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02/11/2005

Merkel sofre um novo revés político na Alemanha

International Herald Tribune
Judy Dempsey
Em Berlim
Angela Merkel vinha procurando manter a sua futura coalizão governamental unida na terça-feira (1º/11), após sofrer o segundo revés político em dois dias: o seu rival de partido, Edmund Stoiber, declarou que deixaria o gabinete dela e retornaria à política da sua nativa Baviera.

Stoiber, governador da Baviera e líder da União Social Cristã, partido aliado da conservadora União Democrata Cristã, de Merkel, disse que não ficará à frente de um expandido e mais poderoso Ministério da Economia, em Berlim. Ao deixar a coalizão, Stoiber afirmou que não sabe se a coalizão de Merkel, formada por conservadores e social-democratas, será capaz de sobreviver.

Gernot Erler, um preeminente social-democrata, concordou. "Todo o projeto de cooperação para a formação de um governo está sendo reavaliado", afirmou Erler, vice-líder parlamentar do seu partido.

Ninguém quis falar abertamente sobre a possibilidade de mais incerteza política para a maior economia da Europa, e tampouco sobre a perspectiva de novas eleições, caso a confusão atual conduza a um impasse político. Mas a probabilidade de que Merkel, que espera ser eleita chanceler pelo parlamento em 22 de novembro, possa exercer um mandato de quatro anos como a primeira mulher a liderar a Alemanha parece ter diminuído.

No primeiro revés para Merkel, Franz Müntefering, designado vice-chanceler e ministro do Trabalho, renunciou subitamente na última segunda-feira da posição de líder dos social-democratas, após uma rebelião por parte de uma geração mais nova de políticos do partido.

Em um quadro no qual Müntefering não mais conta com a autoridade para pressionar à esquerda por um acordo de coalizão, e sem que Stoiber se envolva mais nas negociações, Merkel se vê em uma posição ainda mais débil para conseguir uma aliança que seja aceita pelos conservadores ou pelos social-democratas.

Na segunda-feira, Müntefering renunciou os seus cargos, depois que os social-democratas rejeitaram o nome de Kajo Wasserhövel como o seu candidato ao cargo de secretário-geral do partido.

Em vez disso, eles elegeram Andrea Nahles, 35, um esquerdista que representa os jovens social-democratas cujas carreiras dentro do partido foram bloqueadas por Müntefering, 65, e pelo chanceler Gerhard Schröder.

Nahles e outros criticaram repetidamente o estilo de liderança de Müntefering, afirmando que o partido jamais foi consultado a respeito da decisão tomada por Schröder em maio deste ano no sentido de realizar eleições antecipadas ou de integrar uma grande coalizão liderada por Merkel e que incluiria os principais partidos.

"Müntefering avaliou mal o clima dentro do partido", afirmou Gero Neugebauer, cientista político do Instituto Otto-Suhr de ciência e sociologia. "A crise chegou muito cedo para ele e para Merkel".

Matthias Wissmann, um membro graduado da União Democrata Cristã e integrante do parlamento, disse que Merkel é "a âncora estável remanescente para as negociações de uma coalizão".

De acordo com ele, os fatos ocorridos na segunda e na terça-feira tornarão bem mais difícil a montagem de uma grande coalizão.

"Creio que, no final das contas, a coalizão funcionará, mas os fatos ocorridos farão com que seja mais difícil a formação de uma arquitetura estável para essa aliança", acrescentou Wissmann. "A probabilidade de que a coalizão não permaneça estável no decorrer dos próximos quatro anos é agora maior".

Os líderes partidários envolvidos nas negociações da coalizão alemã sempre desempenharam um grande papel, tanto no fechamento de acordos sobre a aliança, quanto na obtenção de postos-chave no governo. Esperava-se que eles exercessem autoridade sobre os seus partidos e assumissem a responsabilidade pelas decisões de governo.

Ao retornar à Baviera, Stoiber será capaz de criticar Merkel e até mesmo de desestabilizar a coalizão, enquanto Michael Glos, o sucessor em Berlim, contará com pouca autoridade para impor disciplina sobre o partido. Glos é o líder parlamentar da União Social Cristã.

Stoiber, que perdeu por pouco a eleição de 2002 para Schröder, tem se chocado freqüentemente com Merkel quanto às questões políticas. Aparentemente, até as principais concessões que ele obteve quanto aos poderes ministeriais não foram suficientes para que se sentisse tentado a permanecer em Berlim em um governo Merkel.

O nome do sucessor de Müntefering será discutido nesta quarta-feira, quando os social-democratas farão uma reunião especial em Berlim. Os dois principais candidatos, ambos moderados, são Matthias Platzeck, 51, premiê dos Estado oriental de Brandeburgo, e Kurt Beck, 56, premiê da Renânia-Palatinado.

Embora se acredite que ambos venham a encontrar dificuldades em apresentar à base social-democrata um acordo que seja aceitável para os conservadores, o Partido Social-Democrata também tem muito a perder caso deixe a coalizão neste momento.

Os social-democratas possuem oito dos 16 ministérios em um governo liderado por Merkel, incluindo os poderosos postos nos gabinetes das Finanças, do Trabalho e das Relações Exteriores.

Embora Erler tenha levantado dúvidas a respeito do sucesso das atuais negociações, membros do partido de Merkel também manifestaram ceticismo.

Wolfgang Bosbach, vice-líder parlamentar dos democratas-cristãos, disse: "Queremos conduzir essas negociações rumo a uma conclusão bem-sucedida, mas não se pode descartar a possibilidade de que elas venham a fracassar".

Jürgen Rüttgers, o premiê democrata-cristão da Renânia do Norte-Vestfália, cuja vitória sobre os social-democratas em maio passado instou Schröder a pedir eleições antecipadas, disse que a crise entre os social-democratas fez com que emergissem dúvidas quanto à viabilidade de uma grande coalizão. "Neste exato momento, não se pode afirmar que a grande coalizão de fato se concretizará", disse ele.

O apoio frio de Rüttgers à coalizão camufla as suas próprias críticas a Merkel. Ele reclamou de que ela não cumpriu a promessa de incluir no seu gabinete um membro graduado da Renânia do Norte-Vestfália, o Estado alemão mais populoso.

Até o momento nenhum partido solicitou novas eleições. "Essa não seria uma alternativa real", argumentou Wissmann. "Pelo contrário, a convocação de novas eleições seria a última das alternativas".

Muito dependerá do que acontecer em duas semanas, quando os social-democratas realizarem a sua convenção partidária, na qual elegerão uma nova liderança e decidirão se vão aceitar o acordo de coalizão. Caso não aceitem o acordo, o Bundestag rejeitará a votação do nome de Merkel para o cargo de chanceler do país até que haja um entendimento quanto à coalizão.

Se não se chegar a acordo algum, o presidente Horst Köhler poderá pedir a Schröder que permaneça no cargo de chanceler até que o impasse seja resolvido, ou então poderá convocar novas eleições. Edmund Stoiber abandona gabinete e enfraquece a grande coalizão Danilo Fonseca

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