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30/09/2006
Morte de Veneza? Muitos moradores deixam a cidade

Elisabetta Povoledo
Em Veneza


Há quatro meses, Mirella Dalla Pasqua, nascida e criada nesta venerada cidade construída sobre a água, fez algo que nunca imaginou que faria: comprou uma casa no continente.

AFP - 03.set.2006 
Alto preço de imóveis causa êxodo populacional na cidade


"Eu não tive escolha", disse Mirella, 31 anos, que descreveu a partida para o lado "terra firme" da lagoa como um trauma. "Eu tenho orgulho de ser veneziana", ela disse, mas "os preços dos imóveis estão impossivelmente altos em Veneza e você ainda tem que reformá-los. Jovens simplesmente não conseguem arcar com tal despesa". Mirella trabalha em uma loja de luvas perto da Ponte Rialto, no coração histórico de Veneza, e agora vai diariamente de condução para o trabalho. Ela não é a primeira veneziana a deixar esta cidade abraçada pelo mar. Nos últimos 50 anos, milhares já participaram do ato coletivo de desaparecimento. De um pico de 171 mil moradores em 1951, a população do centro histórico de Veneza caiu para menos de 62 mil. "Nós chegamos a um ponto de colapso, o ponto em que as coisas começam a se desfazer", disse Ezio Micelli, um planejador urbano.

Se a tendência continuar, os jornais se queixaram recentemente, até 2030 os venezianos autênticos estarão extintos e o centro histórico reduzido a uma concha sobrevivendo apenas do turismo. Pois enquanto os venezianos partem, os turistas continuam vindo. E vindo. Segundo estimativas recentes, entre 15 milhões e 18 milhões de turistas vieram a Veneza no ano passado. Em certos dias, o número deles ultrapassa facilmente o de moradores; durante o Carnaval pré-Quaresma no ano passado, havia 150 mil turistas por dia. Quando a proporção de turistas para moradores pende para o primeiro, "não é mais significativo falar em Veneza como uma sendo cidade", disse Robert Davis, um professor de história italiana da Universidade Estadual de Ohio. "A cidade já está basicamente perdida", disse Davis, um co-autor de "Venice: The Tourist Maze", uma critica cultural divertida e refletida do fenômeno do turismo. "A especulação é o que acontecerá a seguir." Veneza atualmente depende praticamente do turismo para sua sobrevivência econômica, apesar dos turistas complicarem o dia-a-dia para a maioria dos venezianos.

"Você não consegue mais tomar um 'vaporetto'" -o barco de transporte público que conduz as pessoas pelos canais- "sem encontrá-lo lotado de turistas e suas malas", reclamou Gianpietro Meneghetti, um gerente de banco aposentado. Ele disparou uma ladainha de queixas compartilhadas por muitos moradores, incluindo os preços altos para alimentos básicos e a incapacidade e viver normalmente entre os invasores estrangeiros. As lojas que atendem as necessidades diárias -supermercados, sapatarias e até mesmo cinemas- estão sendo constantemente expulsas por lojas que vendem vidro de Murano e máscaras de cerâmica. Hotéis, pensões, restaurantes e lanchonetes também passaram a disputar o espaço, elevando o preço dos imóveis, um recurso limitado dada a própria natureza de Veneza.

"As coisas custam demais -se você fica, é apenas porque herdou uma casa", disse Walter Pitteri, que mora em Mestre, a área em terra firme da Grande Veneza. Poder dirigir um carro também tem seu atrativo, ele acrescentou. "Eu nunca voltarei", ele disse. "Eu não estou interessado em uma cidade na qual é tão difícil de se viver." O preço dos imóveis é excepcionalmente alto em Veneza, em comparação ao continente -um apartamento com 100 metros quadrados custa mais de US$ 1 milhão no centro histórico, e ainda mais no Grande Canal- mas metade ou um quarto disto em terra firma, do outro lado da lagoa, dependendo da localização. Mesmo isto é alto demais para alguns: a população da Grande Veneza também caiu desde seu pico em 1968, de 367.832 habitantes. Atualmente ele está pouco abaixo de 270 mil, incluindo os moradores da cidade velha. O prefeito Massimo Cacciari aponta que a evasão de moradores nos centros das cidades é um problema em muitos lugares. Mas como Veneza é identificada como o centro histórico em sua lagoa, e não os subúrbios no continente, o problema da redução da população parece mais incômodo aqui, ele disse. "Pessoas também não moram no centro da Potsdamer Platz" em Berlim, disse Cacciari. "Em Veneza, é percebido como um grande problema."

Algo precisa ser feito para "deter o êxodo e proteger a população residente", afirmou Cacciari durante uma entrevista em seu gabinete, em um palácio adjacente ao Grande Canal. Apesar da cidade ter reservado dinheiro para ajudar casais jovens a arcarem com o custo dos altos aluguéis ou hipotecas, o dinheiro destinado "mal cobre um pequeno percentual das necessidades", disse Cacciari. Por meio de um órgão municipal de desenvolvimento imobiliário, a cidade está construindo entre 500 e 600 apartamentos em três áreas da cidade que serão alugados para famílias de classe média, o grupo social que corre maior risco de "extinção".

"Se você perde a classe média, você fica com uma polarização entre os muito ricos e os muito pobres, e a cidade perde coesão e se desfaz", disse Micelli, o planejador urbano, que também chefia o órgão municipal de desenvolvimento imobiliário. Projetos semelhantes em outras áreas de Veneza foram bem-sucedidos, ele disse, desacelerando o êxodo para o continente e "reforçando o tecido social". As autoridades venezianas também querem atrair novos moradores para o centro histórico e estão buscando desenvolver oportunidades de emprego fora do setor de turismo.

"Nós precisamos de novas energias de fora", disse Mara Rumiz, a vereadora veneziana encarregada da habitação. A atual população, ela disse, "não possui massa crítica suficiente para lançar a cidade em um novo caminho". Mas estimular novos negócios a se instalarem aqui não tem sido fácil. "Afinal, não é possível construir uma fábrica aqui", disse Cacciari, citando o frágil ecossistema de Veneza. Assim, a cidade está acentuando suas vantagens culturais, crescentes instalações de pesquisa e programas universitários no centro histórico, assim como promovendo eventos culturais como a Bienal de artes e o festival de cinema. Cacciari também está buscando fazer com que o turismo em massa ajude a pagar as despesas da cidade. Ele está tentando impor um imposto sobre turismo e fazer com que os moradores locais ganhem dinheiro com o turismo, para compensar de alguma forma a cidade pelo fardo que representa para os serviços locais. Tais impostos dificilmente afugentarão os turistas.

"A demanda por Veneza é inflexível -o aumento dos preços não vai detê-la", disse Davis, o autor. "As pessoas virão de qualquer jeito." Enquanto alguns aqui consideram as decisões dos próximos anos como sendo cruciais para o futuro de Veneza, outros buscam conforto no passado de uma cidade que muitas vezes antes foi declarada condenada.

"Veneza é uma cidade forte, apesar de sua aparente fragilidade", disse Franca Coin, presidente da Fundação Internacional Veneza, que levanta dinheiro para projetos de restauração. "É preciso acreditar no futuro da cidade. É preciso arregaçar as mangas e fazer um esforço, caso contrário você não conseguirá nada."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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