Após mais de três anos, iraquianos ainda não podem lutar sozinhos

Eric Rosenberg, Hearst Newspapers
Em Washington

O mantra do presidente Bush, "à medida que os iraquianos progredirem, nós recuaremos", tem uma grande falha estrutural: nos últimos dois anos, o número de batalhões iraquianos prontos para combater os rebeldes e milícias sem assistência americana na verdade diminuiu.

Em junho de 2005, o Pentágono afirmou que três batalhões iraquianos de aproximadamente 800 soldados cada estavam prontos para enfrentar o inimigo por conta própria. No último trimestre de 2005, tal número caiu para um batalhão. Em fevereiro de 2006, tal número caiu para nenhuma unidade, e em junho não mais que uma unidade era capaz de lutar sem ajuda americana.

Agora, mais de três anos e meio após a invasão liderada pelos Estados Unidos e milhões gastos no treinamento das forças iraquianas, novamente nenhuma unidade militar iraquiana é capaz de lutar sem assistência americana.

Além disso, um número cada vez menor de unidades policiais iraquianas é capaz de realizar operações policiais básicas.

O reconhecimento ocorreu na semana passada, durante um dia de audiências do general John Abizaid do Exército, o mais alto comandante americano no Oriente Médio, perante legisladores da Câmara e do Senado.

Um total de 91 batalhões de soldados iraquianos são capazes de enfrentar os rebeldes e as milícias com apoio de tropas americanas. Mas os comandantes militares americanos não consideram nenhuma destas unidades capazes de atuar por conta própria.

Há pouco mais de um ano, o general George Casey do Exército, o mais alto comandante americano no Iraque, disse não estar preocupado com o fato de tão poucos batalhões iraquianos serem capazes de lutarem por conta própria contra rebeldes e milícias. Mas ele alertou que se a esta altura o número não tivesse aumentado, ele estaria preocupado.

"O fato é que há apenas uma ou três unidades (independentes), o que não é necessariamente importante para mim no momento", disse Casey aos repórteres em 30 de setembro de 2005. "A esta altura daqui um ano, eu estarei mais preocupado com isto. No momento não estou."

O próximo ano já chegou.

O coronel reformado Thomas Hammes do Corpo de Marines, que administrava
bases e logística para o treinamento das forças iraquianas até 2004, disse que a capacidade de algumas unidades iraquianas está decaindo porque os iraquianos vêem os Estados Unidos como se preparando para retirar suas forças. Como resultado, eles estão se voltando para as milícias em busca de proteção.

"Se acreditarem que estamos partindo, a capacidade das unidades cairá porque eles buscarão outras opções", disse Hammes, um veterano de 30 anos do Corpo de Marines. "Nós estamos enviando um sinal bastante consistente de que estamos partindo."

O envio a campo de unidades iraquianas independentes -aquelas capazes de luta sem a ajuda de poder de fogo, inteligência, logística ou transporte americanos- é um indicador crítico de quando um grande número de forças americanas pode começar a deixar o Iraque. Cerca de 149 mil soldados americanos estão no país.

O presidente Bush disse que as forças americanas transferirão
responsabilidade cada vez maior para os iraquianos "à medida que policiais e soldados iraquianos mais capazes estiverem disponíveis".

Na audiência do Comitê de Serviços Armados do Senado na semana passada, a senadora Susan Collins, republicana do Maine, perguntou a bizaid: "Eu
percebo que a cada dia há batalhões adicionais do exército (iraquiano)
assumindo o comando das operações. Mas há algum capaz de operar sem apoio dos Estados Unidos, sem a presença de consultores a esta altura?"

Abizaid respondeu: "Capazes de operar de forma completamente independente? Não, nós não estamos fazendo isto no momento".

Um fator que contribui para o declínio de unidades independentes é o fato dos Estados Unidos não terem fornecido aos iraquianos equipamento de proteção. Isto por sua vez resulta em soldados mal preparados que não podem lutar sem assistência americana.

"Nós fracassamos em lhes dar equipamento após três anos de treinamento", disse Hammes. "À medida que fica mais violento, nossos rapazes circulam em (jipes) humvees blindados e caminhões blindados. Os iraquianos ainda são transportados em picapes."

Hammes acrescentou: "A ponto de um iraquiano poder dizer: 'Estes caras (os americanos) não são sérios'".

O panorama para a polícia iraquiana não é mais encorajador.

O general Michael Maples do Exército, chefe da Agência de Inteligência da Defesa, disse que a polícia iraquiana e sua liderança no Ministério do Interior "estão altamente infiltradas e as milícias freqüentemente operam sob proteção ou aprovação da polícia iraquiana em ataques contra rebeldes sunitas e civis sunitas".

Durante uma sessão perante o Comitê de Serviços Armados da Câmara na semana passada, Abizaid disse que dos 27 batalhões operacionais da polícia iraquiana, apenas dois são suficientemente capazes de assumir a liderança de operações policiais desde que os americanos forneçam assistência.

"Em outubro, seis deles estiveram no comando. Então é possível ver que não estamos em uma boa direção ali", disse Abizaid.

Como forma de melhorar rapidamente a capacidade das forças iraquianas,
Abizaid está propondo o envio de consultores americanos adicionais para cada unidade iraquiana. Atualmente, há cerca de 10 consultores americanos por batalhão.

Hammes disse que cada batalhão precisa de seis vezes mais consultores
americanos.

"A menos que nossa atuação seja realmente séria e tenhamos algo como equipes de consultores de 60 homens, gastemos o dinheiro necessário em equipamento e deixemos claro para eles que permaneceremos, eles não terão escolha a não ser dar as costas para nós", ele disse. George El Khouri Andolfato

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