UOL Notícias Internacional
 

18/06/2005

Aniversário da mártir pela democracia inspira protestos em Mianmar

International Herald Tribune
Seth Mydans
Em Bancoc (Tailândia)
Dezessete anos atrás, quando o povo de Mianmar ocupava em massa as ruas para protestar contra a ditadura militar, uma mulher que tinha um ar quase enervante de autocontrole se levantou para falar em um comício no grande Pagode Dourado Shwedagon. Naquele momento, ninguém percebeu que aquilo era um ato de martírio.

A mulher, Aung San Suu Kyi, deixara a sua casa na Inglaterra para cuidar da mãe doente em Mianmar quando os protestos pela democracia irromperam no país em agosto de 1988, apesar de uma resposta brutal das forças armadas que custou milhares de vidas.

Os protestos sem liderança no país, à época conhecido como Burma, foram esmagados em uma onda final de repressão logo depois do discurso de Aung San Suu Kyi. Mas nos meses que se seguiram ela emergiu, devido a uma combinação de carisma e linhagem, para liderar aquilo que foi, no decorrer dos anos, uma fútil mas tenaz oposição aos líderes militares do país.

Neste domingo (19/06), Aung San Suu Kyi passará o seu 60º aniversário em prisão domiciliar. Ela passou os últimos anos presa em uma casa cada vez mais arruinada, mais afastada do que nunca de contatos fora da sua residência cheia de mato em Yangun, a capital de Mianmar.

O seu aniversário se transformou em uma ocasião para novos protestos internacionais contra uma série de governos militares que dominam o país há mais de 40 anos semeando o medo, encarcerando os seus oponentes, arruinando a economia e movendo uma guerra contra as minorias étnicas.

Outrora uma das nações mais refinadas e ricas em recursos na região, Mianmar se tornou o país mais desesperado e difamado do sudeste da Ásia.

Como filha do herói fundador do país, U Aung San, ela despertava uma simpatia quase mística nas pessoas desesperadas para reconquistarem as suas liberdades e auto-respeito. Com sua dignidade, auto-sacrifício e perseverança, ela se transformou em uma lenda.

Mas em um confronto entre a força bruta e o princípio, entre a repressão e o desejo claramente expresso do povo de Mianmar, foram os homens com as armas que até o momento prevaleceram, enquanto o símbolo moral do país foi para a prisão.

Pedidos pela libertação de Aung San Suu Kyi chegaram de todo o mundo nos últimos dias, incluindo declarações de Washington e do secretário-geral Kofi Annan, da Organização das Nações Unidas (ONU).

Mas os generais já tentaram libertá-la por duas vezes, da última vez em maio de 2002, apenas para redescobrir a sua esmagadora popularidade quando ela viajou pelo país, envergonhando os militares com as grandes multidões que atraiu.

Um ano após a última vez em que foi libertada, o comboio no qual viajava foi atacado por um grupo organizado, naquilo que alguns analistas acreditam ter sido um tentativa de matá-la, e foi reconduzida à prisão domiciliar após um período de tratamento brutal na prisão. Mas ela ainda mantém a sua popularidade.

"Ela se tornou a única liderança que o povo birmanês reconheceu após a morte do seu pai em 1947", afirma Josef Silverstein, acadêmico da Universidade Rutgers e especialista em Mianmar. "Eu acrescentaria que ela imitou de todas as formas possíveis aquilo que o pai defendeu, ou seja, o direito do povo de governar a si próprio e de ter um país livre e democrático".

Logo após o seu discurso no Pagode Shwedagon, ela assumiu explicitamente o manto do pai, afirmando que, da mesma forma que ele, dedicaria a sua vida ao povo do país. E deixou isso novamente claro em 1999, quando decidiu não visitar o marido, Michael Aris, na Inglaterra, quando este estava morrendo de câncer, porque temia que o governo a impedisse a regressar a Mianmar. As autoridades se recusaram a deixar que ele a visitasse.

