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15/07/2005

A Europa ficará unida na luta contra o terrorismo?

International Herald Tribune
Richard Bernstein
Como todos sabem, para o ceticismo generalizado dos europeus, são os Estados Unidos que têm travado aquilo que chamam de "guerra" contra o terrorismo, enquanto os europeus estão engajados apenas em uma "luta", vendo a coisa mais como um problema político cujas causas profundas precisam ser enfrentadas, do que como um assunto que possa ser solucionado pela força militar.

E talvez os europeus estejam certos. Nada que diga respeito aos dois grandes ataques terroristas na Europa - em Madri, no ano passado, e em Londres, na semana passada - sugere que o envio de tropas para fora da Europa pudesse ter aumentado a segurança européia.

Mas é claro que a palavra "guerra" na boca de George W. Bush não significa apenas o envio de tropas. Ela é também uma metáfora da gravidade da situação, exprimindo a noção de que toda a sociedade e os seus recursos precisam ser mobilizados contra aquilo que se tornou moda chamar de perigo existencial, uma ameaça ao bem estar fundamental da própria sociedade livre.

E, caso se confirme, como indicou a polícia britânica, que os indivíduos que explodiram as bombas em Londres eram terroristas suicidas de nacionalidade britânica, então, como anunciaram nesta semana Alan Cowell e Don Van Natta, do jornal "The New York Times", algo de muito novo atingiu a Europa. O tipo de ataque suicida que até então só se acreditava que fosse um problema para Israel e Iraque e, em uma circunstância espetacular, em 11 de setembro de 2001, para os Estados Unidos.

Além do mais, as conclusões preliminares da investigação indicam que pelo menos duas outras conclusões podem ser tiradas a respeito da natureza da potencial ameaça terrorista à Europa.

Uma delas é que cada vez mais ela aparece como uma combinação sem precedentes de perigos internos e externos, de uma espécie de quinta coluna demográfica já estabelecida no seio da população européia e que não é exatamente controlada do exterior, mas que colhe a sua inspiração do estrangeiro, especialmente de Osama Bin Laden e da Al Qaeda.

E a outra é que o que os ataques a Londres parecem demonstrar que a ameaça potencial à Europa é, de sua maneira, mais complicada e insidiosa do que aquela contra os Estados Unidos, mesmo que até o momento o terrorismo tenha matado menos gente aqui do que do outro lado do Atlântico. De fato, os Estados Unidos, como a potência imperial do planeta e país profundamente envolvido com a política do Oriente Médio, são claramente o alvo número um na lista dos terroristas, sendo sempre o Grande Satã.

Mas, pelo menos até o momento, os Estados Unidos só foram atacados por estrangeiros - como o grupo treinado pela Al Qaeda que executou a operação do 11 de setembro, ou os suicidas que estão atingindo as tropas norte-americanas, e muitos outros, no Iraque. Apesar da presença de muitos milhões de muçulmanos nos Estados Unidos, não há nenhum sinal de ameaça que venha de dentro do país.

A Europa é diferente. Está cada vez mais claro que a Europa é aquilo que os especialistas em terrorismo gostam de chamar de base e alvo do terrorismo. Os líderes da equipe que realizou o ataque do 11 de setembro moraram durante muito tempo em Hamburgo antes de seguirem para executar sua missão nos Estados Unidos. Os dois indivíduos conhecidos por "terroristas do sapato", que pretendiam explodir aviões em pleno ar, eram cidadãos britânicos. O homem na Holanda que confessou ter assassinado o cineasta Theo van Gogh é um holandês de origem marroquina.

"Há forte evidência de que os operadores da Al Qaeda na Europa são, cada vez mais, cidadãos locais, e não pessoas de fora do continente", observou Daniel Keohane, especialista em terrorismo do Centro de Reforma Européia, em um artigo publicado dois meses antes dos atentados a bomba em Londres.

Uma parte das evidências citada por Keohane é um estudo feito pelo Centro Nixon em Washington (publicado pela primeira vez pela "Newsweek"), revelando que, dos 373 terroristas muçulmanos presos na Europa e nos Estados Unidos de 1993 a 2004, 41% eram cidadãos do Ocidente, fossem cidadãos naturalizados, filhos de imigrantes ou convertidos religiosos. Havia entre esse grupo mais cidadãos franceses do que paquistaneses ou iemenitas.

"O que temos é uma combinação de imigrantes de segunda ou terceira geração e um ou dois elementos externos, da Síria, Arábia Saudita ou Marrocos, e essa combinação é muito perigosa", diz Jean-Yves Hain, especialista em segurança do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos em Londres.

"E há um perigo adicional para essa combinação, que é o retorno do Iraque", alerta Hain. "Esses europeus vão ao Iraque para fazerem parte da insurgência, e o risco é que, quando retornem, possuam uma experiência e um status de combatentes que façam deles uma grande ameaça".

O que isso significa em primeiro lugar é que a luta contra o terrorismo será muito diferente para a Europa e para os Estados Unidos. Para os norte-americanos, faz sentido ver a luta contra o terrorismo como uma guerra, dirigida, como as guerras sempre são, contra um inimigo externo. Os europeus, do seu ponto de vista, têm razão em não verem essa mesma luta como uma guerra, mas como uma questão de trabalho policial, inteligência e coordenação.

Mas, de qualquer maneira, há uma similaridade emergente na gravidade da situação. Não importa como se chame o fenômeno, o terrorismo após os atentados em Londres deve gerar um novo nível de alerta, uma avaliação aumentada da extensão do perigo.

Será que a Europa, após o desastre da Constituição da União Européia e o fiasco relativo ao orçamento da união, responderá com um incremento na coordenação? Um dos objetivos de Bin Laden é claramente evitar exatamente isso. A estratégia da Al Qaeda é concentrar os ataques nos países que têm (ou, no caso espanhol, tinham) tropas no Iraque, dividindo, dessa forma, a Europa entre aqueles países interessados em reagir militarmente e aqueles cujo interesse é não provocar uma ira muçulmana ainda maior.

Até agora tal estratégia não funcionou, pelo menos no nível da liderança política européia, que colocou a solidariedade européia à frente das diferenças quanto à avaliação do risco. Devemos torcer que as coisas permaneçam dessa forma, porque, para parafrasear Benjamin Franklin quando os Estados Unidos se defrontavam com um tipo de perigo bem diferente, parece que a Europa tem que fazer uma escolha: ou se unir em um momento de perigo, ou permitir que os seus países sejam vitimados separadamente. Danilo Fonseca

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