UOL Notícias Internacional
 

03/02/2005

Europa é lenta para implementar o seu número telefônico de socorro a emergências

International Herald Tribune
Matthew Saltmarsh
Em Paris
O que é o 112? Talvez esse seja o segredo europeu mais bem guardado.

Pergunte a um britânico o que ele faria caso se ferisse quando ao visitar, digamos, a Grécia, e é provável que ele realmente não saiba. Ou então indague a uma francesa que providência ela tomaria se o chalé em que passasse as férias na Suécia pegasse fogo. A resposta provavelmente seria um dar de ombros gaulês.

Até mesmo as autoridades em Bruxelas admitem que poucos europeus pensariam em ligar para o 112. Mas esse é o número telefônico europeu único para emergências, disponível em todos os países da União Européia (UE) --e, surpreendente, considerando o quanto é desconhecido, está em operação há quase uma década.

Digite esse número a partir de qualquer um dos 25 países membros da UE, por meio de telefone celular ou fixo, e você acessará um centro nacional ou regional de chamadas de emergência, que talvez seja administrado pelo corpo de bombeiros ou pela polícia.

Ou então por um centro nacional integrado ou um departamento de atendimentos de chamadas especiais feitas por turistas. Alguns países --Finlândia, Suécia, Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Portugal e Espanha-- adotam o 112 como o seu número nacional único de emergência.

O sistema parece ser ideal: um serviço pan-europeu que se equipararia em eficiência ao 911 de Estados Unidos e Canadá. O problema é que o 112 não tem funcionado tão bem quanto deveria, sendo assolado por problemas de natureza lingüística e logística, segundo especialistas e aqueles que conhecem de perto o sistema.

Na Europa, o usuário pode enfrentar mais demora para ser atendido pelos serviços de emergência ao discar o 112 do que ao ligar para o número nacional de atendimento a emergências. A tecnologia para localizar geograficamente as chamadas de celulares está disponível, mas não é utilizada com freqüência.

E talvez o mais problemático seja que muitos países não estão informando os seus cidadãos sobre o 112, apesar do fato de este ter sido escolhido como número europeu único de emergência em 1991, e de estar supostamente em operação há cinco anos.

Segundo uma pesquisa da UE, somente 20% dos europeus conheciam o 112 no ano de 2001. Houve pouca ou nenhuma iniciativa da maior parte dos países no sentido de informar os turistas a respeito do número. Em meados do ano passado, a Virgin Express se tornou a única empresa aérea européia a informar os passageiros, por meio de uma revista de bordo, sobre a existência do 112 e sobre como o número poderia ajudá-los durante suas férias.

Uma pessoa que descobriu de forma trágica as precariedades do 112 é Fred Heukels. Consultor de telecomunicações, ele trabalhava para a KPN, a rede telefônica da Holanda, na troca do número de emergência do país de 0611 para 112. Há vários anos, o seu sobrinho, Misha van de Geld, então com 15 anos, saiu com amigos para nadar em um lago em Zeewolde. Quando se dirigia à água, escorregou, bateu com a cabeça no solo e ficou temporariamente paralisado. Mais tarde, descobriu-se que apresentava uma fratura no pescoço e uma lesão parcial na coluna vertebral.

Van de Geld ligou para o 112 de um telefone celular, mas o operador foi incapaz de localizar Zeewolde e achou que a ligação fora feita em Zuidwolde, a cerca de 100 quilômetros do local do acidente. O centro de atendimento das ligações, acostumado a receber trotes de crianças, não levou o telefonema a sério, por acreditar tratar-se de uma brincadeira. Felizmente, um amigo conseguiu ligar para o pai de Geld, um policial, que mandou uma ambulância para o local. O adolescente jamais se recuperou inteiramente.

Heukels citou outros exemplos de como o 112 custou valiosa perda de tempo, e, em um determinado caso, possivelmente uma vida.

"A tecnologia para localizar os locais das chamadas existe, mas as operadoras não investem nesse serviço. Elas não enxergam lucros nessa atividade e, portanto, ignoram a sua implementação", afirmou em uma entrevista por telefone.

Heukels acha que o governo teria um papel a desempenhar nessa questão.

Mas Judith Thompson Sepmeijer, porta-voz do Ministério da Economia holandês, defende o seu governo: "Contamos com pouquíssimos instrumentos para obrigarmos as companhias de telefonia celular a fazer muita coisa neste momento". Ela sugeriu que as empresas telefônicas sejam obrigadas a responderem a chamadas no âmbito de toda a Europa.

Porém, essa não é uma opinião plenamente aceita em Bruxelas, onde Barbara Helfferich, porta-voz da Comissão Européia, admite que tem havido problemas com o sistema 112. Mas ela acrescenta: "Cabe aos Estados membros implementar os seus compromissos".

Enquanto isso, operadores nos centros 112 enfrentam o problema de como se comunicarem com estrangeiros em apuros, que muitas vezes não falam o idioma do país que estão visitando.

"Não temos lingüistas suficientes para darmos conta das chamadas, e isso significa que às vezes perdemos um tempo vital", diz Patrick Heraud, que gerencia o sistema de comunicação da Federação dos Bombeiros da França, país onde a maioria das ligações para o 112 é canalizada para os corpos de bombeiro.

Há muita gente na Europa trabalhando na promoção do 112. Uma dessas pessoas é Olivier Paul-Morandini, que em 1999 criou a Associação Européia de Números de Emergência, um grupo sem fins lucrativos com sede em Bruxelas. As reclamações quanto ao 112 podem ser feitas no site do grupo, www.eena.org.

Outro indivíduo engajado em missão do gênero é Per Hilding, ex-chefe de bombeiros que dirigia o setor de controle de qualidade na agência governamental sueca responsável por processar chamadas de emergência, e que atualmente administra um site de notícias sobre o 112 (www.sos112.info). "Alguns países apresentam um desempenho melhor do que outros no que diz respeito à implementação do 112", afirma.

Os países do Leste Europeu, os nórdicos, a Holanda, Portugal e Espanha são alvos dos elogios de Hilding. Já França, Alemanha e Itália recebem críticas.

Heraud afirma que são necessários mais recursos na França, onde o serviço de bombeiros financia o 112 com verbas do seu próprio orçamento. Além disso, considerando que muitas chamadas ao 112 são feitas por motoristas cujos carros quebraram, ele diz que deveria ser criado um número pan-europeu distinto para o atendimento exclusivo a esses casos.

Essa idéia está na verdade sendo implementada. A Comissão Européia deve anunciar na quinta-feira um plano para equipar todos os novos veículos com um serviço chamado e-Call até 2009.

Segundo uma proposta inicial, essa tecnologia deverá ser utilizada pelas 112 redes telefônica na resposta a acidentes rodoviários.

Paul-Morandini está tão frustrado com os problemas do serviço 112 que solicitou à Comissão Européia que estudasse a possibilidade de levar ao Tribunal Europeu de Justiça aqueles países que demoram em fazer com que o sistema funcione de forma eficiente.

Ele diz que o recente tsunami na Ásia deveria fazer com que as autoridades pensassem nos problemas enfrentados pelos sistemas de comunicação de emergência.

"Continuarei insistindo até que o 112 seja implementado de maneira apropriada. Trabalharei nesse projeto por toda a vida", garante Paul-Morandini. Serviço europeu deveria se equiparar em eficiência ao 911 dos EUA Danilo Fonseca

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