Coréia do Norte possui tecnologia nuclear de ponta graças ao Paquistão

Eric Rosenberg
Em Washington

Enquanto a Coréia do Norte ameaça testar uma bomba nuclear e provocar uma crise internacional, os EUA podem agradecer a um de seus mais próximos aliados na guerra ao terror - o Paquistão - por fornecer a Pyongyang perícia e materiais atômicos cruciais.

Autoridades de inteligência dos EUA dizem que a Coréia do Norte está seguindo uma abordagem de duas vias para a construção da bomba nuclear. Seu foco principal é um artefato de plutônio, o que a Coréia do Norte admite prontamente.

Mas o Paquistão ajudou muito a Coréia do Norte em um segundo caminho mais secreto para a produção de ogivas, através do enriquecimento de urânio, um esforço que as autoridades de inteligência americanas acreditam que Pyongyang começou nos anos 90. A.Q. Khan, o principal cientista nuclear do Paquistão e pai do programa de armas atômicas paquistanês, admitiu em 2004 que foi o principal fornecedor para a Coréia do Norte de know-how e equipamento para enriquecimento de urânio. Khan também admitiu ter vendido segredos nucleares para a Líbia e o Irã.

As ogivas nucleares podem ser feitas de plutônio ou urânio altamente enriquecido, conhecido como U-235. O processo de enriquecimento permite que os cientistas produzam uma concentração de U-235. Existem duas maneiras de fazer isso: através da difusão gasosa ou da centrifugação.

Segundo o Instituto de Energia Nuclear, a difusão gasosa exige que se passe o gás hexafluoreto de urânio por um equipamento que permite que os cientistas selecionem os isótopos de U-235. O processo de enriquecimento por centrifugação que Khan forneceu à Coréia do Norte gira o gás hexafluoreto de urânio usando a força centrífuga para separar os isótopos de U-235.

O relatório divulgado na semana passada pela equipe republicana do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados dos EUA disse que a iniciativa de enriquecimento que teve a ajuda de Khan poderia permitir à Coréia do Norte produzir duas ou mais ogivas nucleares por ano, mas autoridades americanas salientam que é difícil saber o que está acontecendo na Coréia do Norte, devido ao alto nível de confidencialidade do Estado policial.

O programa de enriquecimento de urânio "foi uma descoberta perturbadora, pois forneceu à Coréia do Norte um segundo caminho para produzir combustível nuclear em grau de bomba, e é mais difícil de detectar do que a rota do plutônio", disse o relatório da Câmara.
O documento também disse que a Coréia do Norte talvez já possua sete ou mais bombas nucleares fabricadas com ogivas de plutônio.

A venda por Khan de materiais atômicos foi de grande ajuda para a Coréia do Norte porque garantiu que pelo menos uma via de enriquecimento nuclear pudesse ser escondida dos americanos.

A principal vantagem do enriquecimento de urânio é que é um processo industrial muito mais discreto que a produção de plutônio. As centrífugas têm alta mobilidade, podem ser guardadas em caixas e são facilmente embaladas. Por esses motivos, são mais difíceis de localizar e destruir.

Isto contrasta com a principal instalação de plutônio da Coréia do Norte em Yongbyon, um enorme empreendimento a cerca de 90 quilômetros ao norte de Pyongyang, com um número de funcionários estimado em 2 mil ou mais.

Yongbyon, monitorado de perto por satélites americanos, foi considerado um possível alvo de ataque pelo governo Clinton durante um impasse em 1994 sobre a fabricação de plutônio.

Não está claro que tipo de ogivas Pyongyang está ameaçando explodir, ou se na verdade a nova rodada de ameaças não passa de arrogância para atrair a atenção do mundo.

O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, afirma que seu governo não sabia que Khan estava enviando tecnologia de armas nucleares para a Coréia do Norte e outros países até 2003, quando o então diretor da CIA, George Tenet, lhe mostrou as evidências.

"Foi um momento muito embaraçoso", disse Musharraf recentemente à CBS. Khan "lhes deu projetos de centrífugas. Ele lhes deu peças de centrífugas. Ele lhes deu centrífugas".

Em suas memórias, publicadas no mês passado, o presidente do Paquistão disse que suspeitava desde 1999, quando assumiu o governo em um golpe militar, de que Khan vendia segredos nucleares. "Eu recebi um relatório que sugeria que alguns especialistas nucleares norte-coreanos, disfarçados de engenheiros de mísseis, tinham chegado [ao Paquistão] e estavam recebendo informações secretas" sobre o programa nuclear, escreve Musharraf.

A alegação de ignorância de Musharraf é uma questão polêmica, já que o governo militar do Paquistão é todo-poderoso e Khan era uma figura destacada. Além disso, materiais nucleares foram embarcados ilicitamente em aviões do governo paquistanês, segundo o Departamento de Estado americano.

Husain Haqqani, ex-embaixador paquistanês no Sri Lanka, disse em uma entrevista aos Hearst Newspapers que "teríamos de ampliar os limites da credulidade para acreditar que o governo não estivesse envolvido. É difícil acreditar que o principal cientista do Paquistão pudesse viajar para lugares como a Coréia do Norte sem que o governo soubesse".

Os EUA advertiram a Coréia do Norte sobre as duras conseqüências de ela detonar uma bomba nuclear. "Acreditamos que o principal ponto que a Coréia do Norte deveria compreender é que os EUA e muitos outros membros do Conselho [de Segurança da ONU] acreditam que eles não devem testar esse dispositivo nuclear", disse na semana passada John Bolton, embaixador americano na ONU. "Se eles testarem, será um mundo muito diferente no dia seguinte ao teste."

De maneira semelhante, o Paquistão criticou a Coréia do Norte sobre o teste nuclear, chamando-o de "uma questão de profunda preocupação para o Paquistão", disse o ministro das Relações Exteriores em um comunicado na semana passada.

"Instamos a República Popular Democrática da Coréia do Norte a desistir de lançar armas nucleares na península da Coréia, o que seria altamente desestabilizador para a região", acrescentou o ministro. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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