UOL Notícias Internacional
 

09/02/2005

Saudade atormenta sobreviventes do tsunami

International Herald Tribune
Seth Mydans
International Herald Tribune
Sakol Kamchok ficou no lugar de sempre, à beira de um lago lodoso que é a última esperança para os moradores daqui que não encontraram nenhum sinal dos seus parentes desaparecidos.

As bombas que durante o mês passado drenaram o lago, jogando as suas águas estagnadas no mar, exumaram motocicletas, carros e pedaços de metal. Mas não foi descoberto nenhum corpo inchado e em decomposição, algo que teria proporcionado alívio a Sakol. "Preciso saber", disse ele, referindo-se às duas sobrinhas desaparecidas que moravam na sua casa em uma aldeia de pescadores no sul da Tailândia. "Sinto como se estivesse preso por nós. Elas não podem ficar apenas desaparecidas. É necessário que as suas vidas terminem de maneira apropriada; não podem simplesmente desaparecer".

Quase a metade da população de 5.000 habitantes daqui morreu ou está desaparecida depois que uma enorme onda destroçou as suas casas em 26 de dezembro, atirando-as contra paredes, sugando-as para o mar e alcançando-as quando tentavam salvar suas vidas.

Acredita-se que mais 5.000 trabalhadores de Mianmar que aqui moravam tenham também desaparecido. Ninguém sabe o que aconteceu com eles.

Nenhum dos sobreviventes deixou os abrigos temporários para voltar a morar nas ruínas de suas casas. Nam Khem é atualmente uma cidade fantasma, onde ainda estão vivos na memória os últimos momentos de terror das pessoas que aqui morreram.

Alguns dos mortos aparecem nos sonhos dos que sobreviveram. Os moradores dizem que há sobreviventes que a vida de certos sobreviventes entrou em colapso devido ao sofrimento. "O meu pai fica sentado o dia todo olhando para o vazio", diz Phrapa Chanmuang, 17, que perdeu seis dos 11 membros da sua família. "Um dia ele me pediu uma mala. Eu respondi que não temos malas e ele me mandou comprar uma. Porém, não creio que ele vá partir".

Há um homem amargurado que não pára de repetir: "Por que as ondas levaram toda a minha família e só pouparam a mim?". Há aquele corajoso que só chora quando acha que ninguém está olhando. E aquele que não pára de revirar os destroços em busca dos corpos da mulher e dos filhos, embora equipes de busca já tenham vasculhado o local.

Na Escola Bang Muang, onde 51 dos 200 alunos de Nam Khem morreram e 45 ficaram órfãos, o diretor, Chitdee Thongsen, luta para fazer com que a vida volte à normalidade. "As crianças parecem estar se recuperando muito bem", diz ele. "Às vezes elas param e olham para o vazio. Creio que nessas ocasiões estão pensando nos parentes mortos".

Porém mais de um mês após o desastre, o futuro vai ocupando o lugar do passado. Os alunos se preparam para as provas escolares. Soldados do exército tailandês limpam as ruínas e constroem as fundações para cerca de cem novas casas. O cheiro da morte desapareceu, embora ainda haja traços dele em depósitos de entulhos nos quais aquilo que restou de Nam Khem foi reduzido a pedaços de metal, canos, fios de cobre, plástico, latas metálicas, geladeiras, botijões de gás e pilhas de papel.

Os moradores já se acostumaram com os ônibus cheios de turistas tailandeses que passam vagarosamente, observando-os sentados sobre as ruínas de suas vidas. Eles agora se preocupam com a burocracia, indo de um departamento a outro na cidade vizinha de Takua Pa em busca da indenização prometida pelo governo e reivindicando a posse de terrenos.

Quando pensam no futuro, a sua maior preocupação diz respeito aos barcos. A maior parte deles pesca, e, de um total de 300 embarcações, somente meia-dúzia escapou da fúria das ondas. "O nosso verdadeiro problema é não termos meios de sobrevivência", lamenta Prayun Chongkraichak, 38, o chefe de uma pequena coletividade de pescadores sobreviventes.

Os homens se mantêm ocupados fazendo centenas de novas redes, mas ainda que tivessem barcos, eles temeriam que o peixe estivesse contaminado. "Perdemos a nossa confiança no mar", afirma Prayun.

Os grupos de pescadores que se agruparam aqui são como as suturas de uma ferida que cicatriza lentamente. Um punhado de carne foi arrancado de suas comunidades e eles costuram aquilo que restou.

As histórias dos que sobreviveram se parecem, de forma perturbadora, com as dos que morreram. Um grupo poderia muito bem estar no lugar do outro.

Sakol contra que as suas sobrinhas desaparecidas foram aparentemente arrastadas pelas águas através de uma brecha no telhado de zinco de sua casa. A sua mãe se agarrou a uma travessa de madeira do telhado e conseguiu sobreviver. Phrapa conseguiu fugir da onda em uma pequena motocicleta, levando uma criança consigo. Já a sua mãe, que estava em outra motocicleta, foi alcançada pela água, que a derrubou e a arrastou para a morte.

"Foi o destino", afirma Am Changkraichok, 68, um pescador que conhecia bem todas as vítimas. "Se destino da pessoa era morrer, ela morreu. Quem veio visitar os amigos, ou os estrangeiros em férias, todos estavam aqui porque a hora de suas mortes havia chegado. Morei aqui a vida toda e fui poupado. Como explicar isso? A minha hora ainda não chegou. Quando penso dessa forma, me sinto melhor. A natureza decide. As coisas surgem e desaparecem. Se não superarmos esses eventos, enlouquecemos".

Todas as noites, em uma praia deserta no sul de Nam Khem, Saengarun Pholsaen, 50, um serralheiro, traz três latas de cerveja e senta-se no pátio de um restaurante devastado. Ele toma duas latas e despeja o conteúdo da terceira em um copo plástico para o seu melhor amigo, Somsak, uma das vítimas do tsunami. "Quatro ou cinco noites atrás eu o vi ao lado da minha cama e ele me disse que ninguém estava se importando com a sua alma", conta Saengarun. "Não foi um sonho. Ele estava mesmo lá. Assim, resolvi vir aqui onde costumávamos beber juntos após o trabalho". Ele grita nome do amigo - "Somsak! Somsak!" - para avisar que a cerveja está esperando. Depois se senta sozinho e olha o grande sol vermelho afundar no oceano, com uma cerveja na mão. O copo de plástico fica intocado, enquanto as cigarras cantam nos pinheiros. A luz do dia diminui e tudo em volta de Pholsaen é envolto pela escuridão. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,95
    3,157
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h28

    -1,26
    74.443,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host