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31/05/2005

Mercados mostram indiferença ao "não" da França à Constituição Européia

International Herald Tribune
Floyd Norris
Em Paris
O impensável, ao menos para os políticos franceses, aconteceu. E os mercados europeus não ligaram.

"Se acreditássemos nas advertências dos políticos sobre os efeitos da vitória do 'não' à adoção da constituição, a União Européia estaria perto de uma terrível catástrofe. Felizmente, essas duras advertências nunca foram realidade, e a União Européia desta manhã não é uma grande devastação" escreveu Robert Carnell, economista do ING, na segunda-feira (30/05).

O resultado mais óbvio das votações seria uma mudança na política francesa. O presidente Jacques Chirac sugeriu que ia substituir o primeiro-ministro, Jean Pierre Raffarin. Se for demitido, Raffarin sairá como os dois primeiros-ministros anteriores de Chirac, com suas reputações severamente danificadas e seu futuro político ameaçado.

O mercado de ações francês abriu em queda na segunda-feira, mas começou a subir no final da manhã e, no final do pregão de Paris, o índice CAC-40 terminou positivo. Significativamente, o índice está mais de 2% acima do dia 17 de março, um dia antes da primeira pesquisa indicando que os eleitores franceses poderiam rejeitar a constituição.

Com os mercados financeiros fechados em Londres e Nova York, o euro caiu para seu mais baixo nível desde outubro, perdendo US$ 0,012 para US$ 1,2470. A moeda européia chegou ao máximo em dezembro, acima de US$ 1,36. Depois de cair no início chegou a US$ 1,35 no início de março, uma semana antes das pesquisas saírem, e vem caindo desde então.

Mas isso reflete apenas em parte a fraqueza do euro, já que o dólar vem subindo perante o iene e a libra, disse Julian Jessop, economista da Capital Economics.

O euro não sofreu por causa do destino da constituição, mas por evidências de desaceleração das economias européias, com a Itália aparentemente em recessão.

Há especulações de que a Europa Oriental será a mais afetada pela rejeição francesa, pois esta coloca em questão a União Européia e reduz as chances de o euro ser adotado na região.

Mesmo assim, os mercados da República Checa e Polônia mostraram pequenos ganhos. Até a Turquia, acusada por muitos de ter prejudicado a aprovação da constituição na França com seu interesse de unir-se à UE, registrou ganhos.

A reação tranqüila do mercado decepcionou as advertências de políticos, como Jacques Delors, ex-presidente da Comissão Européia, que tinha previsto um "cataclismo político", ou Romano Prodi, presidente da comissão quando a constituição foi escrita, que disse que a rejeição significaria a "queda da Europa". Ainda não está claro se a votação será vista como um momento de virada na Europa.

"Certamente houve exagero quando se falou de apocalipse", disse Jessop, acrescentando que a votação mostrava que Chirac e Raffarin não eram populares e que o povo francês estava preocupado com a economia.

"Não precisávamos realmente de um referendo para nos dizer isso", acrescentou. Havia membros da esquerda e da direita a favor ou contra a constituição. Chirac argumentou que a votação pela constituição era uma forma de rejeitar o que ele via como as políticas de mercado excessivamente livres dos países anglo-saxões.

Os opositores disseram que a constituição entronava essas políticas. A votação pode ser vista como uma rejeição da liderança política da França e, talvez mais amplamente, grande parte da Europa. Eleições nacionais recentes na Espanha, Grécia e Portugal resultaram na derrota dos partidos no governo, e as eleições regionais na França, Itália e Alemanha também representaram grande rejeição aos partidos governantes.

Somente no Reino Unido, onde a economia foi muito melhor, o partido no governo prevaleceu. Se isso vai convencer os líderes europeus de que suas políticas atuais precisam de mudanças, não se sabe.

Carnell, o economista da ING, disse na segunda-feira que a votação apontava para diferenças ainda substanciais dentro da União Européia. "A derrota da constituição ressaltou essas diferenças, apesar de promover a homogeneidade", escreveu.

"Talvez isso signifique que os países europeus precisem de espaço para cumprir metas de integração e harmonização em velocidades diferentes, ou até mesmo não cumprir, e que a Europa comece a evoluir de forma mais pluralista. De nosso ponto de vista, não há nada de errado nisso."

O euro e os mercados de ações poderão se sair melhor se os governos promoverem o crescimento econômico e a competitividade. Será pior se ficar parecendo que os governos vêem o referendo como uma rejeição de seus esforços para tornar os mercados trabalhistas mais competitivos e os sistemas de pensão menos generosos.

"Se houver problemas, será por causa de um aumento de um populismo muito repulsivo, com suas tendências protecionistas", disse Maria Livanos Cattaui, secretária-geral da Câmara Internacional de Comércio, que tem base em Paris.

"O Ramo de Ouro"

A mudança imediata mais visível provavelmente será uma nova face do escritório do primeiro-ministro francês. Chirac, que é presidente há dez anos, não mostra sinais de que seguirá o precedente de Charles DeGaulle, que renunciou à presidência da França em 1969, depois que um referendo derrotou a proposta que defendia.

Dos dez referendos na Quinta República, aquele tinha sido o único em que a posição do governo fora rejeitada pelos eleitores. Chirac não indicou no domingo que anunciaria mudanças no governo em breve.

A saída dos primeiros-ministros de Chirac do cargo parecem seguir o exemplo de Massília. A cidade fundada pelos gregos hoje é conhecida como Marseilles.

"Toda vez que Marseilles, uma das mais movimentadas e brilhantes colônias gregas, era destruída pela praga, um homem das classes mais pobres se oferecia como bode expiatório", escreveu o historiador Sir James George Frazer, em seu clássico de 1922 "O Ramo de Ouro".

"Durante um ano ele era mantido pelo público, alimentado com boa comida. Ao final do ano, ele vestia roupas sagradas e era levado pela cidade. Havia preces para que os males de todas as pessoas caíssem sobre sua cabeça. Então ele era tirado da cidade ou apedrejado até a morte pelas pessoas".

Os primeiros-ministros tiveram esse papel na França de Chirac. Eles certamente duram mais do que um ano e não vêm das classes mais baixas, mas quase ninguém acredita no futuro político dos dois predecessores de Raffarin.

É provável que Raffarin também siga essa tradição. Não está claro que efeito esse bode expiatório terá na política. Mas os mercados parecem estar menos preocupados com isso do que muitos políticos franceses. Rejeição à UE não trouxe o cataclisma previsto pelos políticos Deborah Weinberg

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