Os perigos de contar com o carvão para a geração de energia

Paul Grondahl
Albany Times Union

SARATOGA SPRINGS, Nova York - O autor Jeff Goodell pretende carregar uma mala cheia de carvão para as livrarias para o lançamento se seu novo livro, "Big Coal: Dirty Secret Behind America's Future" (Grande carvão: segredo sujo por trás do futuro americano, Houghton Mifflin; 352 páginas; US$ 25,95).

A mala vai conter 10 kg de carvão, que é a quantia que cada americano usa diariamente em média para iluminar uma casa, alimentar um computador, ligar uma televisão e fazer funcionar um forno de microondas.

Em todo o país, os EUA queimam mais de um bilhão de toneladas de carvão por ano. Mais da metade da eletricidade do país vem de usinas de carvão. Mesmo assim, a maioria das pessoas ignora o que está por trás de um simples interruptor e prefere imaginar que a fuligem do carvão foi extinta no século 19, junto com os chapéus e corpetes.

Goodell, em vez disso, esfrega nossos narizes na suja realidade de nosso vício em energia e examina o "império da negação" dos EUA: "Nossa economia branca e brilhosa como um iPod é sustentada por pedras pretas sujas".

Recentemente, em um dia de verão, Goodell estava sentado em uma cadeira de balanço na varanda de sua charmosa casa vitoriana, em Saratoga Springs, com Lulu, mistura de labrador preto com husky, e dois de seus três filhos, Milo, 8, e Grace, 3, correndo em torno da sala. Neste ambiente, mal parece um jornalista denunciador.

Ainda assim "Big Coal" é escrito na tradição de "Silent Spring", de Rachel Carson, e "The Jungle", de Upton Sinclair. Goodell descreve o problema e coloca tantas questões sobre o que a dependência do carvão significa para a saúde pública americana e para nosso meio ambiente quanto fez o livro de Carson para expor os perigos do pesticida DDT e o romance de Sinclair ao expor a insalubre indústria de empacotamento de carne.

Goodell, 46, é de fato um jornalista investigativo acidental.

Apesar de viajar para a China, visitar minas de carvão e usinas elétricas em 10 Estados americanos, viajar em trens de carvão pelas Grandes Planícies e passar um mês em um navio de pesquisa no Atlântico Norte com cientistas estudando mudanças climáticas, Goodell não tem treinamento formal no ramo.

"Para mim, jornalismo é instinto", diz ele. "Acho que o livro-texto atrapalha o que realmente importa para se chegar à verdade de uma história."

Ele nunca estudou jornalismo em sua vida, apesar de ser editor contribuinte da revista Rolling Stone e escrever regularmente para a New York Times Magazine. Goodell tem mestrado em literatura da Universidade de Columbia, mas não pôde discordar do professor que disse que sua ficção era medíocre.

O professor crítico viu, no entanto, um brilho na prosa de Goodell e levou-o a considerar o jornalismo. O conselho, difícil para Goodell engolir na época, provou-se providencial e levou o estudante a entrar para uma carreira inesperada. A mulher do professor estava começando uma nova revista de interesses gerais, 7 Days, na cidade de Nova York, e Goodell foi contratado.

Sua primeira tarefa foi cobrir a história de um policial morto no Queens por um viciado em crack. "Vá brincar de Jimmy Breslin por uma tarde", disse a editora a Goodell. O jovem repórter não teve coragem de admitir que não sabia quem era Jimmy Breslin.

Depois de dois anos na 7 Days, cobrindo desde acidentes de avião até assassinatos, Goodell progrediu com relativa tranqüilidade na carreira, passando pela Rolling Stone, New York Times Magazine e a autoria de livros -- ele publicou dois livros de não-ficção e um livro de memórias, antes de "Big Coal".

Seu desabrochar, no entanto, foi tardio. Como admitiu, foi expulso de cinco faculdades, deixou a famosa Oficina de Escritores de Iowa ("Era um ambiente muito delicado"), trabalhou brevemente na Apple Computer, labutou como mesário em um cassino em Lake Tahoe, foi de carona até o México e não tinha objetivos de carreira.

"Eu estava perdido", disse Goodell, que escreveu sobre sua infância em "Sunnyvale", no Vale do Silício. "Eu queria fazer uma coisa ao estilo de Jack Kerouac; enchi minha Kombi e saí dirigindo."

Apesar de seus fracassos acadêmicos e currículo irregular, ele sabia que tinha jeito com palavras e eventualmente alcançou Nova York, Columbia e a vida de autor. Ele e sua mulher, Michele Owens, redatora de discursos do ex-governador de Nova York Mario Cuomo e do governador de Massachusetts William Weld, que agora trabalha para um cliente corporativo, mudou-se para Cambridge, condado de Washington. Eles moraram em Cambridge por uma década e criaram seus gêmeos de oito anos, Milo e Geórgia, antes de se mudarem para Saratoga Springs, em 2002. Sua filha Grace nasceu no ano seguinte.

A família deixou Cambridge em parte para morar em uma comunidade com um ambiente urbano compacto, onde fosse possível caminhar, em vez do isolamento rural e sua dependência do automóvel. Equilibrar a vida em família e as duas carreiras é um "malabarismo constante", disse Goodell, que viaja regularmente pelo trabalho.

A progressão que levou a "Big Coal" começou com uma encomenda, em 2001, de uma matéria sobre a volta da indústria do carvão na Virgínia Ocidental para a New York Times Magazine. O Estado tinha acabado de romper com sua tradição na política e votar no Partido Republicano, o que deu a margem de vitória para a eleição presidencial de George W. Bush em 2000.

Em 2002, Goodell escreveu "Our Story", um relato sobre nove mineiros de Quecreek que ficaram presos por mais de três dias em uma mina de carvão Pensilvânia.

"Eu não planejei dessa forma, mas cada uma das histórias abriu portas e levou à próxima", disse Goodell, que escreveu "Big Coal" mais por curiosidade jornalística do que como opinião política preconcebida.

Coincidentemente, Jim Kunstler (que também trabalhou para a Rolling Stone) é vizinho de Goodell, bom amigo e colega, autor de um livro que serve de alerta sobre os perigos da produção excessiva de petróleo, "The Long Emergency". Goodell, que fala suave e lentamente, escreve em estilo similarmente tranqüilo, comparado com o tom maníaco de Kunstler.

Goodell prefere deixar os fatos transmitirem a importância do assunto, e as estatísticas que cita sobre as conseqüências do carvão são impressionantes. A poluição do ar das usinas de carvão matou mais de 500 mil americanos nos últimos 20 anos.

A mineração dos morros destruiu centenas de quilômetros de rios e córregos e aniquilou centenas de milhares de hectares de floresta na Virgínia Ocidental e no Appalachia. Usinas movidas a carvão lançam na atmosfera 40% do dióxido de carbono do mundo, principal gás do efeito estufa que leva ao aquecimento global.

Centenas de mineiros morrem por ano de pulmões pretos e a mineração continua sendo um dos trabalhos mais perigosos dos EUA.

"Não sou obcecado com isso, mas escrever esse livro mudou de forma fundamental minha opinião sobre o consumo de energia", disse Goodell. Deborah Weinberg

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