Estados Unidos são diplomáticos quando discutem o poderio militar da China

Eric Rosenberg
De Washington

Autoridades de alto escalão do governo Bush adotam uma estratégia de "beliscar e afagar" quando se trata de discutir o crescente poderio militar da China.

A abordagem consiste em garantir a Pequim que os Estados Unidos não pretendem se constituir em uma ameaça com o seus cada vez maiores orçamentos de defesa e com a enorme força militar norte-americana espalhada pelo mundo, e que chega às portas da China. Ao mesmo tempo, os norte-americanos desejam soar um alarme a respeito do rápido incremento do poderio militar da China.

Essa estratégia foi integralmente exibida na semana passada.

O secretário de Defesa, Robert Gates, se empenhou em sinalizar que os Estados Unidos não vêem a China como uma ameaça, apesar de Pequim ter anunciado recentemente um aumento de 18% nos seus gastos militares, e de ter testado com sucesso, em janeiro passado, uma arma destruidora de satélites.

"Neste momento não vejo a China como um adversário estratégico dos Estados Unidos", disse Gates aos jornalistas. "Em certas áreas, trata-se de um parceiro. Em outras, de um concorrente. Creio que é muito importante que dialoguemos com os chineses sobre todas as facetas do nosso relacionamento como forma de construir uma confiança mútua".

Mas, separadamente, dois almirantes advertiram que o poderio militar chinês, que cresce rapidamente, se constitui em uma grande preocupação para os interesses dos Estados Unidos.

O almirante Michael Mullen, o mais graduado oficial da ativa na marinha - a força que provavelmente arcaria com o maior ônus de qualquer conflito com a China - alerta que a China está aumentando rapidamente o tamanho da sua marinha de guerra e, em particular, a sua capacidade de projetar poder para além da sua costa e de Taiwan, que Pequim considera uma província renegada.

"Eles estão construindo uma grande marinha com bastante capacidade extra", disse Mullen aos repórteres. "Para mim, isso vai muito além de apenas se prepararem para um problema com Taiwan, caso algo saia errado no relacionamento com Taiwan".

O almirante William Fallon, comandante das forças norte-americanas no Pacífico que está deixando o cargo, advertiu o Congresso que a incipiente capacidade da China de destruir satélites "é nitidamente formulada para conter as nossas capacidades", referindo-se à confiança que as forças armadas dos Estados Unidos depositam nos satélites norte-americanos.

Fallon está deixando o seu atual posto para se tornar o principal comandante das forças norte-americanas no Oriente Médio.

Mike McConnell, o mais graduado oficial de inteligência dos Estados Unidos, alertou um painel parlamentar no mês passado para a modernização militar chinesa, que teve início nove anos atrás, e que progride em "ritmo acelerado".

"Os chineses estão desenvolvendo sistemas de ataque convencional de longo alcance de maior capacidade e mísseis balísticos de curto e médio alcances dotados de ogivas que podem ser guiadas nos estágios finais de um ataque e que são capazes de atingir porta-aviões e bases aéreas dos Estados Unidos", declarou McConnell.

Embora Estados Unidos e China sejam grandes parceiros comerciais, os dois países mantém "um relacionamento complexo", conforme admitiu o presidente Bush. Esse relacionamento é caracterizado por atritos ocasionais que por vezes chegam à beira de um conflito militar direto.

Em 1996, por exemplo, enquanto Taiwan se preparava para realizar eleições presidenciais, a China testou 25 mísseis sem ogivas explosivas a 40 quilômetros da ilha. Os Estados Unidos responderam enviando dois porta-aviões ao Estreito de Taiwan, o canal apertado que separa Taiwan da China, em uma demonstração maciça de força e de solidariedade para com a ilha.

Em 2001, um avião de caça chinês colidiu com uma aeronave de espionagem EP-3, da Marinha dos Estados Unidos, em espaço aéreo internacional, obrigando o aparelho norte-americano a fazer uma aterrissagem de emergência em um aeroporto chinês. O piloto chinês morreu e a tripulação norte-americana ficou detida durante 11 dias, criando um impasse tenso, no estilo da Guerra Fria.

Parte do complexo relacionamento entre Estados Unidos e China é a rede de laços econômicos entre as duas nações. A China é um dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos e no ano passado registrou um superávit comercial recorde com Washington de US$ 232,5 bilhões. Ao mesmo tempo, a China é dona de uma grande parcela da dívida dos Estados Unidos - US$ 350 bilhões em títulos do governo norte-americano, ou 15% do total de títulos do governo dos Estados Unidos em mãos de países estrangeiros.

Washington também precisa da cooperação de Pequim para combater o terrorismo, resolver os impasses nucleares com a Coréia do Norte e o Irã e solucionar as questões referentes ao comércio internacional.

A China conta com a capacidade de aumentar rapidamente o poderio das suas forças armadas devido ao seu recente crescimento econômico de dois dígitos. Segundo a Agência de Inteligência de Defesa do Pentágono, a China está gastando anualmente entre US$ 70 bilhões e US$ 100 bilhões com as suas forças armadas.

Entretanto, os gastos militares chineses ficam bem aquém daqueles dos Estados Unidos. Caso o Congresso aprove o orçamento de defesa proposto por Bush no mês passado, os Estados Unidos gastarão mais com a defesa nacional do que todos os outros países combinados.

O orçamento inclui US$ 481,4 bilhões para aquisição de armamentos e treinamento de tropas - um aumento de 11,3% em relação a este ano - e US$ 141,7 bilhões para financiar as operações militares dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Levando-se em conta também os programas de segurança nacional do Departamento de Energia, o total solicitado chega a cerca de US$ 640 bilhões para o ano fiscal que terá início em 1º de outubro.

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos