UOL Notícias Internacional
 

24/02/2005

Incidentes racistas e anti-semitas abalam França

International Herald Tribune
Katrin Bennhold
Em Paris
Suásticas nas paredes de uma mesquita de Paris. Um ataque incendiário contra um vagão de trem que homenageava os judeus franceses que foram deportados para campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Comentários anti-semitas grosseiros feitos por um comediante.

Uma recente onda de incidentes racistas na França abalou as instituições políticas no momento em que o país luta contra a sua imagem no exterior, onde é tido como um país no qual o anti-semitismo está voltando com força e os sentimentos antiárabes andam em ascensão.

Nesta terça-feira (22/02), o presidente Jacques Chirac telefonou para Dalil Boubakeur, o diretor da Grande Mesquita de Paris, condenando os grafites neonazistas descobertos na parede externa da instalação no dia anterior. Foram pintadas na parede doze suásticas negras, bem como a insígnia das SS de Hitler e as palavras, "Caiam fora!".

Na última segunda-feira, o ministro do Interior, Dominique de Villepin, visitou Drancy, cidade próxima incendiar um vagão de madeira. Durante a guerra, a cidade foi o ponto a partir do qual a Gestapo e o governo francês de ocupação deportaram judeus, por trem, para campos de concentração.

Mas esses incidentes foram eclipsados pela indignação provocada pelos comentários de Dieudonné, um comediante francês negro, que descreveu as recentes comemorações da libertação do campo da morte de Auschwitz como sendo "pornográficas".

O ministro da Justiça, Dominique Perben, determinou que fosse instaurado um inquérito preliminar para determinar se os repetidos comentários anti-semitas de Dieudonné se constituem em crime de "contestação de crimes contra a humanidade", para o qual pode haver punição penal.

O comediante, filho de mãe francesa e pai camaronês, é uma figura popular, mas foi criticado pela primeira vez no final de 2003 devido a uma brincadeira na televisão que foi considerada anti-semita.

Atualmente ele é quase que universalmente condenado pelos seus últimos comentários, feitos em uma coletiva a imprensa em Argel na semana passada. Dois jornalistas franceses gravaram os comentários e os divulgaram na Internet. Entre outras coisas, Dieudonné chamou a principal organização judaica da França de um "bando de criminosos". Três dias depois, em uma entrevista coletiva à imprensa, em Paris, ele declarou que o sionismo é "a Aids do judaísmo".

A indignação aumenta devido ao fato de que alguns dos comentários de Dieudonné podem ser vistos com simpatia pelas minorias étnicas francesas. Em Argel, Dieudonné argumentou que, enquanto verbas para filmes sobre o Holocausto são rapidamente fornecidas, ele não conseguiu dinheiro para fazer um filme sobre o comércio de escravos.

"Foi declarada uma guerra contra os negros e, enquanto isso, eles tentam nos fazer chorar devido ao destino dos judeus", diz ele.

Christophe Bertossi, especialista em imigração do Instituto Francês de Relações Internacionais em Paris, descreveu os recentes incidentes aqui como "sintomas da mesma crise".

Dona das maiores comunidades muçulmana e judaica da Europa Ocidental, a França é também o país onde prevalece um conceito de igualdade que faz com que seja um tabu fazer distinção entre os cidadãos com base na raça ou na religião. Por trás desse véu de igualdade, a discriminação floresceu, alimentando as divisões raciais e diminuindo as oportunidades para os imigrantes.

"Existe um código de cores na sociedade francesa, mas o conceito republicano de igualdade é cego para essa realidade", explica Bertossi. "Isso significa que não há meios concretos de se resolver o problema. As pessoas apenas o negam".

Segundo o Instituto Montaigne, de Paris, um terço dos cerca de seis milhões de moradores franceses descendentes de imigrantes do norte da África vive em guetos suburbanos onde o desemprego é generalizado. E um estudo recente do instituto revelou que o desemprego em meio a argelinos e marroquinos, os maiores grupos de imigrantes, está acima dos 30%, ou o triplo da média nacional.

Além disso, apesar do apoio do governo francês à causa palestina, o número de ataques contra judeus cometidos por árabes na França aumentou nos últimos anos.

No ano passado, Ariel Sharon pediu aos judeus franceses que emigrassem para Israel.

Ao mesmo tempo, alguns grupos de imigrantes que representam as comunidades originárias do norte da África acusaram o governo de dar mais atenção ao anti-semitismo do que aos ataques contra árabes e negros.

"O sofrimento coletivo dessas duas minorias diz respeito a duas experiências históricas muito diferentes", diz Bertossi. "Mas não há razão para que a França se faça de cega para qualquer uma delas".

Apesar da intensa mobilização do governo para combater o racismo, mais de 300 túmulos --a maioria deles em cemitérios judeus-- foram profanados no leste da França desde abril do ano passado. Segundo dados do Ministério do Interior, grupos neonazistas contam com cerca de 3.000 membros e cometeram 65 atos violentos no ano passado, mais do que o dobro dos ocorridos no ano anterior.

Ninguém assumiu responsabilidade pelos grafites neonazistas na parede da mesquita ou pelo fogo em Drancy. Boubakeur condenou os ataques contra a sua mesquita, chamando-o de "ato intolerável de ódio contra o Islã".

Roger Cukierman, que dirige a principal instituição que representa as organizações judaicas, pediu ao governo que combatesse o anti-semitismo "mais intensivamente".

Em um editorial na última terça-feira, o respeitado jornal "Le Monde" disse que Dieudonné foi longe demais. "Em vez de explicar, argumentar, justificar, Dieudonné optou por se opor, denegrir e ferir", disse o jornal. "Ele joga um crime contra a humanidade contra um outro". O preconceito contra os negros é tolerado, argumenta artista negro Danilo Fonseca

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