O mito do consenso político norte-americano

Gary Andres

Em Washington, D.C. (EUA)

  • Doug Mills/The New York Times

    Presidente norte-americano Barack Obama defende reforma da saúde em discurso em Strongsville, Ohio (EUA), em 15 de março. Projeto causou violenta polêmica em todo o país

    Presidente norte-americano Barack Obama defende reforma da saúde em discurso em Strongsville, Ohio (EUA), em 15 de março. Projeto causou violenta polêmica em todo o país

Os eleitores elegeram Barack Obama – pelo menos em parte – com base em um mito norte-americano. Dezessete meses depois, a mesma alegoria está resultando em uma série de consequências para políticos individuais, bem como para a maneira como os cidadãos veem instituições políticas como o Congresso dos Estados Unidos.

O mito diz respeito ao nível de consenso político nos Estados Unidos. Esse nível é bem menor do que muita gente acredita.

As pesquisas de opinião podem indicar níveis altos de concordância quanto a aspirações genéricas como paz, prosperidade, ou até mesmo um melhor sistema educacional. Mas quando se trata de passos específicos para alcançar essas metas, as coisas começam a não funcionar satisfatoriamente.

Como candidato na campanha de 2008, Obama usou o mito em benefício próprio. Ele afirmou que os norte-americanos desejavam mudança. Ele disse que os estadunidenses desejavam um fim das querelas políticas do passado. E ele ofereceu uma terra prometida política. Tudo o que os norte-americanos precisavam era de uma pessoa inteligente e repleta de entusiasmo público para nos conduzir até lá. Barack Obama apresentou-se como sendo essa pessoa e, pelo menos no contexto da corrida pela Casa Branca, a estratégia funcionou.

Muito antes de a campanha de Obama apelar para esse mito, os cientistas políticos John R. Hibbin e Elizabeth Theiss-Morse identificaram essa falta de consenso a respeito das especificidades da política pública como sendo uma força poderosa na política norte-americana. No seu livro de 2002, "Stealth Democracy: Americans' Beliefs About How Government Should Work" ("Democracia Oculta: As Crenças Norte-Americanas a Respeito de como o Governo Deveria Funcionar"), os autores argumentam que a maioria das pessoa não entende integralmente o nível de conflito e discórdia inerente à sociedade norte-americana.

Os debates congressuais refletem frequentemente diferenças profundas à medida que a política desloca-se da retórica de campanha para o processo de elaboração de leis. Por exemplo, maiorias substanciais de norte-americanos afirmam ter apoiado "a reforma do sistema de saúde". No entanto, elaborar os detalhes específicos dessa reforma tornou-se uma história bem diferente.

O mesmo ocorre quanto ao estímulo à economia. Todos são favoráveis a isso, certo? Mas quando o congresso discutiu a legislação de estímulo econômico no ano passado, a coisa descambou para um circo partidário, no qual todos os democratas apoiavam a sua versão do pacote de estímulo e os republicanos promoviam ideias completamente diferentes.

Toda a discórdia gerada durante aqueles e outros debates simplesmente afugentou as pessoas porque elas acreditam que o consenso não deve ser algo difícil de se obter. Hibbing e Theiss-Morse escrevem: "As pessoas não gostam do conflito político porque elas pensam que resolver esses conflitos é muito fácil, mas na realidade isso é muito difícil".

Termos como "pós-partidarismo" e "mudança" soam muito bem durante a campanha, mas essas palavras também subestimam as diferenças reais que existem na sociedade norte-americana.

O deputado Bart Stupak, democrata pelo Estado de Michigan, é o garoto propaganda das duas teses acadêmicas. Após ter desempenhando um papel central na aprovação da proposta para a reforma do sistema de saúde, ele anunciou abruptamente a sua aposentadoria na semana passada. Stupak achou que poderia contornar algumas das profundas discórdias quanto a questões como o papel do governo no sistema de saúde e o fornecimento de verbas para abortos. Mas, em vez disso, ele viu-se em um redemoinho de conflitos antigos.

Stupak disse que a aprovação da legislação de reforma do sistema de saúde fez com que fosse cumprida uma promessa feita por ele quase duas décadas atrás. "Estou orgulhoso por ter ajudado a conduzir esta proposta até a linha de chegada", disse ele, segundo o jornal "The New York Times".

Quando disse "ter ajudado" ele está sendo modesto. A proposta provavelmente teria fracassado sem o compromisso assumido por Stupak quanto à questão do aborto.

Mas as profundas divisões políticas no país em torno da legislação do serviço de saúde, de forma geral, e da questão do aborto, de forma específica, expuseram os conflitos que emergem nos Estados Unidos quando a política desloca-se de metas amplas como "reforma" para legislações mais detalhadas.

Stupak aprendeu diretamente que a tentativa de chegar a acordos pode ficar muito parecida com a venda dos princípios pessoais. Ele descobriu que o sonho de Obama de um pós-partidarismo não funcionou no mundo real. Ele apenas revelou as diferenças profundas entre os eleitores no seu distrito – discórdias que contribuíram para a sua decisão de se aposentar.

O Congresso, como instituição, também teve a reputação maculada, à medida que os eleitores percebiam que a "Kumbaya" de Obama não era transferida para o processo legislativo. A análise do índice líquido de aprovação e desaprovação do Congresso em pesquisas é a única forma de quantificar a mudança da imagem do parlamento entre os cidadãos no ano passado. Por exemplo, o índice líquido de desaprovação médio do Congresso mais do que dobrou, passando de -25 pontos (58% desaprovaram/33% aprovaram) para -57 pontos, segundo a média da Real Clear Politics de todas as pesquisas de opinião pública que avaliaram o apoio popular ao Congresso de abril de 2009 a abril de 2010. A forma como o Congresso abordou questões como a legislação de estímulo econômico, o comércio internacional de emissões e o sistema de saúde fez com que surgissem profundas divisões entre o eleitorado. Os conflitos partidários gerados por essas questões provocaram a queda dos índices de aprovação do Congresso nos últimos 12 meses.

Parlamentares como Bart Stupak e o Congresso como instituição arcam com as consequências do fato de Obama ter minimizado as diferenças reais e gerado falsas esperanças de que ele seria capaz de superar essa diversidade.

O mito do consenso em políticas públicas explica por que tantos norte-americanos odeiam política. Eles simplesmente não entendem por que o Congresso e o presidente não são capazes de encontrar um denominador comum. A resposta é que o consenso não existe. Obama pouco fez para ajudar o país a entender essas diferenças. Em vez disso, ele perpetuou o mito. Como resultado disso, os seus índices de aprovação, bem como aqueles do Congresso, estão agora sofrendo.

Tradutor: UOL

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