Os Estados Unidos, a União Européia e vários outros países responderam à repressão em Mianmar com sanções econômicas que pouco fizeram para afetar o regime. Os vizinhos gigantes de Mianmar, China e Índia, assim como vários outros países asiáticos, ofereceram a Yangun uma ajuda econômica contínua que permitiu que o governo birmanês sobrevivesse.

Mas atualmente a oposição do Ocidente está exercendo pressão sobre a junta quando esta se prepara para assumir a liderança rotativa do grupo político e econômico regional composto por dez membros, a Associação das Nações do Sudeste Asiático.

Os Estados Unidos e outros países têm enviado fortes sinais de que boicotarão uma reunião anual para a qual são convidados caso o encontro ocorra em Mianmar.

Os vizinhos regionais, deparando-se com a perspectiva de uma situação embaraçosa, estão começando a pressionar a junta para que esta abra mão da sua vez de ser o líder regional caso não liberte Aung Suu Kyi e melhore as suas práticas relativas aos direitos humanos.

Ao mesmo tempo, houve uma erupção de agitação interna entre os generais que presidem o país, embora, assim como a maior parte das coisas em Mianmar, os detalhes e as causas dessa movimentação não tenham ficado claras.

Em outubro, o primeiro-ministro Khin Nyunt, que foi o chefe da inteligência militar e um dos líderes mais poderosos do país, foi demitido e colocado sob prisão domiciliar. O seu julgamento devido a esperadas acusações de corrupção começou ou está preste a começar, segundo relatos conflitantes.

No mês passado, uma onda de atentados a bomba em Mandalay e na capital, Yangun, matou dezenas de pessoas e causou uma nova onda de repressão e o aumento do nervosismo no país.

O governo não anunciou prisões e parece estar genuinamente perplexo e assustado devido às explosões. Tendo prendido centenas de oficiais militares de inteligência, bem como o seu chefe, os líderes do país estão agora bem menos capacitados a analisar os seus próprios problemas.

No decorrer dos anos, à medida que a repressão prosseguia em Mianmar, os críticos colocaram a culpa naquilo que chamam de teimosia e intransigência de Aung San Suu Kyi. Mas foram as lideranças militares que por várias vezes mudaram de rumo, ignorando-a, caluniando-a, abrindo e fechando diálogos, libertando-a e tornando a prendê-la.

"A sua teimosia é a sua força", diz Silverstein. "Essa mulher não vai se dobrar nem se deixar quebrar. Ela deixou bem claro que está pronta para discutir qualquer coisa e que não aceitará a violência ou a manutenção do poder pela força".

Ela foi criticada pelo seu pedido de boicote ao turismo em Mianmar, tendo afirmado que a maior parte do dinheiro gasto pelos turistas vai para os bolsos dos membros da junta e dos seus aliados corruptos.

E foi também criticada por exigir que o governo reconhecesse os resultados de uma eleição parlamentar em 1990, que foi vencida pelo seu partido, a Liga Nacional pela Democracia.

Ela recebeu o Prêmio Nobel da Paz no ano seguinte e se juntou a Nelson Mandela e ao Dalai Lama como ícone internacional de luta pela liberdade.

A notavelmente aberta eleição parlamentar foi um erro característico de cálculo por parte da junta, que aparentemente esperava vencer. Quando o partido de Aung San Suu Kyi conquistou mais de 80% das cadeiras parlamentares, os generais se recusaram a reconhecer o resultado e se aferraram ao poder.

Muitos dos que ganharam cadeiras foram presos. Pouco a pouco, no decorrer dos anos, a junta foi minando o partido de oposição. Atualmente as lideranças partidárias estão envelhecidas. Aung San Suu Kyi é a mais nova dessas lideranças e a ala jovem do partido se atrofiou.

Cada vez mais, a oposição democrática ao regime militar em Mianmar é personificada por uma mulher isolada e determinada. Neste domingo, Aung San Suu Kyi, no cárcere, completa 60 anos Danilo Fonseca

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