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06/05/2006

Ahmadinejad: Um fã da Copa do Mundo que deve ficar em casa

International Herald Tribune
Roger Cohen
O futebol é a paixão mundial, como nenhuma outra, e a Alemanha está prestes a ser a anfitriã da Copa do Mundo, uma festa global sem paralelo. A primavera, tardia mas adorável, chegou a Berlim, onde será disputada a final no estádio reformado que foi construído por Hitler para as Olimpíadas de 1936, três anos antes da tempestade que abalaria o mundo.

Tudo está bem. Todos os elementos foram colocados nos seus devidos lugares para um mês prazeroso, que será também uma celebração da Alemanha mais descontraída que nasceu com a queda do Muro de Berlim. Torcedores ingleses, carregados de malícia, lançaram uma camiseta com os dizeres "Não Mencione a Guerra". O lema oficial da Copa é "Um Momento Para Fazer Amigos".

Esse é um ótimo lema. A cerveja e o Brasil deverão manter todo mundo feliz. Mais cerveja e Beckham deixarão as pessoas ainda mais felizes. Mas uma Alemanha mais descontraída é, com certeza, ainda a Alemanha, e nada aqui é tão simples quanto pode parecer. O passado - admitido, declarado, reconhecido, pago - botará a cabeça de fora.

Não estou me referindo aos brutamontes racistas e neonazistas que, no mês passado, em Potsdam, atacaram Ermyas Mulugeta, um cidadão alemão descendente de etíopes, e quase o mataram, fraturando o seu crânio em vários lugares. Aquele incidente, entre outros, levou o Conselho Africano, um grupo comunitário daqui, a publicar um guia de lugares que devem ser evitados, especialmente no leste do país, onde os negros correm risco.

O racismo está vivo e vai bem na Alemanha, assim como em outros países da Europa, mas ele é limitado e os grupos direitistas estão à margem da sociedade. Com sorte, eles não estragaram a festa para os torcedores de Togo, Angola, Costa do Marfim e Gana.

Não, eu estou pensando em um outro reflexo do passado, que passa pelo Oriente Médio e volta à Alemanha por meio de Mahmoud Ahmadinejad, o presidente iraniano, cuja possível presença paira como nuvem negra sobre o torneio.

O Irã se classificou para a Copa do Mundo e fará a sua primeira partida em Nuremberg, o centro por excelência das hipnóticas manifestações de massa do Terceiro Reich. A Seleção Iraniana poderia enfrentar a dos Estados Unidos, fazendo com que o futebol adquirisse um sabor nuclear. Ahmadinejad é um ardente torcedor de futebol, que adoraria assistir ao jogo. Mas ele é também, segundo ficou evidenciado nos últimos meses, um ardente refutador do Holocausto. O presidente iraniano se referiu "ao mito que eles chamam de massacre dos judeus". Ahmadinejad disse: "Alguns países europeus insistem em dizer que durante a Segunda Guerra Mundial Hitler queimou milhões de judeus e os colocou em campos de concentração. Nós não aceitamos esta alegação". Além disso ele pediu que Israel fosse "varrido do mapa".

Será que tal líder seria bem recebido em solo alemão neste "momento de fazer amigos"? Wolfgang Schäuble, o ministro do Interior democrata-cristão aparentemente não vê nenhum problema nisso. "Ahmadinejad certamente pode vir à Copa do Mundo", disse ele no mês passado. "Queremos ser bons anfitriões".

O vice de Schäuble, August Hanning, fez uma crítica a essa posição nesta semana, dizendo: "É claro que temos que desempenhar o papel de anfitriões, mas também é desnecessário acrescentar que algumas pessoas são mais bem-vindas do que outras". Moral da história: Ahmadinejad pode vir, caso insista, mas estamos deixando claro que ele será aconselhado a permanecer distante daqui.

A Alemanha possui importantes interesses comerciais no Irã. A DaimlerChrysler, por exemplo, responde por uma parcela significante do mercado de veículos industriais do país.

De maneira geral, a União Européia (UE) não deseja se mover rumo a uma confrontação com o Irã devido ao programa nuclear iraniano. E ninguém quer criar problemas às vésperas de um evento que deve ser festivo acima de tudo.

Mas, neste caso, a Alemanha precisa fazer um ataque preventivo - um termo odiado por aqui - e barrar a presença de Ahmadinejad. O simbolismo da presença de um presidente que é um refutador do Holocausto em Nuremberg, ou em qualquer outra parte do país, prejudicaria tudo o que a Alemanha deseja alcançar por meio da Copa do Mundo.

A UE é capaz de manifestar determinação. Ela impediu que o presidente da Bielo-Rússia, Aleksandr Lukashenko, ingressasse na organização devido à sua ostensiva manipulação das recentes eleições. Ela interrompeu as conversações com a Sérvia e Montenegro sobre o estreitamento dos laços com a instituição devido ao fato de o país não ter prendido o general Ratko Mladic, o seu principal suspeito de ter cometido crimes de guerra.

Mas é claro que a Bielo-Rússia e a Sérvia são economicamente insignificantes e estrategicamente periféricas. Elas não possuem petróleo como o Irã. Falar grosso com esses países é uma medida quase que destituída de ônus. No caso do Irã, a situação é diferente.

Mesmo assim, a Alemanha deveria liderar um movimento para que a UE declarasse Ahmadinejad persona non grata até que ele retirasse o que disse a respeito do Holocausto e voltasse atrás com relação aos seus pedidos de aniquilação de Israel. O crime foi alemão, com o auxílio de outros europeus. Receber Ahmadinejad de braços abertos seria tentar ignorar esse fato.

Em vez disso, a Alemanha parece estar se escondendo atrás de detalhes técnicos. Alguns poucos políticos, incluindo Edmund Stoiber, o premiê da Baviera, afirmaram que Ahmadinejad não é bem-vindo. Mas a linha oficial adotada pelo Ministério do Exterior é a de que os chefes de Estado não precisam de visto para ingressar na Alemanha, e gozam de imunidade diplomática.

Tal imunidade poderia ser importante. A refutação do Holocausto é um crime na Alemanha. Oponho-me a esta lei por defender a liberdade de expressão, mas se neste caso ela servir como instrumento capaz de evitar a presença de Ahmadinejad na Copa do Mundo, terá sido de alguma utilidade. A recente prisão na Áustria de David Irving, o historiador britânico e, esporadicamente, refutador do Holocausto, sugere que tais leis têm dentes afiados.

"Estou chocado com o fato de não haver debate sobre isso em um país que declarou de forma tão clara que negar Auschwitz é algo intolerável", afirmou Gary Smith, diretor-executivo da Academia Americana em Berlim. "Todas as vezes que menciono o assunto sou alvo de olhares sem expressão".

A falta de expressão não é uma resposta. A Alemanha não pode varrer esta questão para debaixo do tapete. O país está se preparando para fazer milhões de novos amigos. Mas amizade tem que significar algo. E para significar algo ela precisa contar com os seus limites. O país melhorará a sua imagem caso deixe isso claro antes que a festa comece. Danilo Fonseca

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