Cheney, o irrelevante

Helen Thomas
em Washington

Às vezes você se pergunta em que planeta o vice-presidente Dick Cheney está vivendo.

No mês passado, falando da guerra no Iraque, Cheney disse para Wolf Blitzer da "CNN" em uma entrevista espinhosa: "Resumindo, nós tivemos enormes sucessos e continuaremos tendo enormes sucessos. É duro. É difícil."

Jason Reed/Reuters 
O vice-presidente Dick Cheney faz avaliações otimistas da atuação do seu país no Iraque

Qualquer um que acompanhe as notícias diárias de Bagdá sabe que poucas pessoas nos últimos meses - especialmente aquelas nas forças armadas - se gabam de grandes sucessos na contenção da violência no Iraque. Mesmo dentro da Casa Branca, Cheney parece um homem perdido em seu próprio mundinho.

Enquanto Cheney faz avaliações otimistas da guerra, o presidente Bush faz avaliações mais pessimistas, reconhecendo que a ocupação militar não está indo tão bem quanto ele esperava. Este é o motivo para estar pedindo mais soldados para fazer uma última tentativa de estabilizar o Iraque, dividido por sua guerra civil.

O vice-presidente está enfiando sua cabeça na areia há algum tempo. Quando chegou ao poder como o segundo líder dos Estados Unidos, ele foi descrito como o primeiro-ministro de Bush.

Após os ataques terroristas do 11 de Setembro, parecia que Cheney estava dirigindo o show, até que assessores de imagem da Casa Branca intervieram para reduzir a percepção de que não era Bush quem estava dando as ordens. Cheney então se tornou mais discreto.

Sua experiência obviamente não melhorou sua visão. Após o fim da primeira Guerra do Golfo Pérsico em março de 1991, Cheney - na época o secretário de Defesa do primeiro governo Bush - foi perguntado pela TV "ABC" por que a Operação Tempestade no Deserto não foi até o fim e removeu Saddam Hussein do poder.

Ele respondeu profeticamente: "Eu acho que envolvermos os militares americanos em uma guerra civil dentro do Iraque seria literalmente um atoleiro. Assim que chegássemos a Bagdá, o que faríamos? Quem colocaríamos no poder? Que tipo de governo? Seria um governo sunita, um governo xiita ou um governo curdo?"

"Ele seria secular, segundo a linha do Partido Baath? Seria fundamentalista islâmico?", ele perguntou. "Eu não acho que os Estados Unidos querem baixas nas forças armadas americanas ou aceitem a responsabilidade de tentar governar o Iraque. Não faz nenhum sentido."

Assim, o que aconteceu com todas estas observações sábias a caminho da invasão americana em 2003?

Bem, aparentemente muitas coisas ocorreram na vida de Cheney que devem tê-lo feito perder a perspectiva formada anteriormente, quando iniciou sua carreira no governo como um obscuro chefe de Gabinete brando para o presidente Gerald Ford.

Antes disso, ele conseguiu evitar a Guerra do Vietnã, que apoiava. Ele explicou ao "Washington Post" os cinco adiamentos de convocação que obteve, em uma entrevista em 1989: "Eu tinha outras prioridades nos anos 60 do que o serviço militar".

Durante seus seis mandatos como congressista por Wyoming, começando em 1979, ele ostentou tanto suas credenciais conservadoras que votou várias vezes contra o "Head Start", o programa federal voltado para crianças pré-escolares pobres.

Ele foi ao Pentágono como secretário de Defesa em 1989. Alguns funcionários que trabalharam estreitamente com ele em seus cargos anteriores dizem que ele mudou. Brent Scowcroft, um ex-conselheiro de segurança nacional, disse que não mais o conhece.

Provavelmente é porque Cheney foi um dos neo-conservadores signatários originais do Projeto para Um Novo Século Americano - um plano publicado em 1997 para os Estados Unidos dominarem politicamente e militarmente o Oriente Médio após a Guerra Fria.

Cheney tem sido o pára-raios para muitos dos males deste governo. Desde o início, ele levantou uma muralha de sigilo ao se recusar a identificar os membros de sua força-tarefa de energia. Ele também é o maior defensor de Bush contornar a lei e da concessão de maior poder ao seu papel de "comandante-em-chefe".

O nome de Cheney apareceu com freqüência no julgamento por perjúrio de seu ex-chefe de gabinete, Lewis "Scooter" Libby, pela exposição da agente Valerie Plame da CIA.

Apesar de seu acesso aos altos segredos do governo, quantas vezes é possível alguém estar errado?

Lembra do ano passado, quando Cheney disse que os rebeldes no Iraque estavam em seus últimos espasmos de resistência? Lembra de quando Cheney sabia onde Saddam Hussein guardava todas aquelas armas nucleares inexistentes?

Não é de estranhar que ninguém mais esteja dando ouvidos a ele. O tempo o desprezou. George El Khouri Andolfato

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