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19/10/2006
Cruzando o Atlântico com um Alcorão na mão

Katrin Bennhold
em Paris


Quando entrei no Aeroporto Internacional Dulles em Washington com duas malas e uma passagem para Paris, eu estava satisfeita por me parecer com uma mulher muçulmana. Um hijab deixava apenas o oval do meu rosto exposto -meu cabelo loiro estava coberto, preso em um coque - e estava vestindo uma saia até a altura do tornozelo. Para completar, uma cópia do Alcorão aparecia na minha sacola.

A idéia de me passar por muçulmana em um vôo transatlântico me ocorreu após entrevistar dezenas de jovens muçulmanos em Chicago sobre suas experiências pós-11 de Setembro. Um me deu um Alcorão. Ao voltar para Washington de Chicago, quando eu abri minha bolsa no check-in para pegar meu passaporte, o Alcorão foi notado. A agente da United Airlines ficou claramente incomodada.

Eu fui revistada e, na chegada a Washington, minha bagagem despachada apresentava um bilhete de segurança em seu interior me informando que ela também tinha sido revistada.

Muitas das pessoas que entrevistei em Chicago me falaram de aeroportos.

"Muçulmanos em aviões são como negros dirigindo tarde da noite", disse um jovem. "Eles são culpados até que se prove o contrário." Após várias autoridades islâmicas terem me assegurado que não seria ofensivo alguém como eu, uma não-muçulmana, se vestir como uma muçulmana, eu decidi vestir o hijab na viagem de volta à Europa.

Eu cheguei a Dulles no sábado passado coberta de preto, sem saber o que esperar. Mas ninguém voltou sua atenção para mim enquanto eu percorria o saguão de embarque até o balcão de check-in da Air France para o vôo AF039. As pessoas simplesmente cuidavam de suas vidas.

O homem jovem que examinava os passaportes na fila de check-in parecia ser do Oriente Médio. "Você jura pelo Alcorão que está embarcando no vôo das 17 horas?" ele disse. Eu lhe garanti que era o vôo certo e ele acenou para mim com um grande sorriso. "Isto não é tão ruim", pensei comigo mesma.

Minutos depois eu mudei de idéia. Quando um amigo que me acompanhou até o aeroporto pegou uma câmera para tirar minha foto, o homem de meia-idade atrás de mim se voltou para sua esposa e disse, em alemão: "Agora ela está tirando sua foto de mártir". "Shhh", sua esposa respondeu e riu.

Eles não sabiam que eu era alemã. Quando me voltei para eles e então fiz ao meu amigo uma pergunta em alemão, o embaraço deles ficou claro. O comentário era uma brincadeira. Mas falou muito sobre como o Islã e o terrorismo se tornaram interligados no subconsciente coletivo.

O check-in ocorreu tranqüilamente, mas eu estava atenta. Aguardando na fila de segurança, eu tentava ler os pensamentos das pessoas: alguma antipatia, me parecia, principalmente de pessoa mais velhas, e muita curiosidade, especialmente por parte das jovens. A certa altura meus olhos se cruzaram com os de uma mulher de aspecto indiano com um lenço de cabeça. Ela acenou com a cabeça e sorriu. "Nós estamos no mesmo barco", ela me pareceu dizer.

Uma funcionária da segurança percorreu a longa fila avisando as pessoas para descartarem suas bebidas. Quando ela chegou em mim ela disse: "Eu acredito que você não tenha bebidas -é o Ramadã, não é? Algum outro líquido?" Eu balancei a cabeça negativamente, impressionada com o conhecimento dela sobre o jejum muçulmano.

Um homem na fila iniciou uma conversa. "Você é turca?" ele perguntou, apontando para meu passaporte alemão. "Não, alemã", eu respondi. "Meio turca?" "Não, apenas alemã", eu sorri. Ele claramente tinha dificuldade para me categorizar. A grande maioria dos muçulmanos na Alemanha é descendente de "trabalhadores convidados" turcos que vieram nos anos 60 e 70.

À medida que a fila avançava, eu comecei a conversar com um negro perto de mim. Ele disse que não era muçulmano mas que dois de seus amigos afro-americanos eram. "Mas as pessoas não pensam em muçulmanos quando vêem negros", ele disse.

"É engraçado", ele se divertiu, balançando a cabeça, quando lhe contei sobre o incidente alemão no check-in. "As pessoas agora ficam felizes quando um negro se senta ao lado delas no avião. Por quê? Porque ele não é árabe."

