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15/03/2006

Cresce a influência européia na Ásia

International Herald Tribune
Thomas Fuller em Bancoc, Tailândia
Faz décadas desde que os holandeses deixaram a Indonésia, os franceses partiram da Indochina e os britânicos saíram da Malásia. E com a exceção de alguns postos comerciais como Hong Kong e Macau, o poder e influência europeus na região diminuíram dramaticamente. Mas uma combinação de fatores nos últimos anos, incluindo a expansão da União Européia para 25 países, a introdução da moeda única européia e os temores de que a Ásia está dependente demais do dólar, tem provocado uma discreta mas crescente presença européia na Ásia, disseram analistas e funcionários de governo.

Esta é uma Europa diferente daquela que colonizou grandes trechos do
continente: mais unida, freqüentemente representada por tecnocratas, não vice-reis, e certamente mais pacífica. As regras de segurança e ambientais européias, concebidas em Bruxelas, estão cada vez mais se tornando padrões asiáticos nas fábricas que produzem os televisores, roupas e móveis que enchem a maioria dos lares ocidentais. O peso e tamanho do mercado expandido da União Européia -cerca de 450 milhões de consumidores em comparação a 300 milhões nos Estados Unidos- têm aumentado o perfil das normas da UE, dizem especialistas nestes padrões.

Nos mercados asiáticos, títulos estão sendo comprados e vendidos em euros, uma moeda que há poucos anos era desprezada aqui como a "experiência européia". Cerca de 20% do total de títulos estrangeiros da China estão denominados em euros, um dos níveis mais altos da região, segundo Marshall Mays, diretor do Asian Bond Market Forum, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos baseada em Hong Kong. "Vista da Ásia, a Europa sempre foi uma noção vaga", disse Mays. "Mas está ganhando clareza."

"Está ficando cada vez mais claro que a Europa está lentamente se tornando um contrapeso para a demanda de consumo e poderio industrial dos Estados Unidos."

Nos anos pós-coloniais, a Europa costumava falar com múltiplas vozes na Ásia -com sotaques britânicos, alemães, franceses e italianos, entre outros. E apesar disto ainda ser verdadeiro, em alguns níveis os asiáticos estão se acostumando a ouvir uma voz européia mais singular. Recentes disputas comerciais em torno de roupas e calçados têm sido descritas como Europa contra China ou mesmo Europa contra Ásia.

É claro, a cacofonia de dissensão e debate dentro da Europa em torno do euro e outras políticas da UE ainda é audível nas capitais asiáticas. Mas em um barômetro chave de confiança na moeda única européia, os bancos centrais asiáticos estão progressivamente aumentando suas reservas de euros, disseram economistas.

Michael Spencer, o economista chefe na Ásia do Deutsche Bank, estima que cerca de 25% das reservas dos bancos centrais na Ásia, excluindo o Japão, são em euros. Isto representa um aumento de cerca de 20 pontos percentuais, ele estima, em comparação com as reservas que os bancos centrais asiáticos mantinham nas moedas combinadas das antecessores do euro: o marco alemão, o franco francês e outras. O dólar, é claro, continua sendo o rei na Ásia, mas autoridades dos bancos centrais reconhecem o desejo de se garantirem contra a moeda americana.

"Nos últimos três anos há a preocupação com a dívida americana e o atual déficit", disse Julia Leung, uma diretora da Autoridade Monetária de Hong Kong, o banco central do território. "Há uma busca por diversificação."

A julgar pelo tamanho de suas economias, a União Européia e os Estados Unidos são quase equivalentes, com seus produtos internos brutos estando pouco abaixo de US$ 13 trilhões. Os Estados Unidos compram uma fatia ligeiramente maior das exportações asiáticas a cada ano, mas por uma série de motivos a presença da Europa às vezes é mais fortemente sentida nas fábricas asiáticas.

Em um depósito nos arredores de Bancoc, engenheiros que trabalham para uma empresa com sede em Genebra, chamada SGS, testam mais de 1.000 produtos por
dia: alimentos, brinquedos, roupas -qualquer coisa que será exportada. Caminhando pelos corredores da instalação em um avental branco de laboratório, Pornpana Lirathpong, uma gerente da empresa, aponta para os produtos que estão sendo checados para atender os padrões europeus. As diretrizes da União Européia são citadas por ela como um fã de beisebol citando resultados. Ela mencionou a diretriz 2002/95EC, que proíbe o uso de substâncias perigosas em equipamentos eletrônicos. E a EEC EN71, uma conjunto de normas de segurança para brinquedos infantis.

