- pouco antes da primeira grande cerca ter sido concluída em San Diego -- a 2004, a apreensão de imigrantes ilegais na região caiu de 202 mil para 9.000 por ano. Segundo o Índice de Criminalidade do FBI, a criminalidade da região caiu 56,3% entre 1989 e 2000. Agora Hunter é um
defensor entusiasmado das barreiras fronteiriças, quase duas décadas após ter usado a sua cadeira no congresso para fomentar a construção da cerca próxima a Tijuana.

Dependendo da pessoa a quem se pergunta, a experiência de Hunter em San Diego foi um sucesso tremendo -- detendo a ação de contrabandistas e reduzindo a imigração ilegal -- ou um fracasso que somente encorajou os indivíduos que cruzam a fronteira a tentarem a sorte em regiões desérticas
menos protegidas e mais perigosas.

Não obstante, o projeto de Hunter em San Diego pavimentou o caminho para o atual movimento favorável à construção de cercas.

O deputado Mark E. Souder, republicano por Indiana, chama Hunter de "o pai de todas as cercas".

Antes de a Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos ter construído a primeira cerca em San Diego, havia poucas barreiras ao longo da divisa entre Estados Unidos e México. Atualmente a agência supervisiona cerca de 160 quilômetros de cercas ao longo da fronteira, e alguns parlamentares federais querem mais.

Em maio último o Senado votou favoravelmente à construção de uma cerca tripla ao longo de 600 quilômetros de fronteira, nas áreas mais freqüentemente atravessadas por contrabandistas e imigrantes ilegais. Em dezembro do ano passado, a câmara dos deputados aprovou o plano de Hunter no
sentido de erigir novas cercas ao longo de 1.370 quilômetros de fronteira.

O plano de Hunter prevê a construção de cercas em áreas urbanas -- por exemplo, aquela em torno de Laredo, no Texas - e em regiões mais desoladas, tais como a linha fronteiriça de 580 quilômetros no deserto do Arizona.

Essas propostas são parte de amplos projetos de lei de imigração que os parlamentares tentarão conciliar em setembro.

O deputado Dan Lungren, republicano pela Califórnia, afirma que foi a cruzada de Hunter no sentido de construir a cerca de San Diego que catalisou o movimento pela construção de mais barreiras ao longo das fronteiras dos Estados Unidos. "O fato de que tanto os projetos de lei do Senado quanto os da Câmara prevejam a construção de cercas revela que esta é uma posição apoiada pelo povo norte-americano", garante Lungren.

Segundo ele, neste momento ainda não está concluído o debate em torno da suposta funcionalidade da construção de cercas fronteiriças estratégicas. O que terminou foi o debate sobre onde instalá-las ao longo dos aproximadamente 3.200 quilômetros da fronteira entre Estados Unidos e México.

Os oponentes dos muros, incluindo alguns parlamentares democratas e defensores da imigração, alegam que as barreiras são caras e só servem para empurrar os imigrantes ilegais para outras regiões mais desoladas, nas quais eles podem sucumbir à insolação e à desidratação. Ninguém concorda quanto
aos custos previstos, mas estimativas para o plano do Senado para a construção de 600 quilômetros de cercas variam de US$ 1 bilhão a US$ 4 bilhões.

Os críticos das cercas afirmam que os contrabandistas encontrarão outras formas de cruzar a fronteira, seja por túneis sob os muros ou usando maçaricos para abrirem buracos nas cercas.

O senador John Cornyn, republicano pelo Texas, que apóia algumas cercas fronteiriças, gosta de observar que se um muro de três metros for construído, haverá um boom na venda de escadas de três metros.

T.J. Bonner, presidente do Conselho Nacional de Patrulha de Fronteira, o sindicato dos agentes que fazem a patrulha na região fronteiriça, alega que mais gente -- e não mais cercas -- foi o que reduziu as passagens ilegais em San Diego.

Naturalmente, Hunter discorda.

"O setor de San Diego era tão ruim que 25% do contingente da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos estava estacionado lá", diz Hunter. "Desde que construímos a cerca, fomos capazes de deslocar a Patrulha de Fronteira daquele setor. O fato de contar com a cerca permite que o nosso pessoal seja distribuído de forma mais efetiva."

A barreira em San Diego teve início como uma cerca única de arame gradeado que tinha início no Oceano Pacífico e que terminava no posto de fiscalização Otay Mesa, 22,5 quilômetros terra a dentro.

No final da década de 1980, Hunter passou a usar a sua cadeira no Congresso para pressionar por uma grande expansão de tais barreiras.

Por volta de 1993, a Patrulha de Fronteira instalou uma cerca "primária" de três metros, feita de chapas de aço soldado. No final da década de 1990, a barreira foi novamente expandida, de forma que, atualmente, grande parte dela é composta de três camadas de cercas, separadas por duas estradas. E no momento está em andamento uma obra para a conclusão de um trecho de cerca de
4,8 quilômetros que está parado há anos devido a preocupações de ordem ambiental.

Hunter afirma que o projeto de três cercas garante que os agentes da Patrulha de Fronteiras têm tempo de capturar os imigrantes ilegais após estes pularem a primeira cerca, e antes que pulem as outras duas e se misturem à população e ao tráfego locais.

Quando teve início o trabalho de construção da cerca, ela não era muito popular. Alguns moradores de San Diego a receberam bem, como uma forma de reduzir a criminalidade, mas outras reclamaram de que ela seria um fator de poluição visual que não funcionaria e que enviaria uma mensagem ruim ao
México em um momento no qual os Estados Unidos procuravam expandir o comércio com aquele país.

A posição de Hunter fez dele um herói para os conservadores que desejavam reprimir a imigração ilegal -- uma posição bizarra, já que, antes de se eleger para o Congresso, o parlamentar era dono de um mandato em um distrito hispânico de San Diego, e muitas vezes forneceu orientações gratuitas aos clientes pobres.

Mas a posição de Hunter o colocou em atrito com o seu irmão, um físico que chefia um grupo voluntário que instala e abastece reservatórios de água na área desértica próxima à fronteira a fim de ajudar os imigrantes desidratados.

Hunter diz lamentar que a cerca de San Diego tenha empurrado alguns imigrantes para regiões menos habitadas do Arizona e do Novo México, nas quais o clima seco causa a morte de centenas de indivíduos todos os anos. Mas, para Hunter, a resposta a essas preocupações de ordem humanitária não é a derrubada da cerca de San Diego -- e sim a construção de mais barreiras fronteiriças.

"Se você tivesse 400 pessoas morrendo afogadas em um canal, a primeira providência seria cercar esse canal, impedindo que as pessoas tivessem acesso a ele", argumenta Hunter.

Alguns opositores das cercas generalizadas defendem as "cercas virtuais", compostas de câmeras, sensores e de veículos aéreos não tripulados. Mas Hunter também repele tal abordagem.

"Todos nós gostamos de sensores e de câmeras", diz ele. "Mas quando temos um local como uma importante base militar, e não desejamos que pessoas estranhas penetrem nessa base, invariavelmente construímos uma cerca." Danilo Fonseca

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