Como parar o vazamento de petróleo

Llewellyn King

Washington (EUA)

  • Charlie Riedel/AP

    Ao todo, mais de 600 espécies animais estão ameaçadas no golfo do México, incluindo o pelicano-marrom

    Ao todo, mais de 600 espécies animais estão ameaçadas no golfo do México, incluindo o pelicano-marrom

Steven Chu, o secretário encarregado pelo Departamento de Energia, precisa do historiador da agência ao telefone. Então precisa falar com os diretores dos três principais laboratórios de armas do país: Los Alamos, Sandia e Lawrence Livermore.
Uma chamada paralela precisaria ser feita ao escritório do Departamento de Energia na Área de Teste de Nevada.
Se ele tivesse feito essas chamadas, Chu, um físico, poderia ter sido menos rápido em rejeitar a opção nuclear para conter a hemorragia de petróleo no Golfo do México. Nós não sabemos por que a ideia de uma intervenção nuclear foi rejeitada terminantemente. Foi uma decisão de Chu ou da Casa Branca de que não haveria uma detonação nuclear no golfo? Meu palpite é de que a decisão foi da Casa Branca.

Apesar dos soviéticos alegarem ter utilizado uma explosão nuclear para conter um poço de gás fora de controle que queimou por três anos, a verdadeira perita na utilização de detonações nucleares para fins de engenharia civil reside no Departamento de Energia.


De 1958-1973, a Comissão de Energia Atômica –posteriormente absorvida pelo Departamento de Energia– tinha um programa ativo de engenharia civil chamado Operação Plowshare (Relha).
Inicialmente a Operação Plowshare (cujo nome vem da tradição bíblica de bater espadas contra os arados e lanças contra podadeiras) contava com algumas ideias bastante radicais, como o uso de explosões nucleares controladas para reduzir montanhas. Outras incluíam o alargamento do Canal do Panamá, a construção de um novo canal na América Central, passando pela Nicarágua, e abrir uma nova baía no Alasca. Finalmente, a meta do projeto foi reduzida a estimular a produção de gás natural.

Ao todo ocorreram 27 detonações, a maioria delas na área de teste nuclear em Nevada; mas ocorreram duas no Colorado e duas no Novo México. Cada teste teve seu próprio nome e o tamanho da carga variava de 105 quilotons (codinome Flask) a 0,37 quilotom (codinome Templar).

O último e mais ambicioso teste, que ocorreu nos arredores de Rifle, Colorado, e cujo codinome era Rio Blanco, consistiu de três detonações ligadas de 33 quilotons cada. A técnica espelhava a detonação convencional com cargas sequenciais. A ideia era que o gás seria levado de uma cavidade a outra, o concentrando para extração na última cavidade.
A contaminação radioativa do gás condenou toda a ideia. Mas as detonações em si funcionaram.
Muito se sabe, em algum lugar nos arquivos do Departamento de Energia e seus laboratórios, a respeito de como detonar com segurança no subsolo e o que acontece quando isso é feito.

Três coisas acontecem após uma detonação: uma área se torna vitrificada, uma área muito maior é reduzida a escombros e há uma cavidade na qual grande parte dos escombros cai. Soa como aquilo que se deseja no Golfo do México, não é?
Na época da Operação Plowshare, grande parte dos dados era confidencial. De lá para cá muito se tornou disponível para um mundo apático.

Causadas por uma mistura complexa de culpa pela criação de armas nucleares e entusiasmo real pela ciência, não há dúvida de que muitas tolices foram realizadas nos primórdios da experimentação nuclear civil. Mas isso não significa que os dispositivos não funcionaram ou que a ciência era deficiente. Ou que não possa ser utilizada para melhores propósitos atualmente.

O presidente Obama e a BP disseram que as melhores mentes estão trabalhando em soluções de engenharia para o desastre no Golfo. Logo, parece estranho que aquela realmente de alta tecnologia tenha recebido tão pouca atenção.

Eu cobri os últimos três anos da Operação Plowshare como jornalista, e nunca ouvi um sussurro a respeito de que qualquer uma das 27 detonações tenha falhado. Foi a missão que foi colocada em dúvida.

Quanto aos efeitos persistentes, o governo emitiu licenças de exploração de gás natural a cinco quilômetros de alguns experimentos e, em um caso, a 1,5 quilômetro de onde uma detonação nuclear ocorreu anos atrás. Aparentemente, não há nada com que se preocupar.

A memória institucional é algo terrível de se desperdiçar.
 

 

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