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10/08/2005
Na Velha Europa, novas idéias é que funcionam

Katrin Bennhold
Em Estrasburgo, França


O francês Bertrand Kurtz atravessa o rio Reno cerca de 500 vezes por ano. A fronteira entre a França e a Alemanha, que gerações de seus ancestrais morreram defendendo, fica no caminho de seu trabalho.

"Você de fato se esquece que há uma fronteira, porque ninguém mais é parado, esse é o luxo da minha geração", disse Kurtz, 49, que mora perto de Estrasburgo e trabalha em uma oficina mecânica em Kehl, Alemanha. "Meu avô lutou na Primeira Guerra, meu pai foi deportado pelos alemães na Segunda Guerra e eu vivo entre os dois países."

Aqui na Alsácia, uma das regiões mais contestadas durante séculos de guerras intermitentes na Europa, a realidade diária das fronteiras abertas do continente talvez seja a conquista mais tangível da União Européia: a cada dia, milhões de europeus atravessam livremente as fronteiras da Europa em viagens de turismo, trabalho ou estudo, entre países antes considerados inimigos.

De fato, em meio ao atual pessimismo em relação à UE, uma série de coisas parece funcionar.

"Quando lemos o jornal hoje em dia, pensamos que a Europa é um fracasso em todas as frentes. É claro que a UE tem que superar questões muito sérias de legitimidade diante de seus cidadãos. Mas pare para pensar quantas vezes por dia tiramos vantagem de algo que não seria possível sem essa integração", disse Dieter Rogalla, ex-membro do Parlamento Europeu pela Alemanha.

Muitos controles de fronteiras desapareceram. O euro, compartilhado atualmente por 12 dos 25 membros da UE, deixou para a história a trabalhosa operação de câmbio em cada fronteira. Dentro da zona do euro, os bancos não cobram mais por retiradas fora do país da residência.

O mercado comum e a desregulamentação de monopólios do governo cortaram os custos de telefonia e promoveram o surgimento de vias aéreas baratas, conectando cidades que antes não eram servidas.

Os europeus, beneficiados por um padrão único, podem usar seus telefones celulares desde a ponta oeste de Portugal até a fronteira da Polônia com a Ucrânia. Há uma abundância de festivais de artes patrocinados por bolsas européias. E os europeus têm mais tempo para apreciá-los, com férias mais longas e semanas de trabalho mais curtas que as de asiáticos e americanos.

Kurtz, por exemplo, paga imposto de renda na França, onde mora, e contribui para a previdência na Alemanha, onde trabalha. Ele pode ir ao médico em qualquer lado da fronteira. Roupas, ele compra na Alemanha, onde tendem a ser mais baratas, mas comida na França.

Seus dois filhos são bilíngües, como o pai. O próprio Kurtz passou um ano estudando na no Norte da Alemanha, aos 43 anos. De acordo com Rogalla, que foi um fiscal de imigração na Alemanha nos anos 60 e ficou famoso por derrubar uma cerca de fronteira entre a França e a Alemanha no início dos anos 80, nada foi mais simbólico e eficaz em aproximar a Europa do que a eliminação dos postos de controle nas fronteiras.

Há dez anos, o acordo de Schengen pavimentou o caminho para as viagens sem passaporte entre os 15 países europeus. O Reino Unido e a Irlanda não quiseram abdicar de seus controles de fronteiras, mas a Noruega e a Islândia aderiram ao pacto. Os 10 países que entraram para a UE no ano passado devem se unir ao acordo em 2007, se provarem que são capazes de garantir suas fronteiras externas.

Os ataques terroristas de julho em Londres lançaram uma sombra sobre essa liberdade. Menos de uma semana após as explosões, a França tornou-se o primeiro país a restaurar controles de fronteira, usando procedimentos temporários de emergência incluídos no acordo de Schengen.

Quando se soube que um dos suspeitos de Londres conseguiu viajar de trem por todo o continente até ser preso na Itália, intensificou-se o debate sobre a necessidade de enrijecimento dos controles. Na Ponte da Europa, que conecta Estrasburgo a Kehl, entretanto, até agora não houve mudanças.

Alsácia

Muitos dizem que não podem imaginar voltar aos dias dos controles de passaportes. De acordo com Gunther Petry, prefeito de Kehl, metade dos operários da indústria em torno da sua cidade são franceses, e mais da metade dos vendedores das lojas locais dependem dos clientes franceses. "A volta da fronteira é inconcebível", disse ele.

