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17/05/2006

Em Cannes, monotonia está fora, política dentro

International Herald Tribune
Joan Dupont
Com os anos, o festival de Cannes mudou de cara, para melhor ou para pior. Eu comecei em 1980, ano em que "Kagemusha", de Akira Kurosawa, venceu a Palma de Ouro junto com "All That Jazz", de Bob Fosse, um prêmio bem dado, que celebrou o drama samurai e o musical de Hollywood.

O festival era um lugar onde as coisas aconteciam pela primeira vez, e você conhecia os filmes e seus produtores. Naquela época, era um circo familiar, com nações rivais fazendo estripulias nos trapézios, fatos dramáticos e cambalhotas. Cannes era emocionante, o Palácio Rococó, o Bar Azul de sonhos intermináveis e maratonas de festas nas montanhas. Ainda assim, era fácil entrar de penetra em uma apresentação ou festa, entrevistar uma celebridade, provocar uma briga. Cannes era sem lei, como foi capturado no romance de Irwin Shaw, "Entardecer em Bizâncio".

O festival não é mais sem lei, está cheio de regras e tabus. É para os poderosos, que deixam os restos às casas mais baixas. Na época, éramos poucos repórteres; hoje são milhares buscando a Beautiful People (conhecida aqui como Les People).

Na conferência de imprensa deste ano, o diretor de programação Thierry Frèmaux prometeu sangue fresco, até algum terror. Mais tarde, na televisão, ele disse que quando o comitê de seleção via algum filme belo, mas difícil, sua reação era: "Sim, é bonito, mas chato". O tédio está fora de moda, talvez com poucas exceções.

Os programadores, aparentemente, queriam fazer escolhas políticas, especialmente politicamente incorretas, como aconteceu com a Palma de Ouro que foi para "Fahrenheit 9/11", de Michael Moore, há dois anos. O filme de Nanni Moretti, anti-Berlusconi, "The Caiman", deve agitar o caldeirão, assim como o filme de Richard Linklater, "Fast Food Nation". Este se baseia no livro de Eric Schlosser que irritou a indústria da carne e faz o público nunca mais querer comer um bife.

Não só um evento político, a fita tem um elenco que fornece glamour ao tapete vermelho: além do diretor e seu co-roteirista Schlosser, os atores Greg Kinnear, Ethan Hawke, Catalina Sandino Moreno, Ashley Johnson e Bobby Cannavale e a estrela do rock Avril Lavigne.

O presidente do júri, Wong Kar Wai, julgará uma seleção que é em grande parte européia, com um novo cinema vindo da América Latina, um único filme chinês "Summer Palace", de Lou Ye, e apenas duas diretoras: Sofia Coppola e Nicole Garcia.

A cerimônia de abertura na quarta-feira (17/5) será presidida pelo ator francês Vincent Cassel, cuja mulher, Mônica Bellucci está no júri. A noite será um acordo cordial franco-americano, com a estréia de "Código Da Vinci" de Ron Howard, que não está na competição. O filme tem no elenco Tom Hanks, Audrey Tautou e Jean Reno e foi parcialmente gravado no Louvre, à noite, quando o museu estava fechado.

Quanto à competição, o muito esperado "Marie Antoinette", de Coppola, também foi filmado na França, em Paris, em Versailles e em outros castelos. Kirsten Dunst faz uma rainha moderna, atrevida, auto-indulgente e desconsolada, uma jovem austríaca no reino errado na hora errada. Há grande expectativa, já que os filmes anteriores de Coppola foram populares, e ela é, como dizem na França, "People", assim como Antonia Fraser, autora de "Marie Antoinette: The Journey", biografia em que se baseou o filme.

Tudo em torno de Cannes é alta pressão, porque o festival não são apenas duas dúzias de filmes em competição; ele concorre com Berlim, Veneza e Toronto para receber os filmes mais excitantes e seus astros: Brad Pitt e Cate Blanchett, em "Babel", de Alejandro Gonzalez Iñárritu; Penélope Cruz de volta com Pedro Almodóvar, em "Volver", e em uma apresentação especial, o astro de futebol Zinedine Zidane, herói nacional francês, em "Zidane, Un Portrait du 21éme Siécle", dos artistas visuais Philippe Parreno e Douglas Gordon.

Nestes últimos anos, tem havido pressão para se encontrar filmes que derramam sangue, como "Flandres", de Bruno Dumont, que promete carnificina nos campos, ou "Southland Tales", de Richard Kelly, no gênero "Pulp Fiction".

A seleção francesa inclui "Selon Charlie", de Nicole Garcia, uma obra com Jean-Pierre Bacri, Benoit Magimel e Vincent Lindon; e Xavier Giannoli competindo pela primeira vez com "Quand J'ètais Chanteur", com Gérard Depardieu. Outro que estréia é Rachid Bouchareb, com um elenco formidável em "Indigènes": Jamel Debbouze, Samy Nacéri, Sami Bouajila e Roschdy Zem.

Parece que o conceito de nacionalidade e fronteira está mudando, os diretores estão contando histórias de formas diferentes, mudando de tempo e lugar. "Babel" de Iñárritu é composto por histórias cruzadas em Marrocos, Tunísia México e Japão. "Pan's Labyrinth", de Guillermo del Toro, é ambientado em 1944 entre rebeldes que lutaram a guerra civil e o filme tende para a fantasia burlesca.

A seleção oficial tem a responsabilidade de prover o melhor do cinema de autoria, então alguns dos filmes mais exigentes estarão ali. O diretor turco vencedor de prêmios Nuri Bilge Ceylan está de volta com outra aventura enigmática, "Climates". Pedro Costa, o envolvente diretor português conhecido por seu estilo cinema vérité, está na competição pela primeira vez com "Juventude em Marcha", sobre imigrantes de Cabo Verde em Lisboa.

A dificuldade sempre foi escolher entre mostrar o filme logo cedo, e arriscar ser esquecido quando chegar a hora de votar, ou guardar para depois, quando os críticos e jurados podem estar saciados.

E quem sabe o que vai agradar o presidente do júri? Wong Kar Wai, o mestre do drama pode preferir "The Wind that Shakes the Barley", de Ken Loach, um filme histórico político sobre uma guerrilha irlandesa contra os ingleses. Ou talvez aprecie o diretor ator belga Lucas Belvaux, em competição pela primeira vez com "La Raison Du Plus Faible". Também não podemos descontar Aki Kaurismaki, que faz maravilhas com a espontaneidade em Helsinki, banhada a álcool. O mais recente é "Laitakaupungin Valot".

Recentemente, a programação usou a tática de guardar o melhor para o fim, no caso de os famosos ficarem entediados e quererem ir embora antes do final. Algumas vezes funciona, outras não. Deborah Weinberg

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