Na máquina de raio X eu coloquei na esteira minha sacola de mão, sapatos e jaqueta e passei pelo detector de metais. Eu esperava ser chamada de lado para uma revista, mas nada aconteceu. Eu vesti minha jaqueta e sapatos. Quando estava prestes a seguir em frente, eu ouvi uma voz educada mas determinada: "Senhora. Por favor, venha por aqui, você foi selecionada para uma revista."

"Por que eu?" eu perguntei. "É aleatório, senhora", ele respondeu, indicando meia dúzia de outros que estavam sendo revistados: velho, jovem, branco, negro, latino. Eu era a única "muçulmana".

Aleatório. Enquanto revistavam minha sacola, a palavra me fez lembrar de uma conversa recente com um imã em Bridgeview, um subúrbio de Chicago com uma grande comunidade palestina. "Quando você é revistado 10 vezes seguidas, não parece mais aleatório", ele disse.

Muitos dos jovens muçulmanos que conheci disseram que se vestem ao estilo ocidental quando viajam para evitar serem selecionados para revista. Amjad Quadri, um cientista da computação de 31 anos que recentemente viajou para a Arábia Saudita e Iêmen, disse que usa calças jeans largas e rasgadas, tênis e camiseta, na esperança de parecer um turista americano. "Eu até mesmo uso boné de beisebol", ele disse, em vez de seu kufi habitual, um chapéu tradicional muçulmano.

A caminho do portão B-41, eu vi meu reflexo na janela e vi o que os outros viam. Eu não era mais apenas uma mulher, não mais uma alemã, uma jornalista ou uma pessoa de determinada cor ou forma. Eu era uma muçulmana. O hijab me definia.

Ao embarcar, outros passageiros não mediam esforços para ser de ajuda, se oferecendo para erguer minha sacola ao compartimento no alto e abrindo espaço quando eu passava. Eu finalmente me sentei em meu assento, com o Alcorão no meu colo. Uma jovem mulher britânica, lendo uma revista de fofoca com closes de celebridades em biquínis, evitava me olhar nos olhos. O brasileiro à minha esquerda pedia desculpas toda vez que seu braço ou joelho encostava em mim.

Felizmente nós estávamos voando no sentido leste, de forma que logo após a decolagem o sol se pôs e pude comer e beber sem estragar meu disfarce. Eu me lembrei de não pedir nenhuma carne de porco e nem meu habitual copo de vinho tinto. Após o jantar, eu desajeitadamente lutei para colocar fones de ouvido sob o hijab, pois não havia espaço entre minha cabeça e o tecido para ajeitá-los com a mão. No final, eu apenas apertei mais o lenço de cabeça e os enfiei lá dentro.

Me metade do caminho eu me levantei para me esticar e para um copo de água, levando meu bloco de notas comigo. Uma francesa notou o bloco e perguntou: "Você é estudante?" Eu respondi que era jornalista; ela pareceu surpresa. "Ah. E para quem você trabalha?" Al Jazeera ou algum boletim muçulmano, seus olhos pareciam perguntar. "O International Herald Tribune", eu respondi. Mais surpresa. "Ah. E o que você cobre?" Religião? "Política francesa."

Talvez ela não estivesse realmente pensando estas coisas. Eu notei durante a viagem que estava constantemente lendo as entrelinhas. "Como muçulmana, você sente que nunca pode ter um dia ruim", me disse Asma Akhras, uma professora de matemática síria-americana. "Quando você fica irritada no trânsito ou no comércio você sente que não pode demonstrar, por temer que as pessoas não vão apenas pensar 'mulher mal-humorada', elas vão pensar 'muçulmana mal-humorada'. É cansativo."

Nós pousamos no horário no Aeroporto Internacional Charles de Gaulle em Paris. Eram 6h30 da manhã e um aglomerado de viajantes cansados seguiu para o controle de passaporte. Uma fila parou de andar quando um homem de aparência árabe apresentou seu passaporte; demorou quase 10 minutos até ele ser autorizado a prosseguir. Quando um novo guichê foi aberto, minha fila se dividiu e uma mulher atrás de mim cutucou seu marido: "Venha, vai ser mais rápido aqui". Mas o funcionário mal me olhou, acenando para que passasse em menos de um minuto.

Eu peguei minhas malas na esteira de bagagens e tomei um táxi para casa. Em Dulles, a maioria dos motoristas parecia ser de origem paquistanesa ou indianos muçulmanos. Aqui, meu motorista era um francês descendente de argelinos. "Um dia nenhum de nós fará diferença entre muçulmanos, cristãos e judeus", ele disse. "Inshallah."

Tradução: George El Khouri Andolfato

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