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26/05/2006

Na Fórmula 1, apesar da tecnologia, às vezes os métodos antigos são os melhores

International Herald Tribune
Brad Spurgeon
em Mônaco
Embora a tecnologia tenha transformado quase tudo na categoria mais nobre do automobilismo, a Fórmula 1 ainda conta com umas poucas práticas ultrapassadas das quais foi incapaz de se livrar. A maior delas é a corrida que ocorrerá neste final de semana, quando os carros tecnologicamente mais avançados do mundo cortarem velozmente as ruas sinuosas e estreitas deste principado no Mediterrâneo, durante o 64º Grande Prêmio de Mônaco.

Enquanto a maioria das pistas originais do esporte foi substituída ou reformulada para atender às especificações dos carros de corrida, o circuito de Mônaco, graças ao próprio traçado da cidade, pouco mudou desde o primeiro Grande Prêmio ocorrido aqui em 1929.

Mas como a epítome do glamour, esta corrida atrai astros, patrocinadores e a mídia, o que faz dela o mais importante evento comercial da temporada, e justifica o lugar que ocupa no calendário da Fórmula 1.

Mas isso não explica por que anacronismos como os sinais com bandeiras coloridas, cartazes de instruções segurados por seres humanos ao lado da pista e o sinal "pirulito" para controlar um pit stop também continuam inalterados.

"Estamos sempre atrás da melhor performance e da menor probabilidade de fracasso", afirma Gil de Ferran, diretor esportivo da Honda. "E às vezes soluções como o cartaz e o "pirulito" são aquelas que nos proporcionam os mais elevados desempenhos e a menor probabilidade de fracasso".

Mas como ocorre com muitas coisas que dependem do comportamento humano, quando algo sai errado, sai de fato errado. O pirulito é uma placa redonda colocada na extremidade de um bastão, segurado por um membro da equipe sobre o nariz do carro durante um pit stop, com o objetivo de sinalizar quando a tarefa terminou e o piloto pode voltar à corrida.

No Grande Prêmio de San Marino, no mês passado, o membro da escuderia encarregado de segurar o pirulito levantou o pirulito cedo demais durante o pit stop de Jenson Button, e o inglês avançou sobre funcionários da equipe e foi obrigado a parar, o que lhe custou um lugar no pódio em uma corrida que a Honda acreditava ser a sua melhor neste ano.

"Sabíamos que tínhamos que fazer um bom pit stop", disse de Ferran. "Estávamos conscientes de que qualquer décimo de segundo de atraso poderia fazer uma diferença. Aquele foi um exemplo típico de homem e máquina no limite. É isso o que é a corrida automobilística. Tudo e todos levados ao limite do estresse e do tormento".

O homem do pirulito, o mecânico chefe da equipe, Alistair Gibson, estava consciente de que a parada seria curta, já que aquela era a segunda de três paradas previstas, de forma que deu início ao procedimento de largada mais cedo do que o normal.

O primeiro movimento é inverter o pirulito a fim de mostrar ao piloto as palavras "marcha engatada". Como se tratava de uma parada curta, os momentos da troca de pneus e de reabastecimento do carro ficaram mais próximos que o comum, de forma que ficou mais difícil para Gibson verificar quando a operação foi concluída. Assim, ele agiu muito rapidamente, liberando o carro para a arrancada antes que o reabastecimento de combustível tivesse terminado.

"Ele se precipitou", afirma de Ferran.

Nick Heidfeld, piloto da BMW-Sauber, disse que quando o homem do pirulito move a placa um pouco, como às vezes acontece, ele cria uma situação perigosa para o piloto.

"A nossa tendência é largar assim que percebemos o menor movimento na placa. Assim, como tem gente que se move um pouco, temos situações potencialmente desastrosas e muito perigosas", diz Heidfeld.

Em algumas séries, como a categoria alemã de corrida touring-race, existem sistemas tecnológicos mais avançados, como aquele que permite a elevação automática do carro, e sensores que avisam quando as quatro rodas foram trocadas.

"Temos pensado em vários outros sistemas", diz de Ferran. "Sensores para o reabastecimento, sensores de freios, sensores aqui, sensores acolá, dispositivos de segurança que desligam o motor quando algo sai errado. Mas o problema é que todos os sistemas nos quais pensamos apresentam maior potencial para falha do que o fator humano".

Ele diz que o mesmo se aplica à placa de informação que um membro da equipe segura com as mãos a fim de indicar ao piloto a sua posição na corrida, em que volta ele está e, às vezes, solicitar que retorne aos boxes. Esse sistema não sofreu nenhuma modificação desde os primórdios das corridas, embora à época se tratasse de um pequeno quadro-negro com a informação escrita com giz, enquanto atualmente este quadro é feito de fibra de carbono com buracos que fazem com que seja mais fácil segurá-lo em um dia de muito vento.

Embora na corrida de resistência de Le Mans seja utilizada uma placa eletrônica com luzes, estas são mais difíceis de serem lidas durante o dia, de forma que a Fórmula 1 usa grandes letras e números de plástico.

Johnny Herbert, ex-piloto de Fórmula 1, vencedor na categoria Le Mans e atualmente diretor da equipe MF1, diz que as informações que constam na placa são aquelas que é melhor não incluir no carro.

"No painel que há no carro só existem aquelas informações realmente necessárias, já que no veículo elas distraem mais o piloto", explica Herbert.

Scott Speed, piloto da equipe Toro Rosso, diz que só olha para a placa a cada três voltas, pois a vibração do carro em alta velocidade faz com que seja difícil a leitura.

"De dentro do carro, a visibilidade é horrível - bem menor do que 20/20, por causa da vibração", afirma Speed.

Porém, deixar de olhar para a placa com as informações dos boxes por três voltas pode ser perigoso. No Grande Prêmio da Austrália em 1997, Jean Alesi e a sua equipe Benetton perderam sem saber o contato via rádio. Depois que o piloto deixou de retornar aos boxes para reabastecer quando a equipe solicitou pelo rádio que o fizesse, os integrantes da escuderia utilizaram a placa para instruir Alesi a parar para o reabastecimento. Mas Alesi não olhou para a placa. Na volta seguinte, eles tentaram novamente, desta vez com as letras garrafais F-U-E-L (C-O-M-B-U-S-T-Í-V-E-L). Uma vez mais Alesi não viu a placa. Ele acabou ficando sem combustível e abandonando a corrida.

Nem mesmo as bandeiras sinalizadoras coloridas que alertam os pilotos sobre acidentes e fornecem outras informações foram substituídas, embora tenha sido testado um sistema com luzes eletrônicas em um painel.

As luzes são utilizadas para sinalizar a largada e controlar a saída da pista dos boxes. Mas durante os treinos de classificação do Grande Prêmio Europeu em Nurburgring neste mês, um erro nas conexões elétricas fez com que se acendessem as luzes vermelhas que anunciam uma interrupção da corrida - geralmente por causa de um acidente. Devido a isso, vários pilotos deixaram a pista e perderam um bom posicionamento no grid de largada. Aqueles que não viram bandeiras vermelhas continuaram correndo e obtiveram bons lugares no grid. Danilo Fonseca

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