Yudhana Petchmanee, um gerente sênior da SGS, disse que a União Européia é mais "severa", explícita e precisa em seus testes do que outros países. "Se você atender os da Europa, você atende a maioria dos outros países", disse Yudhana. Com a exceção do Japão, muitos países na Ásia baseiam seus padrões nas normas da UE, ele disse. O uso de normas européias sugere um crescente grau de interdependência que poderá facilitar o comércio entre as duas regiões, disseram especialistas. E ao adotar as normas européias, os países asiáticos também estão disseminando o uso de normas européias para outras partes do mundo.

Na fábrica da General Motors, a três horas ao sul de Bancoc, 400 carros e picapes saem diariamente de uma linha de montagem e cada um é testado usando um teste de emissões europeu. Poucos carros são de fato enviados para a Europa -a maioria vai para clientes no Sudeste Asiático, Austrália e Oriente Médio. "A Europa tem um padrão que se aplica a muitos países", explicou John Thomson, diretor de marketing da General Motors do Sudeste Asiático. Poucos países usam as normas de emissões americanas, disse Thomson, porque "você não pode seguir um país que tem regras diferentes para Estados diferentes".

Um número crescente de países asiáticos está adotando um acordo mais amplo, europeu, para automóveis, que cobre uma grande variedade de especificações de segurança e emissões. O acordo oferece um catálogo de 123 especificações diferentes de segurança e emissões -tudo, da distância mínima de frenagem, exigências de performance para os cintos de segurança, brilho dos faróis e nível de ruído dos pneus na estrada. O acordo foi concebido em 1958 pelos governos europeus e agora é administrado pela Comissão Econômica das Nações Unidas para Europa, um grupo regional da ONU.

"A Europa está facilitando um acordo bilateral com a Ásia", disse Michael J. Dunne, presidente da Automotive Resources Asia, uma consultoria com escritórios em Pequim, Xangai e Bancoc. "Isto significa chegar mais rapidamente ao mercado."

O Japão aderiu ao acordo europeu em 1998, a Austrália em 2000, a Nova Zelândia em 2002, a Coréia do Sul em 2004 e a Malásia em fevereiro deste ano. A Tailândia, que como muitos outros países asiáticos já usa partes das especificações européias, planeja adotar o texto integral no próximo ano.

Significativamente, os Estados Unidos não assinaram o acordo e provavelmente nunca assinarão, disseram autoridades, porque ele entre em choque com procedimentos de certificação mais laissez-fare nos Estados Unidos, onde as empresas são responsáveis por seus produtos mais do que o governo.

Muitos das normas européias que atualmente estão sendo adotados pela Ásia -para carros, brinquedos e têxteis- são legisladas sem que isto seja notado mesmo pela maioria dos consumidores europeus. Mas elas têm uma influência profunda no mundo manufatureiro asiático e além. Elas também podem servir, talvez inadvertidamente, para limpar o meio ambiente na Ásia.

Há três anos a Comissão Européia anunciou uma proibição a uma certa classe de corantes azo, antes amplamente usados em têxteis. A Comissão disse que estudos mostraram que o corante era tóxico para seres humanos e peixes e prejudicial ao "ambiente aquático". Centenas, se não milhares, de fábricas na Ásia precisaram se adaptar a um custo significativo, disse Horst Geicke, presidente do Pacific Alliance Group, com sede em Hong Kong, que possui confecções na China e no Vietnã.

"A Europa é tão poderosa, mas às vezes ficamos loucos com ela", disse Geicke. "Eu tenho que admitir que fiz parte da delegação que condenava isto. Nós dissemos: 'Esta é apenas uma barreira comercial'. Mas francamente, olhando para trás, eu acho que a proibição do azo foi uma coisa boa." Geicke disse que quando envia roupas para os Estados Unidos, o foco é menos em regulamentações do governo e mais no temor de processos. Toda roupa que ele envia para os Estados Unidos passa por uma máquina de raio X, para procurar por agulhas, por exemplo.

Yudhana, o gerente da divisão tailandesa da SGS, a empresa de certificação, disse que a principal diferença entre as exigências de saúde e segurança americanas e européias é que na Europa as regras são transformadas em lei, enquanto nos Estados Unidos as empresas freqüentemente seguem diretrizes voluntárias. Yudhana lembra de uma recente reunião com uma delegação de autoridades americanas, quando ele perguntou quais normas eram obrigatórias. "Elas são limitadas a produtos de alto risco", disse Yudhana, "medicamentos, equipamento médico, alguns eletrônicos". As regras européias, ele disse, são mais "sistemáticas" e portanto mais fáceis de serem copiadas por outros países. George El Khouri Andolfato

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