"Há razões práticas e econômicas, mas também razões simbólicas. Aqui na fronteira, a história é muito mais viva." Da Guerra dos Trinta Anos, que terminou em 1648, até a devastação da Segunda Guerra Mundial, a Alsácia foi disputada por várias encarnações do que hoje são a França e a Alemanha. A região, que hoje abriga o Conselho da Europa e o Parlamento Europeu, passou entre a França e a Alemanha cinco vezes.

Uma piada local diz que os alsacianos guardam as placas de rua alemãs no porão, caso voltem a ser necessárias. A história dividida da região tornou-se a história de inúmeras famílias. Na sacristia ornada da catedral católica Gótica Romana que domina o centro de Estrasburgo, o reverendo Joseph Musser, 60, conta uma história típica: seu avô nasceu no final do século 19, quando a Alsácia era da Alemanha, e lutou no lado alemão da Primeira Guerra.

Seu pai era criança quando a região voltou para o poder da França, depois da Primeira Guerra; ele lutou com os franceses na Segunda Guerra. A vida de Musser acompanhou o nascimento da UE a partir dos destroços da guerra. Dois de seus sobrinhos estão casados com alemãs. "Aqui na Alsácia", diz ele, "a reconciliação franco-alemã não é apenas um conceito abstrato, é uma realidade diária."

Essa realidade deixou marcas em toda parte. A maior parte das escolas da região oferece programas bilíngües. A polícia da fronteira faz patrulhas conjuntas duas vezes por semana, e os prefeitos de Estrasburgo e Kehl querem criar um "distrito europeu", envolvendo as duas cidades, talvez com um único código telefônico e registro de automóveis.

Niels Pakull, 20, cuja mãe é suíça-francesa e o pai é alemão, tem diploma escolar bilíngüe e está terminando a graduação em administração bilíngüe. Seu tempo é dividido entre Reutlingen, na Alemanha, e Reims, na França. "Algumas vezes, acho que sou alemão, outras, me sinto francês", disse Pakull, cujo trabalho para a prefeitura de Estrasburgo temporariamente o transferiu para Kehl para cuidar de uma piscina externa. "Mas definitivamente me sinto europeu."

Em Colmar, 70 km ao sul de Estrasburgo, Bernard Sturm, 65, diz que rejeita toda a idéia de nacionalidade, argumentando que se sente primeiro alsaciano, depois europeu, não francês. "Temos a eficiência dos alemães e o saber viver dos franceses, temos o melhor dos dois mundos", disse Sturm, sentado em um café na frente da imponente estação de trem de tijolos, em estilo alemão.

Uma viagem pelos vinhedos do vale do Reno revela casas com madeiras e igrejas pitorescas dos dois lados do rio. A região é lar do Riesling, renomado vinho alemão, e da Kronenbourg, a mais famosa cerveja francesa, que é fabricada ao sul de Estrasburgo.

Apesar da mistura cultural antiga, os dois lados da fronteira mantiveram suas identidades diferentes: se a Alsácia é a parte mais germânica da França, com elos culturais, artísticos e lingüísticos que atravessaram vários séculos, ela ainda é francesa, se comparada com a sensação decididamente alemã do vale do Reno alemão.

"O charme dessa região é que você tem os dois", disse Petry. Ele fala alemão com as autoridades de Estrasburgo, que respondem em francês. "Nós nos entendemos, mas preferimos falar nossas próprias línguas, funciona bem."

Dois meses depois da rejeição da proposta Constituição Européia por eleitores franceses e holandeses, a experiência da Alsácia pode ter algumas lições, enquanto os políticos da UE tentam encontrar formas de reconquistar cidadãos desencantados.

Diferentemente da França como um todo, Estrasburgo votou majoritariamente em favor da Constituição no referendo de maio. 63% votaram a favor da carta, enquanto 55% dos franceses disseram não, em uma votação que pareceu negar tanto o governo nacional quanto a desanimadora UE.

"Quando você é exposto aos seus vizinhos e próximo às instituições européias, você não tem medo da Europa, é simples assim", disse Pascal Mangin, 35, sub-prefeito de Estrasburgo responsável para assuntos europeus.

"Nós mudamos de nacionalidade cinco vezes, e a Europa conseguiu superar tudo isso. Quando você está ao lado do seu inimigo secular e esquece que da fronteira, está diante de uma mensagem poderosa."

Tradução: Deborah Weinberg

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