Plame nega ter enviado seu marido para Níger

Dan Duray
em Washington

A ex-agente secreta da CIA, Valerie Plame, negou veementemente nesta sexta-feira (16/3) ter tido qualquer envolvimento na decisão do envio de seu marido, o ex-embaixador Joe Wilson, para Níger em 2002 para investigar a possível venda de urânio "yellow cake" (bolo amarelo) para o Iraque.

EFE 
Valeri Plame disse que a revelação de sua identidade de agente teve motivação política

Pela primeira vez desde que o colunista conservador Robert Novak, trabalhando com membros do governo Bush, a expôs como agente da CIA há quatro anos, Plame falou sobre as acusações do governo de que ela enviou seu marido em uma "excursão".

"Eu não o indiquei. Eu não o sugeri. Não houve nepotismo envolvido. Eu não tinha autoridade", disse Plame em uma audiência do Comitê da Câmara para Supervisão e Reforma do Governo.

Com base no que descobriu durante sua viagem para Níger, Wilson refutou a alegação pré-guerra do presidente, feita no discurso do Estado da União, de que o Iraque buscou comprar urânio na África.

As críticas de Wilson levaram a Casa Branca a tentar desacreditá-lo, sugerindo aos repórteres que sua esposa tinha arranjado a viagem.

Plame disse aos legisladores antes da invasão dos Estados Unidos ao Iraque, em 2003, que estava discutindo a possível compra de urânio com um colega da Divisão de Contraproliferação da CIA quando outro diretor ouviu a conversa e sugeriu que Wilson fosse a Níger para investigar.

Ela disse ter hesitado em envolver seu marido, mas seu supervisor requisitou que Plame pedisse a Wilson, um ex-embaixador com contatos na região e liberação de segurança, para que viesse ao quartel-general da CIA em Langley, Virgínia, para discutir a investigação da possível venda.

Fora transmitir o convite a Wilson, Plame disse que não teve qualquer outro envolvimento na viagem resultante de seu marido. O suposto envolvimento de Plame no envio de Wilson a Níger há muito é fonte de controvérsia em Washington.

Apesar de Wilson não ter encontrado evidência de uma venda de urânio ao Iraque, o presidente Bush ainda assim fez referência a ela em seu discurso do Estado da União de 2003, levando Wilson a refutar o presidente em um artigo de opinião no "The New York Times", em 6 de julho de 2003.

Documentos judiciais do caso do ex-chefe de gabinete do vice-presidente Dick Cheney, I. Lewis "Scooter" Libby, revelaram que Cheney, que sabia que Plame era uma agente da CIA, escreveu "foi a esposa dele que o enviou em uma excursão?" na margem do artigo do Wilson.

Há duas semanas, Libby foi condenado por perjúrio, obstrução da Justiça e de fazer declarações falsas a investigadores federais sobre seu papel do vazamento da identidade de Plame.

A condenação levou o presidente do comitê, o deputado Henry Waxman, democrata da Califórnia, a convidar Plame para uma audiência para que contasse seu lado da história. Repórteres, fotógrafos e outros lotaram a sala do comitê para testemunhar o drama de Plame rompendo seu silêncio.

Plame disse que a revelação teve motivação política e disse ao comitê que ela sentiu que tinha sido "atingida no estômago" quando leu a coluna de Novak a expondo, que foi publicada em 14 de julho de 2003, uma semana após a publicação do artigo de opinião de seu marido.

Novak e outros declararam que apesar de Plame trabalhar na CIA de forma secreta, sua identidade estava longe de sê-lo nos altos escalões do governo. Mas Plame testemunhou que podia contar o número de pessoas que sabiam em uma mão, dizendo que sua identidade "não era de conhecimento geral no circuito de coquetéis de Georgetown", se referindo ao bairro de Washington.

"Eu estou profundamente preocupada com a politização de nosso processo de inteligência", ela disse, dizendo que o vazamento "colocou em risco e até mesmo destruiu" múltiplas redes de contatos de inteligência da CIA.

"Se nosso governo não foi capaz nem de proteger minha identidade, futuros agentes estrangeiros que poderiam considerar a possibilidade de trabalhar para a Agência Central de Inteligência e fornecer a inteligência necessária pensarão duas vezes", disse Plame.

A maioria dos membros do comitê expressou seu ultraje com o vazamento. O deputado Paul Sarbanes, democrata de Maryland, disse que o testemunho de Plame mostrou um lado sinistro da Casa Branca de Bush. "Ele pinta um quadro de um governo de valentões, em minha opinião", disse Sarbanes. "Qualquer meio pode ser justificado e as pessoas podem ser simplesmente empurradas para fora do caminho." George El Khouri Andolfato

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