Casa Branca reconhece que aumento de tropas no Iraque pode não funcionar

Stewart M. Powell
em Washington

Em uma avaliação desanimadora da política americana no Iraque, o conselheiro de segurança nacional do presidente Bush alertou nesta sexta-feira (2/2) que a coalizão de governo do Iraque em dificuldades poderá não ser capaz de colocar um fim ao derramamento de sangue sectário, mesmo se a dura reação liderada pelos americanos reduzir a violência em Bagdá.

Stephen Hadley deu esta visão pessimista enquanto o governo Bush divulgava quatro páginas de uma Estimativa Nacional de Inteligência (NIE), confidencial, para defender o argumento de que o Iraque depende dos soldados americanos. Na próxima semana, o Senado liderado pelos democratas votará uma resolução simbólica contestando o aumento do número de soldados pedido por Bush.

"Mesmo se reduzirmos a violência, a NIE diz que as forças (iraquianas) serão pressionadas a buscarem a reconciliação e nós concordamos com isto", disse Hadley. "Será difícil e o presidente deixou bem claro que será difícil, e não há garantia de sucesso."

O plano de Bush pede pelo envio de mais 21.500 soldados para se juntarem aos 140 mil soldados americanos já presentes no Iraque. Os primeiros dos 17 mil reforços americanos planejados para Bagdá já chegaram. Outros 4.500 serão enviados para a província de Anbar.

As forças de combate americanas "continuam sendo um elemento estabilizador essencial no Iraque", enfatizou Hadley. "Uma retirada ou recuo americano agora seria uma prescrição para fracasso e caos que envolveria não apenas o Iraque, mas também a região e resultar potencialmente, ao dar à Al Qaeda um refúgio no Iraque, em risco e ameaça aos Estados Unidos."

A resolução bipartidária simbólica perante o Senado diria a Bush que os senadores "discordam do 'plano' para aumentar nossas forças em 21.500 soldados, e pedem para que o presidente considere todas as opções e alternativas".

A medida por acordo foi esboçada pelos senadores Carl Levin, democrata de Michigan, o presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, e John Warner, republicano da Virgínia, o líder da bancada republicana no comitê.

Uma resolução mais dura proposta pelo senador Russ Feingold, democrata de Wisconsin, pede pela retirada dos soldados americanos e ameaça cortar a verba para os reforços.

O senador Harry Reid, democrata de Nevada e líder da maioria no Senado, preparou o terreno para o debate da próxima semana em torno da guerra no Iraque chamando a NIE de "a mais recente de uma longa lista de avaliações desoladoras", mostrando que o plano de Bush no Iraque é "falho e está fracassando".

Reid questionou o "plano equivocado (de Bush) de enviar mais soldados ao Iraque" acrescentando: "Até agora não vi nada no relatório que sugira que o novo plano do presidente é uma estratégia vencedora que protege o interesse nacional da América".

Hadley destacou partes da NIE que indicavam as conseqüências ruins de qualquer "retirada rápida" das forças americanas, incluindo uma possível intervenção no Iraque de países vizinhos, baixas imensas entre civis, um grande número de refugiados e tentativas pela Al Qaeda de usar partes da província de Anbar "para planejar um número maior de ataques dentro e fora do Iraque".

Em um raro reconhecimento público, o conselheiro de segurança nacional da Casa Branca admitiu durante a coletiva de imprensa que o governo Bush tem planos de apoio para lidar com a possibilidade de caos no Iraque. "Como é de se esperar, nós desenvolvemos todo tipo de planos de contingência", disse Hadley, acrescentando: "O melhor plano é fazer com que este plano tenha sucesso".

Hadley disse que o governo Bush espera que o envio de tropas americanas adicionais a Bagdá permitirá ao governo iraquiano retomar o controle da cidade, acabar com a guerra sectária olho por olho e acelerar a reconciliação política entre xiitas, sunitas e curdos.

Os passos necessários incluem o fim da discriminação no trabalho contra ex-membros do Partido Baath de Saddam Hussein e a divisão por igual da riqueza de petróleo do Iraque entre os três maiores grupos étnicos e religiosos do país. Bush está "basicamente dizendo a este governo de unidade, que foi criação dos iraquianos, que chegou a hora de agir", disse Hadley.

A NIE, que representa o consenso das 16 agências de espionagem do país, minimizou o papel que o Irã e a Síria possam estar exercendo no conflito iraquiano. Os países vizinhos estão influenciando os desdobramentos, "mas é improvável que o envolvimento destes atores externos seja uma grande força por trás da violência ou das perspectivas de estabilidade, por causa do caráter auto-sustentável da dinâmica sectária interna do Iraque", disse o relatório.

A avaliação contrasta com as crescentes críticas do governo Bush ao Irã por fornecer bombas mortais aos seus aliados muçulmanos xiitas dentro do Iraque.

A NIE também alertou que uma variedade de chamados "eventos gatilho" como mortes sectárias em massa, assassinatos de importantes líderes políticos e religiosos ou a retirada completa dos árabes sunitas do governo central dominado pelos muçulmanos xiitas poderia provocar uma "convulsão severa" no frágil ambiente de segurança do Iraque.

Se tais eventos provocarem um "aumento abrupto de violência popular e rebelde", o resultado poderá variar de um caos que levaria a uma divisão de fato do Iraque, ao surgimento de um ditador muçulmano xiita ou a uma "fragmentação anárquica do poder", com "um padrão de divisão de controle local" por todo o país, alertou a NIE. George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos