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11/10/2006
Declínio da população na Bulgária está matando as cidades

Matthew Brunwasser
Em Luky, Bulgária


Esta cidade mineira socialista do futuro era tão nova quando foi fundada em 1959 que tinha uma maternidade moderna e nenhum cemitério. Hoje a população é de 4 mil, contra 10 mil em 1990. Somente duas das cinco minas de chumbo-zinco ainda operam, incapazes de competir no mercado mundial. Oito das nove escolas da prefeitura fecharam porque há muito poucas crianças. A maternidade há muito tempo fechou as portas. "Quase lotamos nosso cemitério", disse Todor Todorov, prefeito dessa cidade nos montes Ródopes, no sul da Bulgária. "Estamos apressados para encontrar um terreno para um novo."

Desgastada mas encantadora, Luky não é negligenciada. As ruas são limpas e organizadas e muitos edifícios públicos estão recém-pintados. Somente os moradores vêem o que está faltando: as pessoas que antes enchiam as ruas. "A cidade está literalmente morrendo", disse Maria Ivanova, 49, que trabalha em um café na rua principal, sombreada por pinheiros. "Não há trabalho e todos os jovens foram embora."
Luky é um dos casos mais extremos de despovoamento na Bulgária, onde o declínio geral da população é considerado um dos mais graves do mundo. As 20 principais cidades perderam população desde 1989, exceto a capital, Sofia.

Segundo uma projeção do Population Reference Bureau, uma organização não-governamental em Washington, a população da Bulgária vai diminuir 34% de 2005 até 2050, de 7,7 milhões para 5 milhões. O birô, um instituto de análise, políticas e informação pública, projetou que o único país que provavelmente perderá mais pessoas nesse período será a Suazilândia, onde 38% da população têm o vírus da Aids.

Embora a queda populacional esteja afetando muitos outros países da Europa, o problema na Bulgária "tornou-se mais complexo devido ao baixo padrão de vida", disse Emilia Voynova, diretora do Escritório de Política Demográfica do Ministério do Trabalho e Política Social em Sofia. Voynova está preparando uma estratégia nacional para melhorar os padrões de vida de modo que os búlgaros tenham mais filhos, emigrem menos e vivam mais.

As dificuldades que a Bulgária enfrenta podem ser vistas em comparação com a Itália, que também tem problemas de população - existem só quatro trabalhadores para cada aposentado na Itália. Na Bulgária é apenas 1,5 trabalhador para cada dois aposentados, e a proporção está piorando. "Não há como o sistema de seguridade social se auto-sustentar", disse Voynova.

Yordan Kaltchev, diretor de estatísticas populacionais no Instituto Nacional de Estatísticas da Bulgária, disse que o declínio da população começou na era comunista e se acelerou quando o antigo sistema terminou em 1989 e a economia entrou em colapso. "Os jovens se sentiram inseguros sobre o futuro e isso se reflete em seu comportamento reprodutivo", ele disse.

O índice de fertilidade - o número médio de filhos por mulher - é de 1,3 hoje na Bulgária, o mesmo que na Alemanha. O índice necessário para manter o nível populacional é 2,2. Kaltchev estimou que 800 mil búlgaros emigraram de 1989 a 2004, ou cerca de 10% da população. O fato de que muitos dos que partiram eram jovens adultos acentuou o declínio.

O dilema demográfico da Bulgária é evidente nas 144 aldeias que hoje têm população zero. Outras 337 têm dez moradores ou menos. A aldeia de Balkan Mahala, a cerca de 12 quilômetros de Luky, tem uma população oficial de oito pessoas.

Mas seus moradores, membros de duas famílias, disseram que o número real é cinco, porque uma família se mudou no ano passado. São cerca de 30 casas espalhadas pelos morros, com telhados de pedra e quintais espaçosos, a maioria delas abandonada. Nikola Stoikov estava na quarta série quando sua escola fechou em 1964. Ele ainda mora na aldeia com seus pais, cada um dos quais tem uma casa. A família tem terras, ele disse, "mas não há ninguém para cuidar delas". "O Estado não pode fazer nada para nos ajudar", acrescentou Stoikov durante uma pausa enquanto alimentava seus porcos. "Só ficaram os velhos."

Seu pai, Vasil Stoikov, 84, estava encostado num barranco comendo o almoço de iogurte, salada e porco, tudo produzido por ele mesmo. Suas roupas são feitas em casa: calças de lã grossa fiada e tecida em casa, meias de tricô e um colete de tricô marrom. "Está ficando muito chato aqui", ele disse, olhando para a paisagem de montanhas azuis e colinas verdes. No panorama intocado que se desenrola até o horizonte, só se viam algumas estruturas feitas pelo homem. "É melhor não existir. Os velhos morrem e os jovens foram embora."

Para oeste, em Dupnitsa, a 70 quilômetros ao sul de Sofia, a população despencou de 57 mil para 44 mil no final dos anos 80. No período comunista, cerca de 70% dos habitantes trabalhavam em grandes fábricas, a maioria das quais está fechada, assim como Luky dependia das minas.

Dupnitsa oferece aos motoristas que passam uma visão pós-apocalíptica de severa decadência industrial. Enormes fábricas e galpões enferrujados com fileiras de janelas quebradas formam a vista em quase todo o trecho da rodovia internacional que atravessa a cidade. No centro dela, cheio de prédios em ruínas, edifícios oficiais de concreto e cafés modernos e vistosos, dois aposentados estavam sentados em um banco de parque.

"Estávamos falando sobre como era quando você não conseguia passar por aqui porque havia muita gente nas noites de verão", disse Ivanka Hristova. "Hoje você não vê uma única pessoa." Seu marido, Georgi Hristov, 60, foi diretor de produção numa fábrica de construção de máquinas que já empregou 1.400 pessoas e hoje está fechada. "É triste e deprimente que meus filhos tenham de ir para o estrangeiro procurar trabalho", ele disse. "Uma pessoa que foi educada como professora tem de ir para a Espanha tornar-se faxineira ou operária para viver melhor."

Do outro lado da praça, duas jovens mães empurravam carrinhos de bebê. Mas elas disseram que não pretendem aumentar suas famílias. "Este é meu único e último filho, porque não temos dinheiro suficiente", disse Daniela Deneva, 25, sobre sua filha de nove meses.

Seu marido é condutor na ferrovia estatal e ganha 425 levs, ou US$ 272 por mês. Ela recebe outros 160 levs de auxílio-maternidade do Estado. Só se os padrões de vida melhorassem, disse Deneva, os jovens gostariam de ter mais filhos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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