EUA acusam Irã de envolvimento no conflito no Iraque

Stewart M. Powell
Em Washington

Com crescente freqüência, as autoridades americanas estão acusando o Irã de interferência no Iraque.

O mais recente capítulo na escalada retórica ocorreu na semana passada, quando o general Raymond Odierno do Exército disse que as forças americanas descobriram mais de 120 bombas de estrada de fabricação iraniana, capazes de perfurar blindagem, que são usadas para matar soldados americanos no Iraque.

Odierno disse que as forças americanas encontraram novos esconderijos de armas de fabricação iraniana, bombas de estrada iranianas sofisticadas, comandos da Guarda Revolucionária Iraniana, treinamento estilo iraniano para milicianos xiitas iraquianos e suspeita de ajuda iraniana para os extremistas muçulmanos sunitas para ajudar a "criar caos no Iraque".

Mas o general Odierno, repetindo a cautela manifestada pelo governo Bush, se recusou a implicar diretamente o governo iraniano.

A recusa pelo general de três estrelas e outros funcionários do governo de associar estas ações ao governo iraniano dá tempo à Casa Branca e espaço para manobra para decidir se investe ou não contra o Irã.

Mas o aumento das críticas do governo ao Irã também corre o risco de aumentar a pressão pública para que a Casa Branca faça algo sobre as atividades iranianas no Iraque.

Qualquer repressão liderada pelos Estados Unidos contra o Irã enfrentaria obstáculos ainda maiores do que a invasão liderada pelos Estados Unidos ao Iraque, em 2003, quando 200 mil soldados americanos e britânicos apoiados por poder aéreo esmagador superaram cerca de 400 mil soldados iraquianos que tentavam defender um país de 25 milhões de habitantes.

O Irã, um país de quase 68 milhões, conta com forças armadas totalizando pelo menos 863 mil soldados, entre os do serviço ativo e reservistas, e uma força área de cerca de 255 aviões de guerra.

Ao ser perguntado em uma coletiva de imprensa no Pentágono, na sexta-feira, sobre se tinha evidência direta de que o governo iraniano ou líderes da Guarda Revolucionária Iraniana tinham ordenado intervenções no Iraque, Odierno deu algum esclarecimento.

"Eu apenas diria por ora -eu só estou disposto a dizer que está claro que a Força Qods (comandos da Guarda Revolucionária Iraniana) está envolvida no que está acontecendo aqui, fornecendo treinamento, dinheiro e armas", disse Odierno. "Nós ainda estamos trabalhando outros aspectos disto, mas não estou disposto a fazer comentários neste sentido."

A cautela de Odierno foi semelhante a do presidente Bush, que disse em uma coletiva de imprensa em 14 de fevereiro que, apesar de poder "dizer com certeza" que a Guarda Revolucionária Iraniana forneceu bombas de estrada sofisticadas "que atingiram nossas tropas, eu não sei se a força (a Guarda Revolucionária Iraniana) foi ordenada pelos altos escalões do governo".

Na coletiva de imprensa de Odierno no Pentágono, realizada por meio de um link de vídeo de Bagdá, ele disse que as forças americanas descobriram nas duas últimas semanas morteiros de 60 milímetros, granadas propelidas por foguete, granadas de mão, explosivo C4 e foguetes de 170 milímetros de fabricação iraniana, além de mais de 120 bombas de estrada que formam projéteis capazes de perfurar os tanques americanos.

As bombas de estrada de fabricação iraniana mataram pelo menos 170 soldados americanos e iraquianos ao longo dos últimos três anos e feriram pelo menos 620 outros soldados da coalizão, segundo as forças armadas americanas.

Os comentários de Odierno foram os mais recentes em uma séria de acusações feitas por autoridades americanas de que o Irã está aprofundando a intervenção militar no Iraque, apoiando grupos como as milícias muçulmanas xiitas.

O general William Caldwell IV do Exército disse em uma coletiva de imprensa em Bagdá, na quarta-feira, que os detidos no Iraque disseram pela primeira vez aos interrogadores americanos que agentes da inteligência iraniana estavam cruzando as linhas sectárias para fornecer apoio aos rebeldes muçulmanos sunitas no Iraque.

"A morte e violência no Iraque já são ruins o suficiente sem esta interferência externa", disse Caldwell. "O Irã e todos os vizinhos do Iraque realmente precisam respeitar a soberania do Iraque e dar ao povo deste país tempo e espaço para decidirem seu próprio futuro."

Oficiais militares americanos em Bagdá têm expandido constantemente as descrições da intervenção iraniana no Iraque nos últimos quatro meses:

  • 5 de fevereiro: Ao ser perguntado sobre a "interferência iraniana", Caldwell disse que "eu lhe direi que há realmente uma diferença no momento entre o que sabemos e o que estamos dispostos a discutir".

  • 11 de fevereiro: Três altos oficiais militares americanos, falando sob a condição de anonimato, disseram aos repórteres em Bagdá que bombas de estrada capazes de perfurar blindagem, enviadas pelo Irã aos combatentes muçulmanos xiitas no Iraque, mataram pelo menos 170 soldados americanos e iraquianos desde meados de 2004. Um analista de defesa associou as ações aos altos escalões do governo iraniano -uma associação posteriormente minimizada pelos oficiais militares americanos.

  • 14 de fevereiro: Caldwell, citando "evidência física de munições iranianas", disse ao Irã, em comentários feitos em uma coletiva de imprensa em Bagdá, que "vocês precisam parar" de fabricar e infiltrar componentes para bombas de estrada capazes de perfurar blindagem.

  • 11 de abril: Caldwell alega a existência de treinamento iraniano para os combatentes muçulmanos xiitas iraquianos montarem e instalarem bombas de estrada, realizarem operações de tocaia, lançarem foguetes de fabricação iraniana e conduzirem ataques complexos a pequenas unidades com explosivos de estrada e armas de fogo pequenas.

    Além disso, as forças americanas têm "alguma inteligência recente informando que de fato nos diz que agentes da inteligência iraniana forneceram algum apoio a alguns grupos extremistas sunitas", disse Caldwell, acrescentando: "E é tudo o que temos a dizer a respeito por ora". Tradução: George El Khouri Andolfato
  • Veja também

    UOL Cursos Online

    Todos os cursos