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21/01/2005

China funde interesses comerciais e nucleares

International Herald Tribune
Richard Bernstein
Em Berlim
A próxima grande diferença estratégica entre a Europa e os EUA não será em relação ao Irã ou ao Oriente Médio, nem mesmo a questão mais ampla do unilateralismo contra o multilateralismo. Vai ser sobre a China. Na opinião européia, é uma "parceira estratégica". Para os EUA, a questão é diferente.

Dois eventos nos últimos dias ilustram a divisão da Europa e dos Estados Unidos nessa questão. Primeiro foi a decisão do governo chinês de ignorar a morte de Zhao Ziyang, antigo diretor do partido e primeiro-ministro, que caiu em desgraça em 1989, quando se opôs ao uso de força militar para reprimir as manifestações dos estudantes pela democracia e permaneceu sob prisão domiciliar até sua morte, nesta semana.

O segundo evento foi a decisão dos EUA de penalizar oito empresas chinesas, inclusive algumas das maiores fabricantes militares, por fornecerem tecnologia de mísseis ao Irã.

A desmoralização de Zhao mostra que, em questões sensíveis ao prestígio e à autoridade do Partido Comunista, a China, ao contrário da crença disseminada no Ocidente, ainda é uma ditadura comunista, um país cujos líderes, como Orwell diria, algumas vezes requerem que a verdade seja considerada mentira, e a mentira, verdade.

O que restou da natureza orwelliana do governo chinês tende a ter mais peso na política americana em relação à China do que na política européia. A transferência de armas para o Irã, um problema mais prático, ilustra a ampliação da divisão no Atlântico do pensamento estratégico para a China, com a Europa menos inclinada do que os EUA a impor restrições ao país.

Essa diferença fica clara na maior questão de discordância transatlântica: o consenso que está surgindo na Europa de que o embargo de armas que a União Européia mantém contra a China desde 1989 tornou-se um anacronismo, e que, provavelmente será suspenso antes do final do ano.

De fato, quem pode discordar inteiramente de tal decisão? Passaram-se quase 16 anos desde Tiananmen. No caso de Zhao, os líderes da China podem ter se equiparado à antiga gangue que mandou reprimir os manifestantes na Praça da Paz Celestial, mas os instigadores do ataque, como Deng Xiaoping e Li Peng, já saíram da cena política. A China, em geral, não mostra sinais de ter um papel agressivo nos assuntos globais.

Além disso, diplomatas europeus argumentam que a suspensão do embargo de armas não seria seguida por vendas de fato. A medida, dizem, será apenas simbólica. A União Européia, sensível às preocupações americanas, reforçaria o chamado Código de Conduta em relação à venda de armas, o que limitaria severamente os tipos de tecnologia militar que a China poderia de fato adquirir.

"China e Israel são os dois países que já concordaram em participar do Galileo", disse Cristina Gallach, porta-voz do diretor de política externa da EU, Javier Solana. Galileo é o sistema proposto pela EU para competir com o sistema de navegação por satélite americano, o Global Positioning System. "Isso não combina com o embargo de armas. Há total incongruência, e os chineses, em particular, querem removê-la", disse Gallach.

Será que isso poderia levar a um conflito com os EUA, o país que enfrentaria a China militarmente, se viesse a entrar em guerra com o Taiwan? "Vemos os chineses como parceiros estratégicos", disse Gallach. "Alguns americanos podem ser tentados a ver a China como competidora, no longo prazo, então temos que começar a analisar a situação de uma maneira sóbria, e tentar trabalhar junto com os americanos."

(O que a Europa diz que fará em relação às preocupações americanas será, acabar com o embargo, mas não vender armas à China, ou ao menos reforçar o Código de Conduta que cobre a venda de armas em geral, para que eventuais vendas não aumentem a capacidade ofensiva da China.)

Muitos especialistas em China nos EUA, alguns no governo Bush, acham que o Código de Conduta reforçado seria uma boa forma de resolver a questão. Mesmo assim, do ponto de vista americano, ainda resta algo preocupante sobre uma "parceria estratégica" entre a China e a Europa.

David Shambaugh, especialista em China na Universidade George Washington, escreveu em uma edição recente da "Current History" que a China e a União Européia constituem, "um eixo emergente nos assuntos mundiais", um dos pontos comuns é "uma convergência de opiniões sobre os EUA, sua política externa e seu comportamento mundial".

Em outras palavras, China e UE concordam que os EUA devem ser controlados. Parceiros estratégicos de fato. Mas há um paradoxo aqui --talvez difícil de acreditar depois da guerra no Iraque-- mas verdadeiro assim mesmo: é mais fácil para os países que não são superpoderes e não têm interesses estratégicos globais agirem sem restrições do que para o único superpoder.

Até certo ponto, isso tem a ver com o peso de um gesto. É aí que entram em jogo as instruções do governo chinês a sua imprensa, de ignorar a morte de Zhao. Um superpoder nem sempre faz o que quer, mas suas palavras, gestos e políticas têm conseqüências que poderes médios não têm.

Se os EUA não se preocuparem com a liberdade de imprensa na China, ninguém vai. Neste sentido, é mais fácil para a Europa do que os EUA abdicar da retórica de direitos civis quando esta entra em conflito com outros interesses, como vantagens econômicas. Por isso que a maior parte dos membros europeus da Comissão das Nações Unidas de Direitos Humanos votou contra ou se absteve no esforço americano mal sucedido de revisar oficialmente os arquivos chineses.

A China pôde vender tecnologia de mísseis ao Irã, em parte, porque não tem interesses estratégicos no Oriente Médio --somente o interesse nacional estrito de assegurar suprimentos de petróleo. E a Europa pode suspender seu embargo de armas contra a China porque, apesar de ambicionar um grande papel em um mundo multipolar, não tem interesses estratégicos na Ásia --somente o de se beneficiar do comércio com a China.

Assim, a Europa essencialmente eliminou de suas referências o Taiwan --um território maior do que metade dos países membros da EU. Não vai ser preocupação da Europa se a democrática Taiwan for forçada, sob pressão diplomática e militar chinesa, a desistir de sua independência de fato.

Também não há sentido em compartilhar a responsabilidade do destino de uma pequena ilha sob pressão de um vizinho gigante e cada vez mais poderoso. Os europeus sabem que, quaisquer conseqüências de sua decisão quanto ao embargo de armas aos chineses, a responsabilidade de lidar com eles será exclusivamente americana. EUA e UE querem reduzir arsenal sem afetar os negócios com o país Deborah Weinberg

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