A Guerra Fria voltou?

Helen Thomas
Em Washington

O presidente Bush disse que a Guerra Fria acabou, mas sua mais recente ação militar e a reação do presidente da Rússia, Vladimir Putin, me fazem duvidar.

Apesar de suas palavras tranqüilizadoras, Bush provocou uma quente discussão retórica ao seguir em frente com seu plano para instalar um sistema de defesa antimísseis na República Tcheca e na Polônia, uma região que a Rússia há muito considera dentro de sua esfera de influência.

Putin, em uma entrevista divulgada pelo Kremlin, fez esta avaliação do plano americano: "Se parte do potencial nuclear estratégico dos Estados Unidos se encontra na Europa -e segundo nossos especialistas militares, nos ameaça- então nós teremos que adotar medidas retaliativas".

Ao ser perguntado quais seriam estas medidas, Putin respondeu: "É claro, nós teríamos que ter novos alvos na Europa".

Na terça-feira (5/6), Bush criticou Putin pelo recuo na democratização na Rússia. As reformas que foram prometidas para dar mais poder aos russos "descarrilaram, com implicações perturbadoras para o desenvolvimento democrático", declarou ele.

Mas, na quarta-feira, Bush pareceu disposto a abrandar a discussão retórica às vésperas de seu encontro com Putin em Heiligendamm, Alemanha. "A Rússia não vai atacar a Europa", Bush disse aos repórteres. "A Rússia não é uma inimiga (...) Nós não estamos em guerra com a Rússia."

Funcionários do governo disseram que Bush sente que o escudo antimísseis é necessário para a defesa contra regimes inamistosos como o Irã e a Coréia do Norte. Mas Putin questiona por que os sistemas antimísseis precisam ser instalados na Europa Oriental. Os tchecos também não estão muito entusiasmados em tê-los em seu solo e alguns aliados americanos consideram o projeto como provocativo demais.

Enquanto isso, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, tem dado sermão em líderes mundiais como Putin e Mohamed ElBaradei, o diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica. Rice até mesmo cometeu recentemente o deslize de dizer "soviéticos" em vez de russos.

Bush, empregando sua diplomacia pessoal, convidou Putin para passar alguns dias na casa de verão da família em Kennebunkport, Maine, no próximo mês, para que os dois líderes pudessem falar sobre as desgastadas relações entre americanos e russos em um ambiente mais à vontade.

Além de arranhar o relacionamento entre Estados Unidos e Rússia, o governo Bush desenvolveu um novo racha com o inspetor nuclear chefe da ONU em torno de um possível ataque militar contra o Irã.

Em uma coletiva de imprensa em Madri na última sexta-feira, Rice criticou ElBaradei por ter alertado em uma entrevista à "BBC" contra o que chamou de "novos loucos" no governo Bush, que dizem "vamos bombardear o Irã".

Os comentários de ElBaradei ocorreram em meio aos relatos de que o vice-presidente Dick Cheney é a favor de um confronto militar com o Irã como forma de fechar o programa de enriquecimento nuclear do país.

Não há loucos no governo Bush, disse Rice.

"O presidente dos Estados Unidos deixou claro que estamos em um caminho diplomático", disse Rice. "Tal política é apoiada por todos os membros do Gabinete - e pelo vice-presidente dos Estados Unidos."

Enquanto isso, os Estados Unidos está aumentando sua hostilidade para com o Irã com uma diplomacia coerciva à moda antiga, reunindo vários navios de guerra no Estreito de Hormuz, bem no quintal do Irã.

Com seu prazo na Casa Branca se esgotando, o presidente deveria estar pensando em formas de sair do Iraque em vez de reacender uma antiga rixa com a Rússia e ameaçar o Irã. George El Khouri Andolfato

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